Tudo o que tenho levo comigo – Herta Müller

Romênia. Fim da segunda Guerra Mundial. Leo Auberg, de origem alemã, tem dezessete anos, mora com os pais e os avós, estuda, e nas horas vagas vivencia seus primeiros e fortuitos encontros com outros homens, num país em que o homossexualismo é crime. Inesperadamente, porém, Leo é obrigado a pagar por outro crime. Stálin decreta a deportação das minorias étnicas alemãs para campos de trabalhos forçados, sob a acusação de terem colaborado com Hitler.

Do dia para a noite, Leo é retirado de sua vida e encerrado num mundo de horror, desumanidade, torturas, fome e morte. Resta a ele apegar-se às palavras. Às palavras que dão sentido ao que não tem sentido algum. E que servem como âncora, profecia, salvação. Leo se apega, entre outras coisas, às palavras da avó, que, ao vê-lo fazer a mala e se despedir, diz “Eu sei que você vai voltar”.

ArquivoExibirNossa, como eu demorei para fazer essa resenha! Fiquei enrolando, mas estamos aqui agora para falar de Tudo o que tenho levo comigo da escritora romena Herta Müller. O enredo gira em torno de Leo, que foi levado para um campo de trabalho forçado e lá passa vários anos. Leo é o narrador da história, ele conta com detalhes tudo o que passou no campo, como se sentia, as tarefas que era obrigado a realizar, o que comia e como se sentia em relação as pessoas e as situações que estava vivendo.

Para não enlouquecer, Leo se apega as palavras e transforma tudo ao seu redor em uma narrativa, até mesmo um sentimento (ou estado) como a fome é transformada em personagem, o Anjo da Fome, que rodeia todos e jamais descansa. E é nessa pegada que a Herta desenvolve sua narrativa: sabemos de tudo o que se passa na cabeçade Leo, ele não poupa detalhes em nos contar sobre sua vida – sempre de uma forma mais ou menos romanceada.

Vale lembrar, como diz o epilogo, que o livro é quase baseado em fatos reais: em 2001 Herta começou a registrar conversas com pessoas que haviam sido deportadas, o que ajudou a autora a conseguir detalhes sobre o cotidiano de um campo de trabalho.

Para quem ainda não sabe, Herta Müller foi a feliz ganhadora de um Nobel de Literatura em 2009, e quando alguém ganha essa prêmio a gente é quase obrigado a pegar um livro da pessoa para saber o porquê desse merecimento. Não vou mentir, o livro não é de uma leitura fácil. O fluxo narrativo é intenso, cíclico e  as vezes repetitivo (como todos pensamentos que temos). Os diálogos não são marcados, não há travessões nem nada que identifique se o que se diz é uma pergunta, uma exclamação ou uma afirmação, toda a sutileza está contida no contexto – fato que pode confundir os leitores mais desatentos. Vou confessar que os nomes me causaram muita estranheza, cheguei até o final do livro sem saber direito quem era quem.

Mas… acho que comecei a leitura com uma expectativa muito grande, já tinha meio que imaginado toda uma história dentro da minha cabeça, e quando li fui pega de calça curta. Demorei bastante para concluir a leitura, talvez se eu já não tivesse imaginado mil coisas sobre o livro teria aproveitado melhor essa experiência.

Por fim, o projeto gráfico da Companhia das Letras está ótimo. Eu acho essa capa linda, lombada com o escrito virado para o lado certo (voltada para a direita, começando de baixo para cima) e fonte Electra que é a melhor fonte que existe! Para quem estiver curioso, vale a pena conhecer a escrita intimista de Herta Müller.

MÜLLER, Herta. Tudo o que tenho levo comigo. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.


4 latas

Um pensamento sobre “Tudo o que tenho levo comigo – Herta Müller

  1. Concordo com tudo o que você disse.
    Cheguei no final do livro sem lembrar quem era quem. Foi uma leitura bem difícil e quando eu percebi que não havia nenhum ponto de interrogação imaginei que tivesse algum motivo para isso, mas ainda não sei o quê.
    É uma história muito triste, ele tinha apenas dezessete anos e foi forçado a viver tudo aquilo, a passar fome e tudo o mais. É mais triste ainda quando a gente para pra pensar que é baseado histórias reais.

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