BONSAI – ALEJANDRO ZAMBRA

Não é porque se sabe de uma coisa que se pode impedi-la; mas temos pelo menos as coisas que averiguamos, se não entre as mãos, ao menos no pensamento, e ali estão à nossa disposição, o que nos inspira a ilusão de exercer sobre elas uma espécie de domínio (Proust, No caminho de Swann, citado no livro, p.36)

Olá galeire! Nesse feriadão de carnaval venho com um livro curto em extensão, mas grande em conteúdo: Bonsai, do chileno Alejandro Zambra.

Esta é a obra de estréia de Zambra e conta a história de amor entre Júlio e Emília. Eles se aproximaram em um grupo de estudos sobre síntexe espanhola e, a partir de então, tiveram um romance permeado de outros romances. Explico: ao mesmo tempo em que os amantes de encontravam eles liam várias obras e discutiam essas estórias. Passaram por Tchekhov, Zolla, Borges, Bioy Casares, Proust – e essas narrativas influenciaram a relação dos dois, como na parte em que discutem sobre Emma Bovary e concluem que ela “treparia” (sim, o autor usa essa palavra) muito melhor nos dias de hoje.

Porém, como nem tudo são flores, um belo dia se deparam com o conto Tantália de Macedonio Fernández que os deixou pensativos, além de ser a inspiração para o título do livro.

Tantalia é a história de um casal que decide comprar uma plantinha para conservá-la como símbolo do amor que os une. Percebem, tardiamente, que se a plantinha morrer, morrerá com ela o amor que os une. E como o amor que os une é imenso e por nenhum motivo estão dispostos a sacrificá-lo, decidem fazer a plantinha se perder entre uma multidão de plantas idênticas. Depois ficam inconsoláveis, infelizes por saber que nunca mais poderão encontrá-la. (p.29)

Esse conto deixou os dois tristes; como alguém pode ter e depois perder uma plantinha do amor? O fato é que, depois de um tempo, Júlio é procurado pra transcrever o romance de um escritor famoso e começa a (re)escrever essa narrativa da plantinha por conta própria chamando-a de Bonsai. Ou seja, o autor faz uma história dentro da história de alguém que está contando essa história. Sacou?

A escrita de Alejandro Zambra é direta, sem enrolação. Seu narrador é seco, não faz firulas e não se perde com detalhes insignificantes. É uma narrativa enxuta, assim como na jardinagem, o autor poda as partes desnecessárias e nos mostra somente o que interessa.

Bom, o livro é curtinho, apenas 91 páginas, e seria menor não fosse esse projeto gráfico da Cosac Naify: margem gigante e texto junto no meio. A forma está como em um editor de texto: nome ao pé da página escrito “título_nome do capítulo_página”; nas folhas há uma marca de onde o texto deve (ou deveria) ser cortado e capa com picote mostrando o verdadeiro formato do livro. Esse quesito me deixou meio confusa… não sei dizer se a história é um conto, uma novela ou um romance… pela extensão seria um conto ou novela; pelos personagens seria um romance, talvez… vou pensar e já já respondo.

Um ponto interessante desse livro, além de seu formato reduzido, está na forma como ele leva a história, desde o primeiro paragrafo já nos é dito o que acontece com as personagens no fim do livro, mas isso não tira a graça do texto; é aí que se enquadra a citação de Proust, não é só porque já sabemos o final de algo que podemos mudá-lo, aliás essa quebra de expectativa só transfere a curiosidade do leitor para outro ponto da narrativa: invés de nos perguntar o que acontecerá com as personagens, passamos a questionar em como? e por quê?

Ambos sabiam que, como se diz, o final estava escrito, o final deles, dos jovens tristes que leem romances juntos, que acordam com livros perdidos entre cobertas, que fumam muita maconha e ouvem canções que não são as mesmas que preferem individualmente (…). a fantasia dos dois era ao menos terminar Proust, esticar a corda por sete volumes, e que a última palavra (a palavra “tempo”) fosse também a última prevista entre eles. Ficaram lendo juntos, lamentavelmente, pouco mais de um mês, cerca de dez páginas por dia. Pararam na página 373, e o livro, desde então, ficou aberto. (p.38)

ZAMBRA, Alejandro. Bonsai. São Paulo: Cosac Naify, 2012.

4 latas

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