O Sol é para todos [To kill a mockingbird] – Harper Lee

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Edição do Círculo do Livro

(N. do T.) O imitador-poliglota, o mockingbird dos americanos, é, dentre as aves da família dos mimídeos, a que canta melhor. Seu canto alegre é muito apreciado no sul dos Estados Unidos e ouvido ininterruptamente nas noites de luar. Suas imitações são perfeitas.

Gente, o livro da vez me deixou assim… meio apaixonada, meio revoltada, meio intrigada, meio pensativa… me deixou com múltiplos sentimentos por se tratar justamente de uma obra múltipla: O Sol é Para Todos é o filho único da autora Harper Lee.

A história tem um enredo simples a primeira vista: Maycomb, uma cidadezinha do interior do Alabama da década de 30, tem uma vidinha pacata; uma menina, Scout, mora com seu irmão Jem e seu pai, Atticus, nesta cidade e lá vive emoções, aprende, cresce. (vale lembrar que o sul dos Estados Unidos nessa época era extremamente racistas e, mesmo com a escravidão já abolida, as pessoas ainda segregavam e rebaixavam os negros).

Em um verão (Scout então com 6  anos e Jem com 9) um menino se muda para lá; Dill torna-se amigo dos irmãos e juntos “vivem altas aventuras”. Os três resolvem implicar com o vizinho Boo Radley, um homem que vive recluso há muitos anos. Eles criam mil teorias sobre o porquê de ele não sair de casa e o que eles poderiam fazer para tirá-lo de sua clausura. Atticus é advogado, e um homem honrado e respeitado por todos. Tudo vai bem na vida dessas pessoas até que um crime acontece, um crime cometido por um negro, e o pai das crianças é designado para defender o réu.

Pois bem, vamos aos fatos: o livro é dividido em duas partes e todo o enredo também é montado em cima de dualidades; bondade x maldade; riqueza x pobreza; conservadorismo x modernidade. Na primeira parte vemos uma narração mais infantil dos acontecimentos (toda a história é contada pela Scout), as crianças brigam, criam fantasias sobre a vida do vizinho, descobrem que, às vezes, a vida pode nos surpreender. A segunda parte já tem uma narrativa mais madura: há esse crime supostamente cometido por um negro contra uma garota branca e a forma como as crianças tentam lidar, ao seu modo, com as injustiças que ainda não compreendem. O julgamento desse réu se torna um divisor de águas na vida das pessoas dessa cidade, principalmente dos nossos protagonistas.

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Edição atual da José Olympio

A simbologia do enredo é uma parte tocante. O livro trata de esperança, do amadurecimento, do despertar dessas crianças para as tramas e injustiças que acontecem ao seu redor. Atticus é uma personagem extremamente representativa, pois possui uma sabedoria e uma visão de mundo que parecem não ser compatíveis com a mentalidade ainda conservadora da cidade.

O título original do livro, To kill a mockingbird, faz referência a um pássaro que não existe no Brasil. Em uma pequena passagem no texto eles fazem referência a esse pássaro (que está traduzido como pássaro imitador) dizendo que nunca devemos matar um pássaro imitador, ou mockingbird, pois eles apenas cantam para alegrar os corações. Vemos claramente que o ‘mockingbird’ é uma alegoria que possui grande significado sobre algumas pessoas desta cidade.

O livro é lindo. Embora seja narrado por uma garotinha, o texto é suave, envolvente e, mesmo que seja de décadas atrás, é muito atual. Maycomb é uma cidadezinha que pode representar qualquer cidade do mundo com seus preconceitos, suas rivalidades e seus heróis. Um clássico da literatura estadunidense que todos devem ler; traz lições que podem te fazer chorar ou sorrir, mas, com certeza, vão te fazer pensar.

Um dia Atticus disse a Jem:
– Preferia que você só atirasse em latas no quintal, mas sei que vai querer caçar passarinhos. Pode matar todos os gaios que quiser, se conseguir acertá-los, mas lembre-se de que é um pecado matar um pássaro imitador
Foi a única vez que ouvi Atticus dizer que alguma coisa era pecado. Perguntei o motivo a Mrs. Maudie.
– Seu pai tem razão – ela disse. – Os pássaros imitadores nada fazem a não ser cantar para agradar nossos ouvidos. Eles não estragam o jardim de ninguém, não constroem ninhos nos milharais, apenas cantam para alegrar os nossos corações. É por isso que é um pecado matá-los. (p.106)

LEE, Harper. O sol é para todos. São Paulo: Círculo do Livro, 1960.

5 latas

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