CARCEREIROS – DRAUZIO VARELLA

As cadeias são ambientes cinzentos, mesmo que não estejam pintadas dessa cor. A presença ostensiva das grades, das trancas e o som de ferro das portas quando se fecham oprimem o espírito de forma tão contundente, que em mais de vinte anos jamais encontrei alguém que dissesse sentir prazer quando entra num presídio. Ao contrário, a sensação de alívio ao cruzar o portão que dá acesso à rua é universal.  (p.115)

Essa semana terminei de ler Carcereiros, o novo livro do Dr. Drauzio Varella. Lembro de ter visto uma entrevista dele no Jô Soares e logo me vi em comichões para comprar o lançamento. Li Estação Carandiru muito antes de fazerem o filme e adorei a forma como ele conta as situações, com um olhar de quem está de fora e, ao mesmo tempo, participando de um pedacinho daquilo tudo. 

urlCarcereiros conta várias histórias sobre os homens que tem a responsabilidade de controlar uma multidão, muitas vezes, sem freios. A falta de treinamento, os baixos salários e o alto índice de periculosidade tornam essa profissão um fardo, mas que muitos carregam com maestria. A idéia de escrever um livro sobre a história desses homens veio em uma mesa de bar onde Drauzio e eles se reuniram por muitos anos. O livro é dividido em vários capítulos curtos, cada um aborda uma história diferente sobre uma personagem diferente; também retrata as impressões e sentimentos do médico em relação a tudo o que se passou.

Ao expor os dias de trabalho dos carcereiros, o autor mostra como o sistema penitenciário do Brasil é um sistema falido, sem estrutura e que só piora a situação daqueles que passam grande parte de sua vida nele (presos e carcereiros também). A rotina como médico nas carceragens fez com que o autor tivesse uma visão diferente sobre as pessoas que lá trabalham. A maioria possui esposa e filhos, por isso, além do emprego público, precisam fazer bicos fora do expediente para completar a renda – já que o salário que recebem do Estado mal dá para as contas. É perceptível também que Drauzio tenta lidar com os presos de uma forma mais humana, posição essa que, sinceramente, não me convence. Em uma passagem ele conta como as oportunidades são desiguais para as pessoas, comenta sobre a invisibilidade social e o preconceito que muitos enfrentam por serem pobres, alguns de pele escura e, ainda por cima, fora da lei. Concordo que muitos julgam sem saber, só porque alguém é da periferia não significa que seja delinquente. Muitas vezes as pessoas só enxergam aquilo que querem…

Em um lugar como uma penitenciária é impossível ser imparcial, ao tratar os doentes o médico muitas vezes se questionava se deveria mesmo gastar tanto tempo cuidando de gente que cometeu crimes bárbaros. Mesmo não cabendo ao médico julgar seus pacientes, a dúvida as vezes pairava no ar.

Só um idiota para ficar nesse inferno, fazendo a mulher esperar e deixando de encontrar os amigos, para atender esse bando de gente. Quantos deles me assaltariam na rua?  (p.222)

A obra é bem escrita, tem uma linguagem fácil e a leitura de suas 226 páginas é rápida. Os muitos nomes me deixaram um pouco confusa, mas eu sou confusa naturalmente, então… Em relação ao livro Estação Carandiru acho que Carcereiros ficou um pouco aquém, mas as histórias de vida dessas pessoas que passam seus dias dentro de uma cadeia, tentando a duras penas manter a ordem e a dignidade, com nenhum ou pouco apoio da sociedade e do Estado, mostram que mesmo nos piores lugares pode-se encontrar pessoas de boa intenção. Alguns se perdem pelo caminho, mas a maioria é honesta e está apenas tentando fazer um bom trabalho.

Depois de 23 anos frequentando cadeias, não faz sentido especular como eu seria sem ter vivido essa experiência; o homem é o conjunto dos acontecimentos armazenados em sua memória e daqueles que relegou ao esquecimento. Apesar da ressalva, tenho certeza de que seria mais ingênuo e mais simplório  A maturidade talvez não me tivesse trazido com tanta clareza a percepção de que entre o bem e o mal existe uma zona cinzenta semelhante àquela que separa os bons dos maus, os generosos dos egocêntricos. Conheceria muito menos meu país e as grandezas e mesquinharias da sociedade em que vivo, teria aprendido menos medicina, perdido as demonstrações de solidariedade a que assisti, deixando de ver a que níveis pode chegar o sofrimento, a restrição de espaço, a dor física, a perversidade, a falta de caráter, a violência contra o mais fraco e o desprezo pela vida dos outros. Faria uma idéia muito mais rasa da complexidade humana.  (p.224)

 

VARELLA, Drauzio. Carcereiros. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

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