De Profundis – Oscar Wilde

“Rejeitar nossas experiências é impedir nosso desenvolvimento. Negar nossas experiências é pôr uma mentira nos lábios de nossa vida. Não é menos do que uma negação da alma. Pois, tal como o corpo absorve todo gênero de coisas, tanto as coisas vulgares e sujas como aquelas que o sacerdote ou uma visão purificam, e as converte em velocidade ou força, no jogo dos músculos poderosos e na modelação da carne fresca, nas curvas e nas cores do cabelo, dos lábios, dos olhos, assim também a alma tem, por sua vez, suas funções nutritivas, e pode transformar em nobres movimentos de pensamento e em paixões de grande fulgor aquilo que é, em si mesmo, inferior, cruel e degradante; mais ainda, pode encontrar nestas coisas seus mais augustos modos de afirmação, e pode, muitas vezes, revelar-se de um modo mais perfeito por meio daquilo que fora feito para profanar e para destruir.” (p.72)

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Eu voltei!!! Demorei dessa vez, hein! Mas a leitura desta vez, embora seja curtinha, é de uma densidade que exigiu mais da minha pessoa do que eu imaginava. De profundis é uma confissão de Oscar Wilde, uma carta cheia de recriminações, angústias e desabafos em que o autor expõe sua alma e seus lamentos sobre a situação em que se encontrava.

Para quem não sabe, durante um período de sua vida, o aclamado autor Oscar Wilde esteve preso, acusado de homossexualismo (um absurdo, eu sei). Durante o tempo que esteve no cárcere, ele escreveu uma longa carta para seu amante, Alfred Douglas, no qual faz várias recriminações e despeja sua amargura. Douglas, mais que um caso, foi o grande culpado pela sua ruína pessoal e financeira, sua humilhação pública e pela sua tragédia.

Na carta Wilde explicita todos os momentos e fatos que o levaram a prisão, como sua família reagiu ao fato e agradece aos poucos amigos que ficaram ao seu lado nesse momento difícil – diferente do amante que fez pouco caso e nem, ao menos, se dignou a perguntar como ele estava e se precisava de algo.

Um fato curioso é que, embora publicada no início do século XX (1905), a carta mostra que muito do pensamento público não mudou. Na carta, o autor mostra como foi motivo de chacota e acusado de ele ser o grande culpado por sua situação, ignorando que muito da história ficou de conhecimento de todos graças a exposição que Alfred Douglas fez questão de fazer do caso – publicando cartas pessoas, por exemplo -, o que me lembra que até hoje as pessoas tendem a culpar as vítimas em diversos casos (quanto mais as coisas mudam mais elas ficam iguais?).

Durante toda a carta, Wilde expõe de forma brilhante suas idéias sobre a vida, a arte e relacionamentos. É uma confissão de seus erros e acertos; nela ele se defende e admite suas falhas. Mas, também, não perdoa as faltas que o companheiro teve e suas ambições, além do descaso que ele, Oscar, sofreu quando se viu numa situação difícil e não recebeu nenhum tipo de apoio, ou, ao menos, uma palavra reconfortante do amante.

A leitura do texto exige atenção, pois toda ela é feita em uma linguagem um pouco mais rebuscada (que muita gente pode não estar acostumada). A minha edição da Martin Claret, além da carta, conta com o poema Balada do Cárcere de Reading (1898), que é considerado o melhor poema do autor.

(…)
Contudo os homens matam o que amam,
Seja por todos isto ouvido,
Alguns o fazem com acerbo olhar,
Outros com frases de lisonja,
O covarde assassina com um beijo,
O bravo mata com punhal!

Uns matam seu amor, quando são jovens,
Outros quando velhos estão;
Com as mãos do desejo uns estrangulam
Outros do ouro com as mãos;
Os de mais compaixão usam faca,
O morto assim logo se esfria.

Uns amam pouco tempo, outros demais;
Este o amor compra, aquele o vende;
Uns matam a chorar, com muitas lágrimas,
Outros sem mesmo suspirar:
Porque cada um de nós mata o que ama,
Mas nem todos hão de morrer.
(…)

Por fim, o livro é algo sensível, triste e revelador. Nele Oscar Wilde mostra sua alma, seus desejos e suas lágrimas. Importante para pensarmos sobre nossa vida, nossos relacionamentos, sobre como todos seremos julgados sem dó ao menor deslize, e que são poucos que ficarão ao nosso lado nos momentos difíceis – e é a eles que devemos ser gratos eternamente. Sobretudo, mostra que, apesar de tudo, devemos tentar encontrar nosso lugar no mundo, e que, mesmo que possa parecer impossível, sempre haverá esperança.

“A sociedade, tal como a constituímos, não terá lugar para mim, não tem lugares para oferecer; mas a natureza, cujas doces chuvas caem igualmente sobre os justos e sobre os injustos, terá fendas nas rochas onde poderei esconder-me, e vales secretos em cujo silêncio poderei chorar sem ser perturbado. Há de pendurar estrelas na noite, para que eu possa caminhar em terras estranhas, na escuridão, sem tropeçar, e há de enviar o vento para apagar meus passos, de maneira que ninguém possa seguir-me para me ferir; há de limpar-me em grandes águas e com ervas frescas recuperar-me.” (p.124)

4 latas

WILDE, Oscar. De profundis. São Paulo: Martin Claret, 2007.

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