Rota 66 – Caco Barcellos

Os homens começam a acreditar na violência como instrumento válido de ação, colocando-se em cheque toda a nossa concepção de vida cristã. A violência passaria a ser um instrumento válido na luta contra o crime (…) Neste ponto chega-se a um verdadeiro divisor de águas, sempre com aquela legião dos neutros. Ou se apóia, ou se condena ou se omite. Não há outra posição. (p.90)

Olha quem voltou!!! Eu sumo, mas eu volto! Ando meio devagar mesmo… mas dessa vez trago um pouco da verdade nua e crua: Rota 66 do jornalista Caco Barcellos é uma narrativa pesada, triste e revoltante sobre o que acontece em nosso país.

Para começar, trata-se de um livro reportagem, cujo objetivo é fazer um relato sobre acontecimentos recorrentes na cidade de São Paulo desde a década de 70. Neste caso, trata-se da história (infelizmente real) de policiais que têm uma característica em comum: são considerados matadores.

O livro narra várias histórias de pessoas que foram mortas pela crueldade. O que todas têm em comum é que eram, em sua maioria, homens jovens, pobres e negros. Muitos inocentes. Foram acusados, julgados e condenados à morte por aqueles que se julgavam superiores.

Os policiais: em sua maioria saíram impunes.

(…)
– Mas só criminoso pobre. Rico jamais!
Nossa dúvida é justificável. (…) eles não têm o perfil do inimigo que a Rota costuma perseguir. Muito simples: eles são ricos. Os PMs do patrulhamento das cidades brasileiras são orientados pelo comando de militares do Exército Nacional, que tem uma visão deformada do conceito de segurança pública. Obrigam seus comandados a praticar, com prioridade, a defesa da propriedade dos mais ricos. O resultado é o que se vê diariamente nas ruas. Uma perseguição violenta e sistemática exclusivamente contra o que eles chamam de marginal: o cidadão proveniente da maioria pobre que causa prejuízo à minoria rica da sociedade (p.25-26).

O livro discorre em suas 274 páginas histórias das mais variadas, mas sempre com o mesmo triste desfecho. A narrativa chega a causar angústia no leitor com a quantidade de injustiças que são relatadas.  Apesar de a narrativa ser ágil, há alguns pontos de barriga: muitos dados estatísticos que, de certa forma, complementam e justificam o enredo, mas dão um pouco de cansaço. 

No mais, recomendo a leitura para todos que se interessam por histórias policiais, mas sem glamourização, sem panos quentes. Pois a realidade é sempre mais dura do que nos contam os jornais. 

BARCELLOS, Caco. Rota 66. São Paulo: Globo, 1994.

 

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Guerra Mundial Z – Max Brooks

Os mortos-vivos levaram de nós mais do que terras e entes queridos. Eles nos roubaram nossa confiança como forma de vida dominante do planeta. Éramos uma espécie alquebrada e abalada, impelida à beira da extinção e grata apenas por um amanhã com talvez um sofrimento um pouco menor do que o de hoje. Seria este o legado que deixaríamos a nossos filhos, um nível de angústia e dúvida pessoal jamais vista desde que nossos ancestrais símios fugiram para as árvores mais altas? Que tipo de mundo eles reconstruiriam? E será que o reconstruiriam? Poderiam eles continuar a progredir, sabendo que não tinham poder para resgatar seu futuro? E se esse futuro visse outra ascensão dos mortos-vivos? Nossos descendentes se ergueriam para combatê-los em batalha ou simplesmente se encolheriam numa rendição submissa e aceitariam o que acreditariam ser sua extinção inevitável? Só por este motivo, tínhamos de recuperar o planeta. Precisávamos provar a nós mesmos que podíamos fazer isso e deixar essa prova como o maior monumento da guerra. A longa e árdua estrada de volta à humanidade ou a letargia regressiva dos antes orgulhosos primatas da Terra. Esta era a decisão a tomar e precisava ser tomada já. (p.287)

Eu voltei, agora pra ficar… Porque aqui, aqui é meu lugar!!! Minha gente, olha só quem voltou da terra do nunca direto para a terra dos mortos: Eu!!! Prometo não me ausentar mais por tanto assim. Agora vamos aos trabalhos.
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Andei por um tempo sem inspiração para ler nada, olhava o que eu tinha e nada me chamava a atenção. Um belo dia estava eu andando pela feira do livro aqui de Ribeirão e me deparei com o Guerra Mundial Z do nosso amigo nerd Max Brooks; estava baratinho então resolvi ver qualéqueé. Guerra Mundial Z: uma história oral da guerra dos zumbis, conta na forma de relatos como toda a guerra se desenrolou ao longo de dez anos, desde seu começo até o momento em que a humanidade consegue reconquistar o seu espaço no planeta. O livro é dividido em nove partes, sendo uma introdução e oito capítulos. Tudo é descrito de forma cronológica, assim o narrador sem nome (que não é bem um narrador, ele é apenas a pessoa que coletou as informações, fez entrevistas e compilou tudo em um único lugar) monta uma linha do tempo de como tudo começou, desde o paciente zero.

Os depoimentos contidos no livro passam por vários lugares do mundo; mostram como cada população reagiu ao surto do vírus zumbi, também conta as várias maneiras de infecção possíveis – contato direto e até por órgãos contaminados transplantados, além de mostrar como cada pessoa, a sua maneira, lidou com o caos: alguns lutaram e outros simplesmente desistiram. Mostrou planos de evacuação, estratégias de guerra e maneiras muitas vezes sórdidas de salvar pessoas (ou apenas aquelas que valiam a pena serem salvas).

Logo no início do livro, quando a epidemia zumbi era apenas uma ameça distante, o autor descreve relatos de uma droga que protegeria a população e os deixaria imunes a esse mal. Claro que não havia nada para salvar as pessoas, apenas a esperança e a falsa ilusão de que estavam protegidas. Assim, não haveria problemas, como revoltas populares, e o governo manteria sua aparência. Alguma semelhança com o mundo real? Talvez…

Assim, mais que um livro sobre uma guerra zumbi se estes fossem tirados da história ainda veríamos uma crítica aos governos, formas de se fazer política, religiões, etc. Também mostra como a indústria farmacêutica age para vender “esperança” para a população, estratégias de marketing e como mentiras são mantidas apenas para que se cumpra os interesses de uma minoria privilegiada. Intencional ou não, é um ponto interessante e pode levar a várias discussões.

[…] Você “resolveria” a pobreza? Dá pra “resolver” a criminalidade? Dá pra “resolver” as doenças, o desemprego, a guerra ou qualquer outro herpes social? Claro que não. Só o que se pode esperar é torná-los administráveis o suficiente para que as pessoas toquem a vida. Isso não é ceticismo de minha parte, é maturidade. Não se pode parar a chuva. Só o que se pode fazer é construir um telhado que você espera que não tenha goteira, ou pelo menos que não cai goteira nas pessoas que vão votar em você (p.72).

A escrita do livro é dinâmica, com cada depoimento contando um ponto de vista diferente sobre a epidemia zumbi, mas… no capítulo seis, “Pelo mundo afora”, achei que toda a narrativa fica meio boring, tudo meio lento demais tanto que me peguei por diversas vezes pensando em pular algumas partes… A edição da editora Rocco é ok. As páginas em papel offset cansam um pouco a vista e esse selo do filme na capa é desnecessário… aliás, o filme nada tem a ver com o livro. Ao ler tentei reconhecer algumas passagens, mas não havia nada. A única coisa que o filme tem a ver com o livro é só o título mesmo.

Aliás, para você, que como eu, já está se preparando para quando o apocalipse zumbi acontecer (notem que eu disse QUANDO e não SE), aqui fica um vídeo bem interessante de possíveis refúgios seguros para nos protegermos e esperarmos com tranquilidade essa fase ruim passar.

No mais, o livro é bem interessante e dialoga com seus leitores de maneira fácil e sem rodeios. A forma de relatos traz veracidade a história (ainda que esteja se tratando de algo ficcional) e nos insere em um mundo pós-apocalíptico onde nada mais é como conhecemos. Tirando as partes que são mais cansativas, o livro é um ótimo divertimento e leitura obrigatória para todos aqueles que são amantes de histórias de zumbis!

BROOKS, Max. Guerra mundial Z: uma história oral da guerra dos zumbis. Rio de Janeiro: Rocco, 2010.

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Crônicas de São Paulo – Daniel Munduruku

Foi assim que entendi minha passagem pelo Jabaquara. Lugar de encontro de tradições. Lugar da saudade. Lugar da Liberdade. (p.30)

masjnDepois de muito tempo afastada volto hoje com um post em edição extraordinária sobre um livro diferente: Crônicas de São Paulo faz parte de uma gama de narrativas que traz ao grande público toda a cultura e diversidade do povo brasileiro. O livro, assinado por Daniel Munduruku, é um apanhado de dez crônicas sobre alguns lugares da cidade de São Paulo que possuem nomes indígenas.

Os lugares que viraram parte do livro são: Tatuapé, Anhangabaú, Ibirapuera, Jabaquara, Guarapiranga, Butantã, Pirituba, Tietê e Tucuruvi. Em uma conversa com o próprio Daniel fiquei sabendo que os indígenas não nomeiam os lugares em homenagem a alguém, mas colocam nomes a partir de um fato ocorrido. Sob esse aspecto, o autor cria histórias e situações que possam ter sido fundamentais para a nomeação de determinados locais. Lógico que são apenas ficção, mas faz pensar o que pode ter ocorrido de verdade – principalmente nos mais curiosos: Anhangabaú, que significa rio da assombração, e Jabaquara, lugar de escravos fugidos. Nunca mais verei esses lugares do mesmo jeito!

O livro não é muito extenso, as páginas são amarelas e de gramatura não muito alta. Como nem tudo são flores, há alguns erros de revisão que, apesar de não atrapalhar a leitura, deixam a estrutura do texto um pouco feia: como em um ponto onde a palavra esse virou eese. Fora isso, no geral, a estrutura gráfica é boa.

Para quem ainda não se ligou, Daniel Munduruku é um indígena. Sua comunidade vive no Pará, as margens do rio Tapajós. Formado em filosofia, com mestrado em Educação, hoje ele tem 43 livros publicados que contam histórias de seu povo (antes só transmitidas oralmente). A Literatura Indígena ainda é recente em nosso país, mas já vários escritores de diferentes etnias que registram suas histórias e as trazem mais para perto da população.

O livro mostra a visão de um indígena na cidade de São Paulo – a linguagem é acessível e os contos são curtos e com ilustrações. Literatura infanto-juvenil, mas de interesse geral.

MUNDURUKU, Daniel. Crônicas de São Paulo. São Paulo: Callis, 2009.

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Os Doze Mandamentos – Sidney Sheldon

“Moisés desceu da montanha com duas tábuas de pedra nas quais estavam inscritos os Dez Mandamentos da lei de deus – as regras a que os fiéis devem obedecer, conta a história sagrada. Mas Sidney Sheldon vai até a época de Moisés para revelar um segredo: na verdades, são 12 mandamentos. E, ao contrário da punição de quem não cumpre os mandamentos de deus, os personagens de Sidney Sheldon receberão grandes recompensas, tornando-se pessoas ricas, famosas e felizes.”

OS_DOZE_MANDAMENTOS_1228409918PNão, eu não escrevi errado, o nome do livro é esse mesmo Os doze mandamentos. Neste apanhado de contos, Sidney Sheldon traduz com humor várias situações em que as personagens descumpriram regras e foram agraciadas por isso. Os dois mandamentos que o autor adiciona são: Nunca dirás uma inverdade e Não farás mal ao teu semelhante (na verdade eu acho que são esses dois porque nem sei direito quais são os outros dez).

Eu não sou muito ligada nesse negócio de mandamento, lei sei-lá-do-que e semana-sei-lá-das-quantas, por isto essas pequenas histórias não me deixaram indignada ou algo parecido – como sei que muita gente ficaria se lesse – apenas levei o livro como uma ficção para entreter.

Logo no início do livro o autor faz uma breve explicação sobre o porquê desses dois mandamentos não terem chegado até a população e conta outras passagens bíblicas – tudo sempre com humor.

Os contos são curtos, escritos de forma fácil e sem firulas. Li este livro há muito, muito, muito tempo, devia ter uns 11 ou 12 anos e lembro que gostei. Sei que hoje não me agradaria tanto, pois os finais já estão bem claros: os protagonistas sempre vão se dar bem ao desrespeitar os mandamentos.

O livro é indicado para o público infanto-juvenil por se tratar de uma narrativa ágil, sem enrolação e escrita de forma simples. A edição que eu tenho é da Record: capa simples, sem orelha e apenas 142 páginas.

Nunca é demais lembrar que o livro é uma ficção, portanto deve ser tratado como tal.

SHELDON, Sidney. Os doze mandamentos. Rio de Janeiro: Record, 1997.

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E se o stand-up virasse livro? – Maurício Meirelles

O verdadeiro Pocket Show!

Hoje temos um post light pra começar esse segundo semestre: E se o stand-up virasse livro? é praticamente um show de humor que você pode levar para casa!

Neste livro, Mauricio Meirelles reúne o melhor de seus textos e roteiros em um único lugar; o livro é quase uma conversa com o leitor, os assuntos são ligados uns aos outros o que deixa a narrativa contínua e te faz ler numa sentada (sem maldade, leitores assíduos sabem o que essa expressão significa)!

Vários temas são abordados durante o livro; com uma linguagem coloquial, rápida e sem enrolação Mau Meirelles fala sobre revistas femininas, churrascaria, vestibular, família, futebol e diversos outros assuntos que fazem parte de nosso dia a dia.

Como se o ótimo texto não fosse suficiente, ainda temos notas e comentários de outros humoristas, como: Marcelo Adnet, Marcelo Mansfield, Oscar Filho, entre outros.

Como eu sou muuuuito chique ganhei o meu exemplar do próprio Maurício que ainda fez uma dedicatória pra mim!

Sou chique benhê!

 

MEIRELLES, Maurício. E se o stand-up virasse livro? Rio de Janeiro: Ediouro, 2010.

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CONTOS DE ENGANAR A MORTE – RICARDO AZEVEDO

Olá minha gente! O post de hoje é sobre um livro infanto-juvenil: Contos de enganar a morte do autor paulistano Ricardo Azevedo. 

O livro é dividido em quatro contos:

-O homem que enxergava a morte;

-O último dia na vida do ferreiro;

-O moço que não queria morrer e

-A quase morte do Zé Malandro.

Todas essas histórias são baseadas em contos populares (tema que o autor pesquisou e estudou durante toda sua carreira) e, até mesmo, em folclores locais. 

Como o próprio título já diz, todas as tramas deste livro se desenvolvem em torno de um único tema: a morte. As personagens tentam de todas as formas driblar o caminho da dona Morte, mas esta é uma jogadora sagaz e ninguém escapa de suas artimanhas. Apesar do tema meio mórbido, todas as histórias são recheadas de humor e, até mesmo, de uma Morte simpática que, em dados momentos, se mostra muito gentil e solícita.

Por se tratar de um livro infanto-juvenil a fonte é em tamanho grande e há muitas ilustrações. Por falar nisso, como vocês podem perceber pela capa, todas as imagens do livro são baseadas na xilogravura, técnica típica da literatura de cordel. 

O livro é infanto-juvenil, mas é recomentado para crianças de todas as idades, dos oito aos oitenta anos!

AZEVEDO, Ricardo. Contos de enganar a morte. São Paulo: Ática, 2003.

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BALA NA AGULHA – MARCELO RUBENS PAIVA

Nossa, dessa vez eu atrasei muito esse novo post! Posso me desculpar falando que eu estava suuuper ocupada, mas é mentira… Deu preguiça mesmo, além de uma falta de criatividade monstra! Alors, o livro de hoje é outro do meu amado Marcelo Rubens Paiva!

Bala na Agulha é o quinto livro do autor. A história gira em torno de um garoto de programa que torna-se traficante nos Estados Unidos e  por um equivoco (ou armação?) passa a ser acusado de assassinato e é obrigado a fugir às pressas. Ao chegar ao Brasil, o jovem (que eu não lembro o nome, sorry) simplesmente descobre que seu pai virou o Primeiro-Ministro. Esse fato só faz aumentar seus problemas, pois ele descobre que várias pessoas do alto escalão podem estar envolvidas com aquele assassinato em Nova York…

Well, well, well… hoje estou cheia de expressões estrangeiras, enfim, não bastassem os problemas com a polícia, ao voltar ao Brasil o rapaz ainda tem que encarar seus fantasmas familiares, seu desafeto com o pai e as pendências com a irmã que sempre foi deixada em segundo plano pela mãe, extremamente preocupada com o sumiço do filho mais velho.

[…] Num oceano, a falta de ventos e o céu claro podem ser traduzidos como calmaria. No entanto, correntes nas profundezas arrastam e tumultuam. É na escuridão que as feras atacam. Aparentemente, a família Castilho estava bem. Talvez eu fosse a corrente que arrasta e tumultua. Eu sou o mal.

(p.119)

A leitura desse livro é rápida e dinâmica. O enredo é bem elaborado, mas para os leitores mais atentos se torna um pouco previsível: bastam uma ou duas passagens para se saber o desfecho de alguns personagens. Uma curiosidade: os capítulo não possuem nomes, são delimitados através de horários (15h30; 12h00; Sábado 22h00) e por marcações da passagem do tempo (Antes, Durante, Depois), o que dá ao enredo ainda mais velocidade. O romance tem todos os clichês dos livros policiais: assassinatos, perseguições, etc. Mas quem gosta do gênero pode apostar no livro!

Quando ao estilo, a narrativa mantém aquela forma clássica que o Marcelo tem para escrever: narração em primeira pessoa,  diálogos ágeis, escrita coloquial e de fácil entendimento. O exemplar que eu tenho é da editora Siciliano,  está em formato brochura e com fonte bem grande, o que faz o livro parecer muito com aqueles que a gente lia na sexta série. É ótimo para quem está começando no mundo das letras e não quer se aventurar logo de cara em grandes romances (literalmente).

Vou terminar dizendo que meu exemplar é autografado, só para fazer inveja…. rsrsrs

 

PAIVA, Marcelo Rubens. Bala na agulha. São Paulo: Siciliano, 1992.

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