Holocausto Brasileiro – Daniela Arbex

[…] a estimativa é que 70% dos atendidos não sofressem de doença mental. Apenas eram diferentes ou ameaçavam a ordem pública. Por isso, o Colônia tornou-se destino de desafetos, homossexuais, militantes políticos, mães solteiras, alcoolistas, mendigos, negros, pobres, pessoas sem documentos e todos os tipos de indesejados, inclusive os chamados insanos. A teoria eugenista, que sustentava a idéia de limpeza social, fortalecia o hospital e justificava seus abusos. Livrar a sociedade da escória, desfazendo-se dela, de preferência em local que a vista não pudesse alcançar (p.26).

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É minha gente, cá estou eu de volta trazendo um livro denso e 
incômodo: Holocausto brasileiro, da jornalista Daniela Arbex, ganhou o prêmio de melhor livro-reportagem de 2013 ao mostrar de forma assustadora como o ser humano pode ser cruel com o seu semelhante, deixando milhares de pessoas a mercê de maus tratos, fome, tortura e todo tipo de flagelo que nem a alma mais dura seria capaz de suportar…

Como já dito, o livro trata-se de uma reportagem feita sobre o hospital psiquiátrico Colônia, na cidade mineira de Barbacena,  local onde mais de 60.000 vidas se perderam nos anos em que esteve em funcionamento (maior parte do século XX). Inicialmente com o intuito de ser um local de acolhimento para pessoas com alguma doença mental, o local tornou-se um “deposito” de todo o tipo de gente que não era bem vista, ou que não era aceita como “normal”. Mais que isso, pessoas que simplesmente estavam “atrapalhando” ou que se tornavam um incômodo para alguém com mais poder também eram mandadas para o local: epiléticos, prostitutas, meninas grávidas que foram violentadas, esposas abandonadas para que o marido pudesse fugir com a amante, filhas de fazendeiros que perderam a virgindade antes do casamento… até timidez e tristeza eram motivos para  alguém ser deixado lá. Homens, mulheres e crianças, todos estavam vulneráveis as mais bárbaras formas de desprezo e abandono que se possa imaginar.

“[…]Foi a última vez que Luiz Pereira de Melo, hoje com setenta e oito anos, viu a mãe. Tratado como propriedade do Estado, o menino hospitalizado apenas por ser tímido se separou da família sem diagnóstico de loucura, embora não tenha sido difícil arranjar uma doença para ele. Qualquer moléstia mental serviria, afinal, o rapaz era filho da pobreza como a maioria dos depositados nos manicômios” (p.132)

Ao longo das páginas do livro conhecemos várias histórias e depoimentos de pessoas que viveram naquele lugar, bem como de funcionários que tentaram lutar contra o sistema. Ao passar das páginas ficamos chocados com as histórias de tortura e descaso. A autora nos contas de forma crua e sem cerimônias como, por muitas vezes, as pessoas deste local eram obrigadas a comer ratos e beber água do esgoto ou urina, pois não havia nada para elas. Dormiam no chão, sobre capim, pois poderes maiores decidiram que assim economizariam leitos; eram espancados, violados e recebiam choques. No frio, eram deixados nus ao relento. Muitos não chegavam a manhã seguinte. Uma forma de se maltratar digna de campos de concentração nazista. 

“- Lá existe um psiquiatra para 400 doentes. Os alimentos são jogados em cochos e os doidos avançam para comer. O que acontece no Colônia é a desumanidade, a crueldade planejada. No hospício tira-se o caráter humano de uma pessoa e ela deixa de ser gente. É permitido andar nu e comer bosta, mas é proibido o protesto qualquer que seja a sua forma. Seria de desejar que o Hospital Colônia morresse de velho. Nascido por lei, em 16 de agosto de 1900, morreria sem glórias. E, parafraseando Dante, poderia se escrito sobre o seu túmulo: quem aqui entrou perdeu toda a esperança” (p.200-201) 

Em seus quatorze capítulos conhecemos histórias de alguns internos que conseguiram sobreviver. São histórias que nos fazem sentir um mix de sensações: angústia, tristeza, indignação e revolta, pois o Colônia não era um hospital que existia para fins terapêuticos, mas, apenas, para atender a necessidades políticas. E, como sempre, os mais pobres e inocentes pagaram o preço.

Durante as décadas de 60 e 70 várias equipes fizeram reportagens sobre o local e, assim como causavam comoção pública de forma instantânea também eram esquecidas com rapidez. Durante todo o livro fica claro como o Brasil e suas leis desconheciam (e ainda desconhecem?) a doença mental, tendo como tradição o cárcere e não recursos ambulatoriais e tratamentos paliativos. Sobre esse aspecto, a jornalista nos conta sobre pessoas que lutaram, seja de forma singela ou no âmbito governamental, para que houvessem mudanças no tratamento de doentes psiquiátricos: foram propostos projetos de lei para uma reforma psiquiátrica, mas, como sempre, houveram protestos e retaliações contra aqueles que tentaram promover mudanças naquele sistema…

O livro narra um pedaço triste da história de nosso país. Repleto de fotografias, ele tem um ar pesado, de sofrimento. As imagens são chocantes e fazem o leitor permanecer pensativo por vários momentos. Quanto a estrutura, achei que houve uma falta de revisão no texto, pois há vários erros de pontuação. São 255 páginas ricamente ilustradas. A narrativa é feita de forma fácil e linguagem acessível. O que me incomodou foi um pouco da desorganização na hora de montar os capítulos: são citados vários nomes que são retomados em passagens distintas sem que haja uma recapitulação dos acontecimentos (o que me confundiu um pouco).

No entanto, creio que esse seja um livro fundamental para todas as pessoas. Não se pode esconder as atrocidades que aconteceram há pouco tempo, nem negar esse passado. Temos que lutar para que histórias como essa não se repitam, mas, infelizmente, vejo que estamos caminhando para o mesmo destino… Talvez no século XXI os protagonistas sejam outros (homossexuais, mulheres, negros), mas ainda são minorias que, por vezes, têm direitos negados e são subjugados como inferiores. Não podemos deixar que a tragédia se repita, assim recomendo para todos a leitura do livro – e fica a cargo de cada um dizer em qual parte teve mais vontade de chorar – e se perguntar: o que fazemos de bom para minimizar as injustiças e conviver com as diferenças?.

Tragédias como a do Colônia nos colocam frente a frente com a intolerância social que continua a produzir massacres: Carandiru, Candelária, Vigário Geral, Favela da Chatuba são apenas novos nomes para velhas formas de extermínio. Ontem foram os judeus e os loucos, hoje os indesejáveis são os pobres, os negros, os dependentes químicos, e, com eles, temos o retorno das internações compulsórias temporárias. Será  a reedição dos abusos sob forma de política de saúde pública? O país está novamente dividido. Os parentes dos pacientes também. Pouco instrumentalizadas para lidar com as mazelas impostas pelas drogas e pelo avanço do crack, as famílias continuam se sentindo abandonadas pelo Poder Público, reproduzindo, muitas vezes involuntariamente, a exclusão que as atinge. 
O fato é que a história do Colônia é a nossa história. Ela representa a vergonha da omissão coletiva que faz mais e mais vítimas no Brasil. Os campos de concentração vão além de Barbacena. Estão de volta nos hospitais públicos lotados que continuam a funcionar precariamente em muitas outras cidades brasileiras. Multiplicam-se nas prisões, nos centros de socioeducação para adolescentes em conflito com a lei, nas comunidades à mercê do tráfico. O descaso diante da realidade nos transforma em prisioneiros dela. Ao ignorá-la, nos tornamos cúmplices dos crimes que se repetem diariamente diante de nossos olhos. Enquanto o silêncio acobertar a indiferença, a sociedade continuará avançando em direção ao passado de barbárie (p.255).

5 latas

ARBEX, Daniela. Holocausto brasileiro. São Paulo: Geração editorial, 2013.

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