CORAÇÕES SOLITÁRIOS – RUBEM FONSECA

Estou aqui nessa tarde ociosa de domingo, um pouco doente – cof, cof – e sem ter muito o que fazer. Para espantar o tédio, resgatei do fundo do baú um conto do Rubem Fonseca que li quando estava no último ano do curso de Letras e que traduz minha atual situação afetiva (apenas pelo título, não pelo enredo em si): Corações Solitários faz parte do livro Feliz Ano Novo de 1975.

O conto é escrito em primeira pessoa, o narrador é um jornalista policial que é demitido e começa a trabalhar em um jornal popular voltado às mulheres da classe C. Nesse novo emprego, o jornalista atende pelo pseudônimo de Dr. Nathanael Lessa – aliás, todos que trabalham nesse jornal são homens, mas assinam com nome feminino – e tem a obrigação de responder as cartas enviadas por leitores, que não são enviadas de verdade, a própria redação do jornal escreve as cartas e publica como se fossem de leitoras que tenham algum problema ou dúvida afetiva/financeira/pessoal.

Perguntei a ele se alguém trazia as cartas dos leitores na minha mesa. Ele me disse para falar com Jacqueline, na expedição. Jacqueline era um crioulo grande de dentes muito brancos. – […] As cartas? Não tem carta nenhuma. Você acha que mulher da Classe C escreve cartas? A Elisa inventava todas.

O dono do jornal atende pelo nome de Peçanha, mas também assina como Maria de Lourdes. Ele encarrega o novo jornalista de, além de responder as cartas dos leitores, de escrever fotonovelas. Eis que no meio desse processo o jornal passa a receber cartas verdadeiras, elas são de um homessexual chamado Pedro Alvarenga…

O que o narrador nos apresenta durante todo o enredo é um mundo de manipulação jornalística, no qual o leitor sempre é subestimado e estigmatizado. Um belo dia, um “pesquisador motivacional” aparece na redação do jornal e informa  que os verdadeiros leitores do jornal eram homens da classe B e não mulheres da classe C como todos pensavam. Peçanha reage de forma bruta, fazendo um discurso sobre a hipocrisia e a mentira que rege vários setores da sociedade (que, ironicamente, também domina as publicações do jornal que ele coordena). Esse fato pode ser percebido claramente nos programas de TV de hoje em dia que só apresentam aquilo que lhes convêm, ou nas revistas que manipulam informações e só publicam o que é interessante para elas próprias. 

O livro Feliz Ano Novo foi proibido pela censura durante o regime militar, talvez por denunciar a falsa propaganda de bem-estar social que o governo tentava manter e expor toda a hipocrisia, manipulação, desigualdade e injustiça social que vivia (e vive até hoje) o povo brasileiro. O livro só voltou a ser editado em 1989.

– É a esse tipo de gente que o Brasil está entregue, manipuladores de estatísticas, falsificadores de informações, empulhadores com seus computadores, todos criando a Grande Mentira […].

 

FONSECA, Rubem. Corações solitários. In:_____ Feliz ano novo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

5 latas

6 pensamentos sobre “CORAÇÕES SOLITÁRIOS – RUBEM FONSECA

  1. Corrigindo o nome do personagem que começa a enviar as cartas a redação, o nome não é Pedro Alvarenga, mas sim Pedro Redgrave. Muito bom o texto!

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