Prisioneiras – Drauzio Varella

Violência de gênero é flagelo que de uma forma ou de outra atinge todas as mulheres brasileiras, mas o ônus se concentra de maneira desproporcional entre as mais pobres e as negras, como constam as estatísticas. É nas áreas periféricas das cidades que o despotismo masculino exibe sua face mais brutas (p.268).

Benfazejos camaradas! Eu voltei para comentar o mais novo livro do médico, escritor e popstar Drauzio Varella: Prisioneiras fecha o ciclo e encerra a trilogia do cárcere que tanto fascinou os leitores.

8625784e-f014-4048-8c77-b73a1cf09f57O que podemos dizer sobre este livro: assim como nos antecessores Carandiru e Carcereiros, o livro conta pequenas histórias de vida dessas mulheres que estão presas, por motivos diversos, e nos mostra como a vida foi dura com a maioria delas.

O que me chamou a atenção, e que quase todas têm em comum, é o histórico de violência e descaso que muitas delas sofreram antes de entrarem para o mundo do crime. São histórias de violência doméstica, abusos e falta de perspectiva que se assemelham em quase todos os relatos. Em alguns casos a ganância e a sensação de poder também dão o toque para que a vida delas fosse para um caminho sem volta. Em alguns casos é possível se apiedar e sentir compaixão por aquelas pessoas que, as vezes ingenuamente, foram parar na ilegalidade.

Através da escrita fluida e que prende o leitor, Drauzio Varella consegue nos colocar dentro dos acontecimentos e, muitas vezes, nos faz refletir: o que eu faria nesta situação? É sempre um exercício de auto-reflexão e empatia. Lógico, nada justifica os crimes cometidos, mas é sempre bom sabermos olhar por outra perspectiva.

Um detalhe que me causou um certo incomodo foi que, apesar de o livro se chamar “Prisioneiras” e todo o enredo ser dedicado para contar as histórias delas, durante muitos capítulos elas foram esquecidas e a história do Carandiru e dos homens que lá estavam tomou o lugar de protagonista, deixando a verdadeira intenção do livro em segundo plano. Ele repete esta quebra em vários pontos, o que me deixou meio agoniada, pensando “ok, ok, disso eu já sei, vamos voltar para o foco”.

No mais, os pontos que ele mais ressalta, e que podem ser transpostos para a nossa realidade, são sobre a solidão e o abandono. Uma vez que na imensa maioria das vezes são as mulheres que assumem o papel de cuidadoras, quando elas mais necessitam são esquecidas por todos. Talvez não tão diferente do que acontece “no mundo de cá”.

Um ponto interessante é que o autor se utiliza das narrativas para discutir muitos outros temas: drogas, aborto, solidão, violência, sexualidade, leis, etc. Um fato interessante, e que deve fazer muitas pessoas refletirem a respeito é a surpreendente conclusão que ele chega ao vivenciar aquele ambiente: Toda mulher é prisioneira. Em maior ou menor grau, todas somos tolidas de alguma liberdade.

É pouco provável que a restrição do espaço físico, o confinamento com pessoas do mesmo sexo, a falta de carinho e da presença masculina e o abandono afetivo imponham de forma autocrática a homossexualidade no repertório sexual das mulheres presas.
É mais razoável pensar que esse conjunto de fatores apenas cria as condições socioambientais para que a mulher ouse realizar suas fantasias e desejos mais íntimos, reprimidos na vida em sociedade.
No universo prisional [elas] podem viver sua sexualidade da forma que lhes aprouver, sem enfrentar repressão social. Paradoxalmente, talvez a cadeia seja o único ambiente em que a mulher conta com essa liberdade (p.166).

Ademais, o livro é muito bem escrito e tem aquela forma envolvente que já conhecemos. Drauzio Varella não tenta ser imparcial, ele dá suas opiniões, aponta falhas e se posiciona diante das situações descritas. São 276 páginas que fluem de maneira leve, mas com conteúdo, para que possamos matar a curiosidade acerca do assunto e refletirmos sobre a realidade de nosso país.

De todas os tormentos do cárcere, o abandono é o que mais aflige as detentas. Cumprem suas penas esquecidas pelos familiares, amigos, maridos, namorados e até pelos filhos. A sociedade é capaz de encarar com alguma complacência a prisão de um parente homem, mas a da mulher envergonha a família inteira (p.38).

4 latas

 

VARELLA, Drauzio. Prisioneiras. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

Outros jeitos de usar a boca – Rupi Kaur

como é tão fácil pra você
ser gentil com as pessoas ele perguntou

leite e mel pingaram
dos meus lábios quando respondi

porque as pessoas não foram
gentis comigo

Gente, pensa num livro que traduz vários sentimentos que há muito não sabia downloadexpressar… Outros jeitos de usar a boca, da indiana Rupi Kaur, se resume em duas palavras: catarse e epifania.

Desde que vi sobre este livro na internet não consegui me segurar até compra-lo. Fui lendo aos poucos, procrastinando, pois não queria terminar. Cada poema que lia, eu parava para refletir; sabe aquela sensação, aquele sentimento que você não sabe explicar nem exteriorizar? De repente, lendo o livro, tive aquela revelação: “é isso que eu sempre senti/pensei e nunca soube manifestar!”

O livro é dividido em quatro partes: A dor, O amor, A ruptura e A cura. Como tenho essa pegada meio melancólica é óbvio que o que mais gostei foi “A Ruptura”. 

Esteticamente, o livro é curto. Os poemas, muitas vezes, são breves, mas que causam reflexão e aquele reconhecimento. Aliás, devo confessar que nunca gostei muito de poemas/poesia, pois, até o momento, não havia tido esse sentimento tão necessário: reconhecimento.

Não sei por que me rasgo pelos outros
mesmo sabendo que me costurar
dói do mesmo jeito depois.
(p. 125)

Uma característica interessante da escrita da Rupi é que em seus poemas a pontuação é quase inexistente. A impressão que tive foi que esta peculiaridade repassa ao leitor a responsabilidade de lê-los e fazer a pontuação de acordo com o cada momento.

De forma bem explícita os poemas dialogam com a alma e a existência feminina. É praticamente impossível não passar os olhos pelos escritos e lembrar ou revivenciar alguma situação ou momentos da vida – e fica também claro que os anseios e as mazelas,  em grande parte, são os mesmos para todas em qualquer parte do mundo.

Este é um livro sensível, dolorido, contemplativo e auto-reflexivo. Devo admitir que ele traduz muito de nossa alma. Por vezes me senti acolhida e abraçada; há partes bem humoradas e outras cheias de esperança – todos os ingredientes essenciais para termos em nossa vida e dependendo do momento ele poderá causar reações diferentes em quem lê. Vale a leitura e a reflexão.

acima de tudo ame
como se fosse a única coisa que você sabe fazer
no fim do dia isso tudo
não significa nada
esta página
onde você está
seu diploma
seu emprego
o dinheiro
nada importa
exceto o amor e a conexão entre as pessoas
quem você amou
e com que profundidade você amou
como você toucou as pessoas à sua volta
e quanto você se doou a elas
(p.194)

KAUR, Rupi. Outros jeitos de usar a boca. São Paulo: Planeta, 2017.

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Rota 66 – Caco Barcellos

Os homens começam a acreditar na violência como instrumento válido de ação, colocando-se em cheque toda a nossa concepção de vida cristã. A violência passaria a ser um instrumento válido na luta contra o crime (…) Neste ponto chega-se a um verdadeiro divisor de águas, sempre com aquela legião dos neutros. Ou se apóia, ou se condena ou se omite. Não há outra posição. (p.90)

Olha quem voltou!!! Eu sumo, mas eu volto! Ando meio devagar mesmo… mas dessa vez trago um pouco da verdade nua e crua: Rota 66 do jornalista Caco Barcellos é uma narrativa pesada, triste e revoltante sobre o que acontece em nosso país.

Para começar, trata-se de um livro reportagem, cujo objetivo é fazer um relato sobre acontecimentos recorrentes na cidade de São Paulo desde a década de 70. Neste caso, trata-se da história (infelizmente real) de policiais que têm uma característica em comum: são considerados matadores.

O livro narra várias histórias de pessoas que foram mortas pela crueldade. O que todas têm em comum é que eram, em sua maioria, homens jovens, pobres e negros. Muitos inocentes. Foram acusados, julgados e condenados à morte por aqueles que se julgavam superiores.

Os policiais: em sua maioria saíram impunes.

(…)
– Mas só criminoso pobre. Rico jamais!
Nossa dúvida é justificável. (…) eles não têm o perfil do inimigo que a Rota costuma perseguir. Muito simples: eles são ricos. Os PMs do patrulhamento das cidades brasileiras são orientados pelo comando de militares do Exército Nacional, que tem uma visão deformada do conceito de segurança pública. Obrigam seus comandados a praticar, com prioridade, a defesa da propriedade dos mais ricos. O resultado é o que se vê diariamente nas ruas. Uma perseguição violenta e sistemática exclusivamente contra o que eles chamam de marginal: o cidadão proveniente da maioria pobre que causa prejuízo à minoria rica da sociedade (p.25-26).

O livro discorre em suas 274 páginas histórias das mais variadas, mas sempre com o mesmo triste desfecho. A narrativa chega a causar angústia no leitor com a quantidade de injustiças que são relatadas.  Apesar de a narrativa ser ágil, há alguns pontos de barriga: muitos dados estatísticos que, de certa forma, complementam e justificam o enredo, mas dão um pouco de cansaço. 

No mais, recomendo a leitura para todos que se interessam por histórias policiais, mas sem glamourização, sem panos quentes. Pois a realidade é sempre mais dura do que nos contam os jornais. 

BARCELLOS, Caco. Rota 66. São Paulo: Globo, 1994.

 

Androides sonham com ovelhas elétricas? – Philip K. Dick

Aleluia! Aleluia! Aleluia! Aleluia! Aleluia! Olhem só quem regressou do limbo e está de volta a essa pequena terra chamada blog!!! Quanta coisa aconteceu minha gente! Que mundão doido! Olha, espero que este ano de 2017 seja muito bom porque o-ano-que-não-vamos-nomear foi uma sandice só!

E eu volto aqui com a minha linda cara de pau como se nada tivesse acontecido, para trazer o primeiro livro do ano!!! (aplausos)  E nada melhor que uma bela ficção científica para termos a esperança de um futuro melhor (ou não).

1-edic%cc%a7a%cc%83o-mais-recente-publicada-pela-editora-aleph1Para hoje temos Androides sonham com ovelhas elétricas? do nosso amiguxo Philip K. Dick. Para quem não sabe, este foi o livro que inspirou o filme Blade Runner, de 1982, e que, logo menos, voltará as telonas do cinema. Bom, o que eu achei sobre o livro… 

Então, para começar, a história acompanha a trajetória de Rick Deckard, um caçador de recompensas que ganha a vida caçando e aposentando androides.  Neste contexto, temos a Terra praticamente destruída depois de uma guerra atômica, no qual a maioria da população migrou para colônias fora do planeta. Os que ficaram convivem com a poeira radioativa e, muitas vezes, com a falta de esperança, buscando a todo custo uma vida melhor.

Androides… é um livro muito bom para quem gosta do gênero. Além de abordar um futuro distópico, o autor também propõe questões filosóficas profundas sobre a natureza da vida, da religião, da tecnologia e da própria condição humana. Porém… olha vou ser sincera: não sei se já contei, mas gêneros como fantasia e ficção não conseguem me pegar. Para o leitor se aprofundar nas histórias é preciso de algo chamado “suspensão de descrença” que eu, definitivamente, não tenho.

Vocês vão ter que me perdoar, sei que o livro é um clássico e tal, mas eu achei bem chato. Tive a sensação de que a história saiu do nada e foi pra lugar nenhum… posso ter perdido uma parte importante, mas não entendi qual o problema dos humanos com os androides e o porquê de ‘aposentar’ os coitados… também não consegui me apegar as personagens, o único que me fez sentir algo foi o ‘cabeça de galinha’ John Isidore. 

Bom, não vou me estender mais… acho que me decepcionei um pouco, talvez eu esperasse algo grandioso, mas achei meio nhé (ou eu mesma que não entendi nada, o que é uma possibilidade bem alta). No mais, pra quem é fã do gênero: se joga!

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DICK, Philip K. Androides sonham com ovelhas elétricas? São Paulo: Aleph, 2014.

Max e os felinos – Moacyr Scliar

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Tcharam! Olha quem voltou antes do fim do ano!! E para fechar 2015 com chave de ouro trouxe um livro que é só babado, confusão e gritaria: Max e os felinos, do saudoso Moacyr Scliar!

Max e os felinos foi escrito em 1981 e conta a história do menino Max, alemão (não judeu) que se vê em uma situação de perigo quando a ameaça nazista se instaura em sua cidade. Ele, então, foge para o Brasil em um navio que, além da tripulação, também levava vários animais. No meio do caminho o navio naufraga (de propósito) e Max se vê isolado em um escaler com um jaguar. Ao chegar o Brasil, o menino consegue reconstruir sua vida, passando por momentos de emoção, tensão e todos os tipos de sentimento que alguém deve lidar em sua existência.

Bom, como todos devem saber, o livro está envolvido em uma grande polêmica com o Life of Pi, do canadense Yann Martel. A polêmica gira em torno de um possível plágio feito do livro brasileiro – fato que rodou por vários jornais brasileiros e estrangeiros e rendeu até uma declaração do próprio Moacyr sobre o ocorrido. Como de costume, muita gente estava disposta a ver o circo pegar fogo, mas após Scliar dar o assunto por encerrado, os jornalistas e babadeiros de plantão tiveram que baixar a bola…

Feitas essas considerações sobre o caso, vamos ao que interessa: o livro trata-se de uma noveleta de 80 páginas e narra a jornada no nosso herói através dos percalços que a vida lhe impôs. A narrativa é fluida e descomplicada; o autor não enrola e nos conta tudo de forma rápida, mas recheada de simbolismos. O final nos deixa uma dúvida e nos faz pensar: teria Max criado figuras em sua cabeça para tentar digerir e processar todos os sentimentos e acontecimentos que se passaram em sua vida? Quem sabe…

Como curiosidade: a parte que fala sobre Max e o jaguar no escaler (ponto considerado “inspiração” para As aventuras de Pi) é breve e não passa de poucas páginas. 

O livro é curto, mas muito pode se tirar dele, basta ter visão e entendimento para tal. Minha edição da L&PM possui dois textos introdutórios: um do próprio Moacyr Scliar falando sobre as controvérsias de Max e os felinos e Life of Pi, e outro de Zilá Bernd colocando em paralelo as duas narrativas.

Por fim, deixo-vos com algumas palavras de Moacyr Scliar, que nos faz refletir sobre quais os reais objetivos da Literatura – e que picuinhas e assuntos menores devem ser deixados de lado para que possamos ler as entrelinhas e tirar de cada texto o máximo que ele pode nos oferecer.

A literatura não é fonte de contentamento. Nem é coisa que possa ser feita pelo membro de um bloco. Ela é, essencialmente, um vício solitário. Isto não quer dizer que tenha de ser praticada numa isolada torre de marfim. A grande literatura inevitavelmente reflete o contexto social da época. Mas o faz como um sismógrafo, cuja agulha desloca-se como resposta a movimentos profundos. Espero que isso tenha acontecido, ao menos em parte, ao menos em pequena parte, com uma história chamada “Max e os felinos”. Todo o resto, francamente, não tem muita importância. (p.22)

 

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SCLIAR, Moacyr. Max e os felinos. Porto Alegre: L&PM, 2014.

Clube da Luta – Chuck Palahniuk

  1. A primeira regra do clube da luta é que você não fala sobre o clube da luta.
  2. A segunda regra do clube da luta é que você não fala sobre o clube da luta.
  3. Quando alguém  diz “pare” ou fica desacordado, mesmo que esteja fingindo, a luta acaba.
  4. Apenas duas pessoas por luta.
  5. Uma luta por vez.
  6. Sem camisa e sem sapatos.
  7. As lutas duram o quanto tiverem que durar.

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Olha quem está aqui outra vez!!! A novidade de hoje é o polêmico, sqn, livro do nosso amigo de fé e irmão camarada Chuck Palahniuk: Clube da Luta! Sim minha gente, existiu um livro antes do filme – e é sobre esta obra da literatura que iremos conversar…

Bom, a história do livro nos é contata por um narrador sem nome e que vai levando uma vida bem mediana – ele possui um emprego fixo, um apartamento, gasta seu dinheiro com coisas supérfluas e ainda sofre de insônia. E é justamente por causa dessa insônia que ele vai parar em grupos de apoio para pessoas doentes – desde os grupos de câncer de próstata até os de portadores de parasitas mentais -, e é por meios desses encontros que ele consegue encontrar, de certa forma, algum conforto e dormir em paz. Tudo vai bem até que ele encontra Marla Singer, outra impostora que, como ele, também participa de grupos de apoio. E é nesse meio tempo, entre viagens e idas a grupos de apoio que o narrador conhece Tyler Durden (um homem forte, destemido e determinado) e juntos eles acabam fundando o Clube da Luta, um pano de fundo para vários outros acontecimentos…

Vamos começar do início: o livro é todo escrito através dos pensamentos do nosso narrador. Ele faz cortes, pausas, interrompe e retoma assuntos, faz referências a coisas já ditas muito antes, quase um fluxo de consciência que pode confundir algumas pessoas, mas, mesmo sendo as vezes uma narrativa aleatória, há uma linha que sempre se segue e tudo está interligado – fazendo total sentido. O encontro com Tyler acrescenta na trajetória do narrador mais emoção; quando ambos decidem criar o Clube da Luta não esperavam a adesão de tantas pessoas, mas foi algo que tomou enormes proporções e que, a partir de um ponto, ficou sem controle.

Parando um pouco para filosofar, e seguindo as dicas que o autor deixa no decorrer do livro, o clube da luta nada mais é do que a busca de homens por autoafirmação e uma oportunidade de demonstração da masculinidade através da força (Gente, vamos melhorar! O ser humano já desceu das árvores há muito tempo pra vocês ficarem nessa de bater uns nos outros!). Mas o enredo vai muito além disso: diferentemente do filme onde o foco está no clube, o livro nos mostra mais sobre a personalidade do narrador, ele se aprofunda na história de vida de Marla, faz reflexões sobre consumismo, solidão e a forma como as pessoas trabalham em empregos que não gostam para ganhar dinheiro, comprar coisas, se endividarem e, assim, continuarem nesse ciclo vicioso de tédio e frustração. O clube da luta em si é apenas um pano de fundo, uma desculpa que existe para se expor a forma de vida medíocre que algumas pessoas levam –  e que elas seriam capaz de qualquer coisa para não terminar sendo apenas mais um.

Para aqueles que não viram o filme e que não sabem o “pulo-do-gato” que existe no enredo, já digo que ao longo da narrativa o autor, na voz no personagem, vai deixando várias dicas do que está acontecendo… Fiquem espertos!

Também para que não haja decepção, já digo que o filme tem várias diferenças do livro (o final, por exemplo), mesmo assim ambos são ótimos! O filme começou causando estranheza nas pessoas, mas foi catapultado da seção de filmes pipoca e hoje é um clássico dos filmes cult (exagermo meu?).

No mais, a escrita do Chuck é super fácil e fluida. O livro possui 270 páginas em papel pólen e a edição da Leya está muito boa. A leitura é rápida, mas exige certa atenção do leitor para não se perder nos devaneios da nossa personagem – e nos sarcasmos e ironias do autor. Em toda a narrativa há várias passagens e frases que te fazem pensar (além de algumas cutucadas que o autor dá, indiretamente, em alguns best-sellers que existem por aí).

Recomendo para todos essa leitura fácil, divertida e surpreendente!

-Eu vejo os homens mais fortes e inteligentes que já viveram – […] – e esses homens estão enchendo tanques de carros e servindo mesas.
[…] Há uma categoria de homens e mulheres jovens e fortes que querem dar a própria vida por algo. A propaganda faz essas pessoas irem atrás de carros e roupas de que elas não precisam. Gerações têm trabalhado em empregos que odeiam para poder comprar coisas de que realmente não precisam. – Não temos uma grande guerra em nossa geração ou uma grande depressão, mas na verdade temos, sim, é uma grande guerra de espírito. Temos uma grande revolução contra a cultura. A grande depressão é a nossa vida. Temos uma depressão espiritual. (p.186)

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PALAHNIUK, Chuck. Clube da luta. São Paulo: Leya, 2012.

De Profundis – Oscar Wilde

“Rejeitar nossas experiências é impedir nosso desenvolvimento. Negar nossas experiências é pôr uma mentira nos lábios de nossa vida. Não é menos do que uma negação da alma. Pois, tal como o corpo absorve todo gênero de coisas, tanto as coisas vulgares e sujas como aquelas que o sacerdote ou uma visão purificam, e as converte em velocidade ou força, no jogo dos músculos poderosos e na modelação da carne fresca, nas curvas e nas cores do cabelo, dos lábios, dos olhos, assim também a alma tem, por sua vez, suas funções nutritivas, e pode transformar em nobres movimentos de pensamento e em paixões de grande fulgor aquilo que é, em si mesmo, inferior, cruel e degradante; mais ainda, pode encontrar nestas coisas seus mais augustos modos de afirmação, e pode, muitas vezes, revelar-se de um modo mais perfeito por meio daquilo que fora feito para profanar e para destruir.” (p.72)

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Eu voltei!!! Demorei dessa vez, hein! Mas a leitura desta vez, embora seja curtinha, é de uma densidade que exigiu mais da minha pessoa do que eu imaginava. De profundis é uma confissão de Oscar Wilde, uma carta cheia de recriminações, angústias e desabafos em que o autor expõe sua alma e seus lamentos sobre a situação em que se encontrava.

Para quem não sabe, durante um período de sua vida, o aclamado autor Oscar Wilde esteve preso, acusado de homossexualismo (um absurdo, eu sei). Durante o tempo que esteve no cárcere, ele escreveu uma longa carta para seu amante, Alfred Douglas, no qual faz várias recriminações e despeja sua amargura. Douglas, mais que um caso, foi o grande culpado pela sua ruína pessoal e financeira, sua humilhação pública e pela sua tragédia.

Na carta Wilde explicita todos os momentos e fatos que o levaram a prisão, como sua família reagiu ao fato e agradece aos poucos amigos que ficaram ao seu lado nesse momento difícil – diferente do amante que fez pouco caso e nem, ao menos, se dignou a perguntar como ele estava e se precisava de algo.

Um fato curioso é que, embora publicada no início do século XX (1905), a carta mostra que muito do pensamento público não mudou. Na carta, o autor mostra como foi motivo de chacota e acusado de ele ser o grande culpado por sua situação, ignorando que muito da história ficou de conhecimento de todos graças a exposição que Alfred Douglas fez questão de fazer do caso – publicando cartas pessoas, por exemplo -, o que me lembra que até hoje as pessoas tendem a culpar as vítimas em diversos casos (quanto mais as coisas mudam mais elas ficam iguais?).

Durante toda a carta, Wilde expõe de forma brilhante suas idéias sobre a vida, a arte e relacionamentos. É uma confissão de seus erros e acertos; nela ele se defende e admite suas falhas. Mas, também, não perdoa as faltas que o companheiro teve e suas ambições, além do descaso que ele, Oscar, sofreu quando se viu numa situação difícil e não recebeu nenhum tipo de apoio, ou, ao menos, uma palavra reconfortante do amante.

A leitura do texto exige atenção, pois toda ela é feita em uma linguagem um pouco mais rebuscada (que muita gente pode não estar acostumada). A minha edição da Martin Claret, além da carta, conta com o poema Balada do Cárcere de Reading (1898), que é considerado o melhor poema do autor.

(…)
Contudo os homens matam o que amam,
Seja por todos isto ouvido,
Alguns o fazem com acerbo olhar,
Outros com frases de lisonja,
O covarde assassina com um beijo,
O bravo mata com punhal!

Uns matam seu amor, quando são jovens,
Outros quando velhos estão;
Com as mãos do desejo uns estrangulam
Outros do ouro com as mãos;
Os de mais compaixão usam faca,
O morto assim logo se esfria.

Uns amam pouco tempo, outros demais;
Este o amor compra, aquele o vende;
Uns matam a chorar, com muitas lágrimas,
Outros sem mesmo suspirar:
Porque cada um de nós mata o que ama,
Mas nem todos hão de morrer.
(…)

Por fim, o livro é algo sensível, triste e revelador. Nele Oscar Wilde mostra sua alma, seus desejos e suas lágrimas. Importante para pensarmos sobre nossa vida, nossos relacionamentos, sobre como todos seremos julgados sem dó ao menor deslize, e que são poucos que ficarão ao nosso lado nos momentos difíceis – e é a eles que devemos ser gratos eternamente. Sobretudo, mostra que, apesar de tudo, devemos tentar encontrar nosso lugar no mundo, e que, mesmo que possa parecer impossível, sempre haverá esperança.

“A sociedade, tal como a constituímos, não terá lugar para mim, não tem lugares para oferecer; mas a natureza, cujas doces chuvas caem igualmente sobre os justos e sobre os injustos, terá fendas nas rochas onde poderei esconder-me, e vales secretos em cujo silêncio poderei chorar sem ser perturbado. Há de pendurar estrelas na noite, para que eu possa caminhar em terras estranhas, na escuridão, sem tropeçar, e há de enviar o vento para apagar meus passos, de maneira que ninguém possa seguir-me para me ferir; há de limpar-me em grandes águas e com ervas frescas recuperar-me.” (p.124)

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WILDE, Oscar. De profundis. São Paulo: Martin Claret, 2007.