Memória de minhas putas tristes – Gabriel García Márquez

[…] Desde então comecei a medir a vida não pelos anos, mas pelas décadas. A dos cinquenta havia sido decisiva porque tomei consciência de que quase todo mundo era mais moço do que eu. A dos sessenta foi a mais intensa pela suspeita de que já não me sobrava tempo para me enganar. A dos setenta foi temível por uma certa possibilidade de que fosse a última. Ainda assim, quando despertei vivo na primeira manhã de meus noventa anos na cama feliz de Delgadina, me atravessou a idéia complacente de que a vida não fosse algo que transcorre como o rio revolto de Heráclito, mas uma ocasião única de dar a volta na grelha e continuar assando-se do outro lado por noventa anos a mais. (p. 119-120)

Olá minha gente, vamos começar esta semana com o nosso amigo Nobel de Literatura Gabriel García Márquez. Certo dia peguei meio por acaso o livro Memória de minhas  putas tristes (assim mesmo, sem S), um livro fininho (apenas 127 páginas) e que carrega uma grande responsabilidade: honrar o título de Clássico da Literatura que García Márquez carrega.

O enredo é o seguinte: Ao completar noventa anos de idade, um senhor (não nomeado), cronista de um jornal,  decide se dar de presente uma noite de amor com uma virgem, para isso recorre aos serviços de Rosa Cabarcas, uma cafetina confiável e famosa da região. Ao chegar ao quarto, o homem se depara com uma menina que tem por volta de quatorze anos, ela está em um sono tão profundo que ele fica com receio (e um pouco de dó) de acordá-la. Essa situação volta a se repetir nos encontros posteriores, porém o homem se encanta com a menina ao ponto de querê-la para sempre (mesmo dormindo). No meio do caminho, o ancião vai recordando passagens de sua vida e as mulheres que passaram pelo seu caminho. Porém, por nenhuma o velho se apaixonou tão profundamente como por Delgadina (o autor não diz o nome verdadeiro da menina, Delgadina foi usurpado de um poema e apenas o senhor a chama desse jeito).

No decorrer da narração, o homem faz questionamentos sobre a vida, sobre a velhice e sobre a menina: o que ela faz quando está em casa e como seria acordada, pois ele só a conhecia dormindo. O senhor ainda se indaga se a reconheceria acordada.Essa resposta é obtida em uma noite quando a menina sussurra algo o que faz o homem concluir: ele apenas a queria adormecida.

[…] e uma noite aconteceu como uma luz no céu: ela sorriu pela primeira vez. Mais tarde, sem nenhum motivo, se revolveu na cama, me deu as costas, e disse com desgosto: Foi Isabel quem fez os caracóis chorar. Exaltado pela ilusão de um diálogo, perguntei no mesmo tom: E de quem eram? Não respondeu. Sua voz tinha um rastro plebeu, como se não fosse dela e sim de alguém alheio que levasse dentro. Toda sombra de dúvida desapareceu então da minha alma: eu a preferia adormecida. (p.87)

Bom, qualquer semelhança com A Bela Adormecida de Charles Perrault e A casa das Belas Adormecidas de Yasunari Kawabata não é mera coincidência. Na orelha do livro está explicitado que García Márquez bebeu de ambas as fontes para construir seu enredo. Sei que muita gente pode achar essas histórias de princesas adormecidas que esperam o príncipe encantado super românticas, mas eu acho meio mórbido. Sério mesmo, como alguém pode se apaixonar por uma pessoa que só dorme? Sei lá, mas pra mim isso tem um quê de necrofilia…

Toda história é contada por este senhor de noventa anos. É uma narração direta, sem pausas ou desvios, como se realmente ele estivesse conversando com alguém. Uma característica que me incomodou muito foram os diálogos (quase inexistentes), cheios de eu disse/ela disse/ eu respondi/ela retrucou, parecia uma conversa ao telefone. Cansativo e confuso (e às vezes parece não chegar a lugar algum).  Gabriel García Márquez ganhou o prêmio Nobel, mas, com certeza, não foi por causa deste livro.

Devo destacar a capa desse livro: um velhinho que caminha em direção a um fundo branco. Quase uma mensagem subliminar que diz “essa é a minha história, agora que vocês já a conhecem posso caminhar em direção a luz”. Além disso, essa edição da Record é composta por folhas grossas, o texto está quase centralizado e com margens largas – o que faz parecer que tem mais livro onde não tem. Me decepcionei um pouco, por ser um autor premiado, acho que esperava um algo mais. 

 

GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. Memória de minhas putas tristes. Rio de Janeiro: Record, 2005.

2 latas

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