A SOMBRA DO VENTO – CARLOS RUIZ ZAFÓN

a sombra do vento

Certa ocasião ouvi um cliente habitual da livraria de meu pai comentar que poucas coisas marcam tanto um leitor, como o primeiro livro que realmente abre caminho ao seu coração. As primeiras imagens, o eco dessas palavras, que pensamos ter deixado para trás nos acompanham por toda a vida e esculpem um palácio na nossa memória, ao qual mais tarde ou mais cedo – não importa os livros que leiamos, os mundos que descubramos, o quanto aprendamos ou esqueçamos – iremos retornar.

Gente, I’m fall in love! Claro que não estou falando de amor tipo beijinho-beijinho, mas dessa paixão que certas histórias despertam na gente, e o meu atual romance é com o espanhol Carlos Ruiz Zafón, autor de um dos melhores livros que li até hoje: A sombra do vento. Já fazia um tempo que estava querendo ler esse livro até que minha tia, como uma alma muito boa que é, me emprestou. Realmente superou minhas expectativas! 

Neste romance acompanhamos a história de Daniel Sempere, terceira geração de uma família de livreiros. Daniel perdeu a mãe ainda pequeno e desde então era amigo, ajudante, confidente e companheiro do pai. Anos mais tarde, o Senhor Sempere decide levar o pimpolho a um lugar misterioso: o Cemitério dos Livros Esquecidos. Lá Daniel descobre o livro A Sombra do Vento do semi-desconhecido Júlian Carax e, depois de passar a noite inteira envolvido com a história, Daniel passa a dedicar seu tempo tentando descobrir mais sobre o misterioso autor. Assim, o menino cresce e se vê envolvido numa trama com os mais variados temperos: amor, ódio, vingança, drama…

Não é preciso entender uma coisa para sentir. Quando a razão é capaz de entender o ocorrido, as feridas no coração já são profundas demais.

Não vou falar mais nada sobre o enredo para não estragar a surpresa, mas posso comentar que Zafón merece todas as boas críticas que vem recebendo. Sua maneira de escrever consegue seduzir o leitor na primeira página, juro que quase chorei no final (sou boba mesmo), isso sem falar nas ótimas frases de efeito que ele desenvolve ao longo da narrativa; suas personagens são quase filósofos nesse quesito ou como diria uma delas: são “pérolas cultivadas por atacado”. Como eu já disse por aí: as pessoas só citam o Caio Fernando Abreu porque ainda não conhecem o Carlos Ruiz Zafón! 

Daniel Sempere é um menino, como posso dizer… fofo e apaixonante! Queria ele pra mim só para coloca-lo na minha estante – eu quero te roubar pra mim! Sou obrigada a destacar a grande presença de Fermín Romero de Torres, um ex-combatente que virou morador de rua e foi resgatado por Daniel; sua visão político-ideológica rende ótimas tiradas, além de serem dele as melhores frases – de humor, principalmente.

Saber ninguém sabe, nem Freud, nem elas mesmas [as mulheres], mas isso é como a eletricidade, não é preciso saber como funciona para levar um choque.     (p. 76)

Tudo se perde, a começar pela vergonha. (p. 244)

Além de uma escrita envolvente, Zafón consegue descrever uma Barcelona de meados do século XX perfeitamente: é possível visualizar cada esquina, cada porta e janela, tudo. Essa capacidade dá ao seu romance mais que o caráter apenas ficcional, mas também o envereda por um viés histórico. Se vocês querem saber como era a cidade de Barcelona nos tempos passados sem ter que recorrer aos livros de História, o romance de Carlos Ruiz Zafón dá conta do recado.

Vale lembrar que A sombra do Vento faz parte de uma tetralogia (é assim que se diz?), justamente, sobre Barcelona. Ou seja, são quatro livros que têm como pano de fundo a cidade – no qual O Jogo do Anjo também faz parte.

Ah! Preciso comentar um ponto que me deixou com a pulga atrás da orelha: no meio da narrativa há uma frase que contém a expressão “mas isso são outros quinhentos”. Me corrijam se eu estiver errada, mas essa expressão não começou a ser utilizada aqui no Brasil, na época em que o país fez 500 anos de descobrimento? Se for assim, o que ela está fazendo num livro cuja história se passa na Espanha do início do século XX? Ô revisor, tem que ver isso aí…

Todavia, Ruiz Zafón é meu mais novo queridinho (que o Marcelo Rubens Paiva não fique com ciúmes, ele ainda mora no meu coração) e, com certeza, será o de vocês também! 

Existem pessoas de quem nos lembramos, e outras com quem sonhamos… (p. 217)

RUIZ ZAFÓN, Carlos. A sombra do vento. Rio de Janeiro: Suma de Letras, 2004.

5 latas

Um pensamento sobre “A SOMBRA DO VENTO – CARLOS RUIZ ZAFÓN

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