Condenada – Chuck Palahniuk

Está aí, Satã? sou eu, Madison. Não é verdade que sua vida pisca diante de seus olhos quando você morre. Pelo menos, não ela toda. Parte de sua vida pode piscar. Outras partes levam anos e anos para serem lembradas. Essa, penso eu, é a função do Inferno: um lugar para recordar. Além disso, o propósito do Inferno não é tanto para esquecer os detalhes de nossas vidas como para perdoá-los. E, sim, ainda que os mortos tenham saudades de tudo e todos, não ficam perambulando pela Terra para sempre. (p.199)

721Salve! Salve! Olha eu aqui de novo! Dessa vez trouxe uma pequena aventura para um lugar aonde ninguém quer ir: o Inferno (risada maligna)! O autor dessa inusitada viagem é Chuck Palahniuk (o mesmo de Clube da Luta) e seu novo livro, Condenada, é o primeira da trilogia. Vamos a sinopse:

“Madison é filha de um bilionário e de uma atriz de cinema narcisista, e morre por overdose de maconha. Ora, mas alguém morre por overdose de maconha? Essa é a pergunta que todos fazem a Madison e, com o decorrer do livro, entendemos como, de fato, as coisas aconteceram. Palahniuk nos mostra um enredo intricado, cheio de idas e vindas e situações inusitadas. No Inferno, a condenada Madison partilha sua danação com um grupo distinto e inusitado de pecadores: uma líder de torcida usando sapatos de marca falsificada, um jogador de futebol americano, um nerd com conhecimentos surpreendentes de história mundial e um roqueiro punk de cabelo azul. Ao longo do caminho, Madison procura entender sua vida, sua morte, seus pecados e sua adolescência perdida – tudo isso enquanto tenta obter a atenção de Satã.”

Ok, ok, Madison é uma menina muito madura para sua idade. Ao longo de sua jornada ela refaz alguns passos de quando estava viva e questiona o porquê de ter ido para o Inferno. Lá ela encontra alguns amigos que a ajudarão (uma clara referência ao filme O clube dos Cinco), cada um com sua qualidade. O Inferno descrito por Palahniuk foge ao tradicional: para ele, o inferno é composto por tudo aquilo que descartamos na Terra, bitucas de cigarros, chicletes, incluindo coisas orgânicas como unhas, sangue, caspa e por aí vai… Além disso, segundo ele, existem não só um, mas vários demônios que respeitam uma ordem hierárquica. E a burocracia… quanta burocracia existe no inferno… tipo o nosso Brasil varonil.

Apesar de ser narrado por uma menina morta, o livro é uma grande reflexão sobre a vida e o que fazemos – e esperamos – dela. Ele escancara a hipocrisia da sociedade, o materialismo, a vida de aparências, etc. Os pais de Madison são grandes alvos dessa crítica: eles são pessoas famosas e bem sucedidas que “adotam”  crianças de países miseráveis só porque isso lhes confere status e mais espaço na mídia (isso lembra alguém?).

A escrita do autor é ágil, ácida e na tradução ficou super coloquial. Em todo início de capítulo ele coloca uma confissão de Madison feita diretamente para Satã, ele sempre começa com “Está aí, Satã? Sou eu, Madison”, mas a menina fala diretamente ao leitor em grande parte da narrativa. Ela nos apresenta um panorama diferente do que entendemos por “condenação eterna”, fica subentendido que as pessoas vão para o Inferno de forma aleatória, ou que quase todos já estão condenados. Os critérios utilizados são, no mínimo, inusitados: Buzinar mais de 500 vezes durante a vida, jogar bituca de cigarros no chão, atravessar fora da faixa de pedestres, fazer xixi em duas piscinas diferentes. Tudo isso te garante uma passagem só de ida para a casa de Satã. E, claro, ela destaca que toda a pornografia da internet e as ligações de telemarketing são uma ponte direta entra o mundo dos vivos e aqueles que já morreram.

A edição da editora Leya está bem caprichado: papel polén de gramatura alta, fonte de tamanho bom e capa bem chamativa (é engraçado ver a cara das pessoas quando se deparam com esse Capiroto no livro). A revisão do livro está ok, apenas alguns trechos me soaram confusos, mas nada com que se preocupar.

 O livro, como já dito, é a primeira parte de uma trilogia – será seguido pelo “Purgatório” e pelo “Paraíso”. É esperar para ver como terminará a trajetória da menina Medison rumo a sua redenção.

“Sim, todos parecemos um pouco misteriosos e absurdos uns aos outros, mas ninguém parece tão estrangeiro quanto alguém morto. Podemos perdoar que um estranho se converta ao catolicismo ou que se torne homossexual, mas não que sucumba à morte. odiamos apóstatas. Pior do que alcoolismo ou vício em heroína, morrer parece ser a maior fraqueza; e, num mundo onde as pessoas dizem que você é preguiçosa por não depilar as pernas, ser morto parece ser a derradeira falha de caráter” (p.8)

PALAHNIUK, Chuck. Condenada. São Paulo: Leya, 2013.

4 latas

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