Não verás país nenhum – Ignácio de Loyola Brandão

Opa, como estamos? 2012 chegou e com ele veio toda aquela balela de fim do mundo. Pelo tanto que já profetizaram sobre esse assunto, o mundo já deveria ter acabado umas dez vezes!

Nesse contexto, hoje temos o apocalíptico Não Verás País Nenhum de Ignácio de Loyola Brandão. Nessa narração, construída em 1981, o autor nos apresenta o Brasil em um futuro indeterminado dominado por um governo medíocre (chamado de Esquema), onde a Amazônia virou um deserto, as metrópoles sofrem com a falta de árvores e com o calor intenso; não há comida, água ou moradia para todas as pessoas – que estão divididas em castas e os mais pobres sobrevivem do lixo acumulado ao redor das cidades.

Nesse país, as cidades estão super lotadas, há mãos nas calçadas indicando a direção que se deve caminhar (igual as mãos existentes nas ruas). As manifestações populares são reprimidas com violência, assim como muitas palavras e expressões que são proíbidas e condenadas a qualquer momento, pois um fiscal do governo pode estar ao seu lado. O povo segue naquela vida de gado.

Uma catástrofe social, não é mesmo? Na orelha do livro temos uma extensa explicação sobre a composição da narrativa, destaco essa passagem que diz muito sobre o desenrolar da história:

Não Verás País Nenhum traz  uma história linear, que não coloca qualquer dificuldade ou qualquer experiência que possa assustar leitores menos dispostos a decifrar possíveis enigmas. Na verdade, fica até difícil, para quem abrir a primeira página, deixar de ir adiante. O livro pega como visgo, seja pelo interesse e importância dos assuntos tratados, seja pela forma como o escritor fala, neste caso, da extinção das condições de vida, das relações entre poder e povo, dos dramas pessoais.”

Apesar de o livro ter sido escrito no início da década de 80, o tema tratado é extremamente atual: aquecimento global, desigualdade social, governos tiranos, etc. vemos isso quase todo dia no jornal. Porém a narrativa, por muitas vezes, é lenta e um pouco maçante. Um ponto curioso é a divisão dos capítulos, estes estão separados como se fossem episódios de uma série e estão identificados com títulos que praticamente são resumos do que vem a seguir; esse ponto me lembrou muito o livro Dom Quixote, que também tem em seus capítulos títulos que dizem o que vai acontecer (vocês lembram como é? Algo do tipo “De como Dom Quixote enfrentou os moinhos de vento…”). Dois exemplos para vocês verem:

Capítulo 2:  Coçando a palma da mão (alergia?), Souza observa com fastioa a operação dos civiltares para dominar bandidos com balas catalépticas.

Capítulo 4: Algumas orientações a respeito da organização que o Esquema estabeleceu na cidade colocando ordem e progresso nas ruas.

Esse é um livro extremamente pessimista, mas que alerta sobre o desastre ambiental/social que pode ocorrer se as pessoas não tiverem educação adequada, porém as condições para que o povo seja instruído corretamente está nas mãos de governantes que só sabem olhar para o próprio umbigo – e Brasília dá um olá para a galera – e pouco ou nada se importam com o bem-estar social.  E nesse contexto (do livro), as pessoas vão se amontando em acampamentos paupérrimos, tendo seu direito de ir e vir reprimido, reciclando urina para beber, pois a aguá era um artigo de luxo e as fichas/cotas para ela eram escassas…

Oh, wait!

Sabe o que isso me lembrou? Há uns anos, algumas regiões do Brasil sofreram com uma enorme escassez de chuvas, o que ocasionou grande preocupação com falta de energia, já que as hidroelétricas estavam operando em seu nível mais baixo. Para evitar que houvesse um grande apagão, o governo decidiu impor aos cidadãos “cotas de energia”; cada casa tinha sua cota e se ela fosse ultrapassada os moradores pagariam uma taxa extra, uma espécie de multa.

A vida imita a arte ou a arte imita a vida?

Mafítico. O fedor vem dos cadáveres, do lixo e excrementos que se amontoam além dos Círculos Oficiais Permitidos, para lá dos Acampamentos Paupérrimos. Que não me ouçam designar tais regiões pelos apelidos populars. Mal sei o que me pode acontecer. Isolamento, acho.

Tentaram tudo para eliminar esse cheiro de morte e decomposição que nos agonia continuamente. Será que tentaram? Nada consegiram. Os caminhões, alegremente pintados em amarelo e verde, despejam  mortos, noite e dia. Sabemos, porque tais coisas sempre se sabem. É assim.

[...] O lixo forma setenta e sete colinas que ondulam, habitadas, todas. E o sol, violento demais, corrói e apodrece a carne, em poucas horas.

O cheiro dos mortos se mistura ao dos inseticidas impotentes e aos formóis. [...] Atravessa as máscaras obrigatórias, resseca a boca, os olhos lacrimejam, racha a pele. [...]

Forma-se uma atmosfera pestilencial que uma bateria de ventiladores possantes procura inutilmente expulsar. Para longe dos limites do oikoumenê, palavra que os sociólogos, ociosos, recuperaram da antiguidade, a fim de designar o espaço exíguo em que vivemos. Vivemos?  (p.11)

BRANDÃO, Ignácio de Loyola. Não verás país nenhum. Rio de Janeiro: Codecri, 1981.

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