Outros jeitos de usar a boca – Rupi Kaur

como é tão fácil pra você
ser gentil com as pessoas ele perguntou

leite e mel pingaram
dos meus lábios quando respondi

porque as pessoas não foram
gentis comigo

Gente, pensa num livro que traduz vários sentimentos que há muito não sabia downloadexpressar… Outros jeitos de usar a boca, da indiana Rupi Kaur, se resume em duas palavras: catarse e epifania.

Desde que vi sobre este livro na internet não consegui me segurar até compra-lo. Fui lendo aos poucos, procrastinando, pois não queria terminar. Cada poema que lia, eu parava para refletir; sabe aquela sensação, aquele sentimento que você não sabe explicar nem exteriorizar? De repente, lendo o livro, tive aquela revelação: “é isso que eu sempre senti/pensei e nunca soube manifestar!”

O livro é dividido em quatro partes: A dor, O amor, A ruptura e A cura. Como tenho essa pegada meio melancólica é óbvio que o que mais gostei foi “A Ruptura”. 

Esteticamente, o livro é curto. Os poemas, muitas vezes, são breves, mas que causam reflexão e aquele reconhecimento. Aliás, devo confessar que nunca gostei muito de poemas/poesia, pois, até o momento, não havia tido esse sentimento tão necessário: reconhecimento.

Não sei por que me rasgo pelos outros
mesmo sabendo que me costurar
dói do mesmo jeito depois.
(p. 125)

Uma característica interessante da escrita da Rupi é que em seus poemas a pontuação é quase inexistente. A impressão que tive foi que esta peculiaridade repassa ao leitor a responsabilidade de lê-los e fazer a pontuação de acordo com o cada momento.

De forma bem explícita os poemas dialogam com a alma e a existência feminina. É praticamente impossível não passar os olhos pelos escritos e lembrar ou revivenciar alguma situação ou momentos da vida – e fica também claro que os anseios e as mazelas,  em grande parte, são os mesmos para todas em qualquer parte do mundo.

Este é um livro sensível, dolorido, contemplativo e auto-reflexivo. Devo admitir que ele traduz muito de nossa alma. Por vezes me senti acolhida e abraçada; há partes bem humoradas e outras cheias de esperança – todos os ingredientes essenciais para termos em nossa vida e dependendo do momento ele poderá causar reações diferentes em quem lê. Vale a leitura e a reflexão.

acima de tudo ame
como se fosse a única coisa que você sabe fazer
no fim do dia isso tudo
não significa nada
esta página
onde você está
seu diploma
seu emprego
o dinheiro
nada importa
exceto o amor e a conexão entre as pessoas
quem você amou
e com que profundidade você amou
como você toucou as pessoas à sua volta
e quanto você se doou a elas
(p.194)

KAUR, Rupi. Outros jeitos de usar a boca. São Paulo: Planeta, 2017.

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Clube da Luta – Chuck Palahniuk

  1. A primeira regra do clube da luta é que você não fala sobre o clube da luta.
  2. A segunda regra do clube da luta é que você não fala sobre o clube da luta.
  3. Quando alguém  diz “pare” ou fica desacordado, mesmo que esteja fingindo, a luta acaba.
  4. Apenas duas pessoas por luta.
  5. Uma luta por vez.
  6. Sem camisa e sem sapatos.
  7. As lutas duram o quanto tiverem que durar.

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Olha quem está aqui outra vez!!! A novidade de hoje é o polêmico, sqn, livro do nosso amigo de fé e irmão camarada Chuck Palahniuk: Clube da Luta! Sim minha gente, existiu um livro antes do filme – e é sobre esta obra da literatura que iremos conversar…

Bom, a história do livro nos é contata por um narrador sem nome e que vai levando uma vida bem mediana – ele possui um emprego fixo, um apartamento, gasta seu dinheiro com coisas supérfluas e ainda sofre de insônia. E é justamente por causa dessa insônia que ele vai parar em grupos de apoio para pessoas doentes – desde os grupos de câncer de próstata até os de portadores de parasitas mentais -, e é por meios desses encontros que ele consegue encontrar, de certa forma, algum conforto e dormir em paz. Tudo vai bem até que ele encontra Marla Singer, outra impostora que, como ele, também participa de grupos de apoio. E é nesse meio tempo, entre viagens e idas a grupos de apoio que o narrador conhece Tyler Durden (um homem forte, destemido e determinado) e juntos eles acabam fundando o Clube da Luta, um pano de fundo para vários outros acontecimentos…

Vamos começar do início: o livro é todo escrito através dos pensamentos do nosso narrador. Ele faz cortes, pausas, interrompe e retoma assuntos, faz referências a coisas já ditas muito antes, quase um fluxo de consciência que pode confundir algumas pessoas, mas, mesmo sendo as vezes uma narrativa aleatória, há uma linha que sempre se segue e tudo está interligado – fazendo total sentido. O encontro com Tyler acrescenta na trajetória do narrador mais emoção; quando ambos decidem criar o Clube da Luta não esperavam a adesão de tantas pessoas, mas foi algo que tomou enormes proporções e que, a partir de um ponto, ficou sem controle.

Parando um pouco para filosofar, e seguindo as dicas que o autor deixa no decorrer do livro, o clube da luta nada mais é do que a busca de homens por autoafirmação e uma oportunidade de demonstração da masculinidade através da força (Gente, vamos melhorar! O ser humano já desceu das árvores há muito tempo pra vocês ficarem nessa de bater uns nos outros!). Mas o enredo vai muito além disso: diferentemente do filme onde o foco está no clube, o livro nos mostra mais sobre a personalidade do narrador, ele se aprofunda na história de vida de Marla, faz reflexões sobre consumismo, solidão e a forma como as pessoas trabalham em empregos que não gostam para ganhar dinheiro, comprar coisas, se endividarem e, assim, continuarem nesse ciclo vicioso de tédio e frustração. O clube da luta em si é apenas um pano de fundo, uma desculpa que existe para se expor a forma de vida medíocre que algumas pessoas levam –  e que elas seriam capaz de qualquer coisa para não terminar sendo apenas mais um.

Para aqueles que não viram o filme e que não sabem o “pulo-do-gato” que existe no enredo, já digo que ao longo da narrativa o autor, na voz no personagem, vai deixando várias dicas do que está acontecendo… Fiquem espertos!

Também para que não haja decepção, já digo que o filme tem várias diferenças do livro (o final, por exemplo), mesmo assim ambos são ótimos! O filme começou causando estranheza nas pessoas, mas foi catapultado da seção de filmes pipoca e hoje é um clássico dos filmes cult (exagermo meu?).

No mais, a escrita do Chuck é super fácil e fluida. O livro possui 270 páginas em papel pólen e a edição da Leya está muito boa. A leitura é rápida, mas exige certa atenção do leitor para não se perder nos devaneios da nossa personagem – e nos sarcasmos e ironias do autor. Em toda a narrativa há várias passagens e frases que te fazem pensar (além de algumas cutucadas que o autor dá, indiretamente, em alguns best-sellers que existem por aí).

Recomendo para todos essa leitura fácil, divertida e surpreendente!

-Eu vejo os homens mais fortes e inteligentes que já viveram – […] – e esses homens estão enchendo tanques de carros e servindo mesas.
[…] Há uma categoria de homens e mulheres jovens e fortes que querem dar a própria vida por algo. A propaganda faz essas pessoas irem atrás de carros e roupas de que elas não precisam. Gerações têm trabalhado em empregos que odeiam para poder comprar coisas de que realmente não precisam. – Não temos uma grande guerra em nossa geração ou uma grande depressão, mas na verdade temos, sim, é uma grande guerra de espírito. Temos uma grande revolução contra a cultura. A grande depressão é a nossa vida. Temos uma depressão espiritual. (p.186)

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PALAHNIUK, Chuck. Clube da luta. São Paulo: Leya, 2012.

Holocausto Brasileiro – Daniela Arbex

[…] a estimativa é que 70% dos atendidos não sofressem de doença mental. Apenas eram diferentes ou ameaçavam a ordem pública. Por isso, o Colônia tornou-se destino de desafetos, homossexuais, militantes políticos, mães solteiras, alcoolistas, mendigos, negros, pobres, pessoas sem documentos e todos os tipos de indesejados, inclusive os chamados insanos. A teoria eugenista, que sustentava a idéia de limpeza social, fortalecia o hospital e justificava seus abusos. Livrar a sociedade da escória, desfazendo-se dela, de preferência em local que a vista não pudesse alcançar (p.26).

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É minha gente, cá estou eu de volta trazendo um livro denso e 
incômodo: Holocausto brasileiro, da jornalista Daniela Arbex, ganhou o prêmio de melhor livro-reportagem de 2013 ao mostrar de forma assustadora como o ser humano pode ser cruel com o seu semelhante, deixando milhares de pessoas a mercê de maus tratos, fome, tortura e todo tipo de flagelo que nem a alma mais dura seria capaz de suportar…

Como já dito, o livro trata-se de uma reportagem feita sobre o hospital psiquiátrico Colônia, na cidade mineira de Barbacena,  local onde mais de 60.000 vidas se perderam nos anos em que esteve em funcionamento (maior parte do século XX). Inicialmente com o intuito de ser um local de acolhimento para pessoas com alguma doença mental, o local tornou-se um “deposito” de todo o tipo de gente que não era bem vista, ou que não era aceita como “normal”. Mais que isso, pessoas que simplesmente estavam “atrapalhando” ou que se tornavam um incômodo para alguém com mais poder também eram mandadas para o local: epiléticos, prostitutas, meninas grávidas que foram violentadas, esposas abandonadas para que o marido pudesse fugir com a amante, filhas de fazendeiros que perderam a virgindade antes do casamento… até timidez e tristeza eram motivos para  alguém ser deixado lá. Homens, mulheres e crianças, todos estavam vulneráveis as mais bárbaras formas de desprezo e abandono que se possa imaginar.

“[…]Foi a última vez que Luiz Pereira de Melo, hoje com setenta e oito anos, viu a mãe. Tratado como propriedade do Estado, o menino hospitalizado apenas por ser tímido se separou da família sem diagnóstico de loucura, embora não tenha sido difícil arranjar uma doença para ele. Qualquer moléstia mental serviria, afinal, o rapaz era filho da pobreza como a maioria dos depositados nos manicômios” (p.132)

Ao longo das páginas do livro conhecemos várias histórias e depoimentos de pessoas que viveram naquele lugar, bem como de funcionários que tentaram lutar contra o sistema. Ao passar das páginas ficamos chocados com as histórias de tortura e descaso. A autora nos contas de forma crua e sem cerimônias como, por muitas vezes, as pessoas deste local eram obrigadas a comer ratos e beber água do esgoto ou urina, pois não havia nada para elas. Dormiam no chão, sobre capim, pois poderes maiores decidiram que assim economizariam leitos; eram espancados, violados e recebiam choques. No frio, eram deixados nus ao relento. Muitos não chegavam a manhã seguinte. Uma forma de se maltratar digna de campos de concentração nazista. 

“- Lá existe um psiquiatra para 400 doentes. Os alimentos são jogados em cochos e os doidos avançam para comer. O que acontece no Colônia é a desumanidade, a crueldade planejada. No hospício tira-se o caráter humano de uma pessoa e ela deixa de ser gente. É permitido andar nu e comer bosta, mas é proibido o protesto qualquer que seja a sua forma. Seria de desejar que o Hospital Colônia morresse de velho. Nascido por lei, em 16 de agosto de 1900, morreria sem glórias. E, parafraseando Dante, poderia se escrito sobre o seu túmulo: quem aqui entrou perdeu toda a esperança” (p.200-201) 

Em seus quatorze capítulos conhecemos histórias de alguns internos que conseguiram sobreviver. São histórias que nos fazem sentir um mix de sensações: angústia, tristeza, indignação e revolta, pois o Colônia não era um hospital que existia para fins terapêuticos, mas, apenas, para atender a necessidades políticas. E, como sempre, os mais pobres e inocentes pagaram o preço.

Durante as décadas de 60 e 70 várias equipes fizeram reportagens sobre o local e, assim como causavam comoção pública de forma instantânea também eram esquecidas com rapidez. Durante todo o livro fica claro como o Brasil e suas leis desconheciam (e ainda desconhecem?) a doença mental, tendo como tradição o cárcere e não recursos ambulatoriais e tratamentos paliativos. Sobre esse aspecto, a jornalista nos conta sobre pessoas que lutaram, seja de forma singela ou no âmbito governamental, para que houvessem mudanças no tratamento de doentes psiquiátricos: foram propostos projetos de lei para uma reforma psiquiátrica, mas, como sempre, houveram protestos e retaliações contra aqueles que tentaram promover mudanças naquele sistema…

O livro narra um pedaço triste da história de nosso país. Repleto de fotografias, ele tem um ar pesado, de sofrimento. As imagens são chocantes e fazem o leitor permanecer pensativo por vários momentos. Quanto a estrutura, achei que houve uma falta de revisão no texto, pois há vários erros de pontuação. São 255 páginas ricamente ilustradas. A narrativa é feita de forma fácil e linguagem acessível. O que me incomodou foi um pouco da desorganização na hora de montar os capítulos: são citados vários nomes que são retomados em passagens distintas sem que haja uma recapitulação dos acontecimentos (o que me confundiu um pouco).

No entanto, creio que esse seja um livro fundamental para todas as pessoas. Não se pode esconder as atrocidades que aconteceram há pouco tempo, nem negar esse passado. Temos que lutar para que histórias como essa não se repitam, mas, infelizmente, vejo que estamos caminhando para o mesmo destino… Talvez no século XXI os protagonistas sejam outros (homossexuais, mulheres, negros), mas ainda são minorias que, por vezes, têm direitos negados e são subjugados como inferiores. Não podemos deixar que a tragédia se repita, assim recomendo para todos a leitura do livro – e fica a cargo de cada um dizer em qual parte teve mais vontade de chorar – e se perguntar: o que fazemos de bom para minimizar as injustiças e conviver com as diferenças?.

Tragédias como a do Colônia nos colocam frente a frente com a intolerância social que continua a produzir massacres: Carandiru, Candelária, Vigário Geral, Favela da Chatuba são apenas novos nomes para velhas formas de extermínio. Ontem foram os judeus e os loucos, hoje os indesejáveis são os pobres, os negros, os dependentes químicos, e, com eles, temos o retorno das internações compulsórias temporárias. Será  a reedição dos abusos sob forma de política de saúde pública? O país está novamente dividido. Os parentes dos pacientes também. Pouco instrumentalizadas para lidar com as mazelas impostas pelas drogas e pelo avanço do crack, as famílias continuam se sentindo abandonadas pelo Poder Público, reproduzindo, muitas vezes involuntariamente, a exclusão que as atinge. 
O fato é que a história do Colônia é a nossa história. Ela representa a vergonha da omissão coletiva que faz mais e mais vítimas no Brasil. Os campos de concentração vão além de Barbacena. Estão de volta nos hospitais públicos lotados que continuam a funcionar precariamente em muitas outras cidades brasileiras. Multiplicam-se nas prisões, nos centros de socioeducação para adolescentes em conflito com a lei, nas comunidades à mercê do tráfico. O descaso diante da realidade nos transforma em prisioneiros dela. Ao ignorá-la, nos tornamos cúmplices dos crimes que se repetem diariamente diante de nossos olhos. Enquanto o silêncio acobertar a indiferença, a sociedade continuará avançando em direção ao passado de barbárie (p.255).

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ARBEX, Daniela. Holocausto brasileiro. São Paulo: Geração editorial, 2013.

O Exorcista – William Peter Blatty

Assim como o o brilho breve dos raios de sol não é notado pelos olhos de homens cegos, o começo do horror passou despercebido; com o guincho do que ocorreu em seguida, o início foi, na verdade, esquecido e talvez não relacionado de forma alguma ao horror. Era difícil saber…

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Eu disse que não demoraria mais tanto tempo para fazer novas postagens! Aqui estou trazendo um clássico do cinema que poucas pessoas sabem que foi baseado em um livro:
O Exorcista, completou quarenta anos e está com uma versão revista pelo autor, William Peter Blatty, trazendo todo o horror de uma história que arrebatou uma multidão e, até hoje, é lembrada como a melhor história de terror de todos os tempos! Pegue sua pipoca e sua água benta e vamos conferir essa belezinha!

Logo no primeiro ato do livro somos apresentados às personagens principais: Chris MacNeil é uma atriz renomada e de muito sucesso. Ela está vivendo em uma casa alugada com sua filha Regan, uma menina doce e educada de onze anos. Além delas também vivem na casa os empregados Karl e Willie e Sharon, secretária de Chris e tutora de Regan. Perto da casa há um centro residencial de jesuítas, onde vive o padre e psiquiatra Damien Karras, um padre que, ao longo dos anos, começou a duvidar de sua fé… Ainda na primeira parte percebemos que Regan começa a agir de modo estranho: no início Chris notou barulhos estranhos e queixas infundadas da filha, porém quando percebeu a mudança repentina de atitude da menina, ela procurou médicos e fez vários exames para descobrir o que havia de errado.

Os exames não revelaram nada e, desacreditados sobre a situação da menina e sem saber o que fazer, os médicos, pensando que poderia se tratar de um distúrbio mental, aconselharam Chris a procurar um exorcista. A explicação: se a menina acredita estar possuída, um ritual de exorcismo, ainda que encenado, a fará acreditar na cura. E assim, desesperada, Chris (uma pessoa ateia, vale lembrar) procura o padre Karras, que a ajudará na condição complicada da filha.

Eis aqui pontos que se diferem do filme: o filme deixa muito claro para o espectador que sim, Regan foi possuída por um demônio e o exorcismo é a única solução. No livro o autor a todo momento procura explicações científicas para questionar o que acontece. O padre Karras é esse ponto de racionalização. Por ser também um psiquiatra, ele busca na literatura médica casos que se assemelham ao da menina e que possam, de alguma forma, ser entendidos pela medicina, assim, uma vez que todos os sintomas são explicados não há certeza da possessão. Segundo ele, se uma pessoa acredita estar possuída por um demônio (ou um espírito) essa pessoa terá todos os “sintomas” de uma possessão. Portanto o exorcismo nada mais será que uma “auto-sugestão” e funcionará muito bem, obrigado, mesmo que sendo feito por bons atores e não por padres, necessariamente.

Durante todo o transcorrer da história temos este embate entre a possessão verdadeira e a doença mental (seja ela esquizofrenia, histeria, ou qualquer outra). Durante a maior parte do livro eu, particularmente, acreditei que tudo não passou realmente de um distúrbio mental da menina, mas… sempre fica aquela pulga atrás da orelha… será?

Edição especial de 40 anos

Edição especial de 40 anos


Bom… o livro possui quatro atos além de um prólogo e um epílogo. A escrita do autor é fluente e bem direta, as pequenas nuances da história se encaixam perfeitamente nos diálogos e nas poucas descrições existentes. Eu diria que o livro trata-se de um terror psicológico, pois ele joga com as informações e acontecimentos de tal forma que sempre nos deixa em dúvida. O autor se baseou em uma história real que aconteceu na década de 1940, fazendo as alterações necessárias para tornar tudo mais instigante e interessante.

A edição da editora agir está muito boa. Há alguns erros bobos de revisão, mas nada com que se preocupar. Folhas amarelas e 333 páginas que podem ser lidas numa tacada só! Livro mais que recomendado!

No mais, eu tenho uma opinião formada sobre o que aconteceu com a menina (para mim não houve possessão, apenas uma forte doença mental somada ao medo e ao desespero de todos os envolvidos, que poderiam ter criado imagens não condizentes com a realidade), mas isso pode variar de acordo com a crença de cada um. O final fica em aberto e cada leitor deve interpretá-lo a sua maneira. Afinal, como disse o padre Merrin, o exorcista, nem todo o mal é culpa do diabo.

[…]Acho que é aí que está, Damien… a possessão. Não nas guerras, como algumas pessoas acreditam, não tanto. E muito raramente em intervenções extraordinárias como aqui… Esta menina… Esta pobre criança. Não, costumo ver a possessão nas coisas pequenas, Damien. Nas picuinhas e nos desentendimentos; na palavra cruel e cortante que salta livre à língua entre amigos. Entre namorados. Entre marido e mulher. Temos muito disso e não precisamos de Satanás para criar nossas guerras. Conseguimos criá-las sozinhos… Sozinhos (p.305).


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BLATTY, William Peter. O exorcista. Rio de Janeiro: Agir, 2015.

Carta ao pai – Franz Kafka

Tu tens também um jeito de sorrir particularmente bonito, bem raro de se ver, um sorriso tranquilo, satisfeito, afável, que pode fazer feliz aquele a quem se dirige. Não consigo me lembrar de que ele tivesse sido concedido expressamente a mim na época, uma vez que eu ainda te parecia inocente e era tua grande esperança. Aliás, também essas impressões amáveis não lograram outra coisa a não ser aumentar a minha consciência de culpa com o tempo e tornar o mundo ainda mais incompreensível para mim(p.42)

carta-ao-pai
Bonjour mes amis! Ça va?
Depois de muito tempo ausente, trago a primeira resenha do ano de 2015! E para começar o ano bem, nada melhor que uma leitura realista e catártica que te fará pensar, rever conceitos e se identificar com várias nuances: Carta ao pai, é um livro sensível, verdadeiro e mostra que todas as famílias, no fundo, são iguais.

A premissa do livro é simples: Kafka, insatisfeito com a reação fria do pai em relação a notícia de seu noivado, resolve escrever a ele uma longa carta (que nunca foi enviada) abrindo seu coração, seus sentimentos e angústias, expondo como a relação conturbada com o seu pai foi a chave para sua baixa auto-estima, sua personalidade assustada e suas dúvidas em relação as várias facetas da vida.

Este romance epistolar mostra com delicadeza um lado íntimo e delicado do famoso autor; entre seus desabafos podemos ver várias referências as obras A Metamorfose, O Processo, entre outras. Também revela que em muitos de seus textos, Kafka expõe de forma ficcional aquilo que se passava em sua vida real.

“(…)Não é fácil achar um meio termo diante de tudo isso. Por ora basta recordar coisas ditas anteriormente: eu perdi a autoconfiança diante de ti, que foi substituída por uma consciência de culpa ilimitada (lembrando-me dessa falta de limites, escrevi certa vez corretamente sobre alguém: “Teme que a vergonha sobreviva a ele”). Eu não podia me metamorfosear de repente, quando eu me juntava a outras pessoas; muito antes ficava com uma consciência de culpa ainda mais profunda em relação a elas, pois conforme disse, precisava reparar os danos que, com a minha cumplicidade, tu lhes havias causado (…)”. (p.60)

O livro é sensível e expõe o drama humano universal que não só Kafka, mas a maioria das famílias está imersa. Mesmo sendo um livro de fácil leitura, é impossível não se emocionar e se reconhecer nas linhas ali escritas; em alguns momentos há uma mistura de sensações e sentimentos que farão até os mais ‘duros’ amolecerem diante das palavras tristes de Kafka, eu mesma lendo – e agora escrevendo este post – me emocionei várias vezes pensando em parentes e situações que já vivi.

A edição da L&PM é simples: páginas brancas e margem simples. A linguagem é um pouco mais rebuscada, mas nada que complique a leitura (afinal, um pouco de erudição não faz mal a ninguém). As 97 páginas de conteúdo compensam a capa horrorosa.

Apesar de ser um livro com uma temática pesada e até um pouco aflitiva, é uma leitura obrigatória para todos aqueles que buscam refletir sobre a vida, as relações familiares, e tudo aquilo que nos cerca e nos influencia de certa forma. E, para aqueles que ainda duvidam que a arte imita a vida, deixo-vos com as palavras do autor, dedicadas ao seu pai:

“minha atividade de escritor tratava de ti, nela eu apenas me queixava daquilo que não podia me queixar junto ao teu peito”.

KAFKA, Franz. Carta ao pai. Porto Alegre: L&PM, 2010.

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A cor que caiu do céu – H. P. Lovecraft

Não era fruto do mundo dos sóis e dos sóis que fulguram nos telescópios e nas chapas fotográficas dos nossos observatórios. Não era um sopro dos céus cujos movimentos e dimensões os nossos astrônomos medem ou julgam demasiado vastos para medir. Era apenas uma cor que caiu do espaço – o pavoroso mensageiro de reinos informes que transcendem a Natureza tal como a conhecemos…  (p. 63-64)

HPLOVECRAFTÉ isso aí… dessa vez consegui ser um tiquinho mais ágil, e hoje trago um clássico da Literatura de Horror: A cor que caiu do céu é um texto de 1927 do americano Howard Phillips Lovecraft, ou apenas H. P. Lovecraft.

O texto acompanha o narrador (sem nome), funcionário que é enviado à cidade de Arkham com o objetivo de estudar o local mais propício para a construção de uma represa. Em meio a este estudo, ele descobre o “descampado maldito”, local de enorme mistério e cheio de histórias. O lugar era formado por acres de desolação cinzenta, parecendo uma grande queimada ou uma mancha feita por ácido. Cheio de curiosidade, o narrador começa a investigar e acaba chegando até Ammi Pierce, ancião que vivia na região antes da maldição se abater sobre o local. Ammi conta que, em meados de 1880, o local era uma fazenda produtiva, habitada e cheia de vida, até que um dia um meteorito caiu no local, ao lado de um poço. Algumas pessoas foram examiná-lo, mas o que acharam foi apenas uma rocha com núcleo de uma cor estranha… A partir de então o horror se espalhou pela propriedade: tudo começou a apresentar uma cor cinzenta, plantas cresceram de forma desordenada, animais apresentavam comportamentos estranho e as pessoas enlouqueciam – e acabavam morrendo ou sumindo de forma misteriosa.

Nesse conto temos o mistério em todos os pontos: o que será isso que veio do espaço? O que acontece com as pessoas e animais? Há uma explicação lógica para tudo? Lovecraft não economiza em detalhes para tentar definir o que seria essa “cor” vinda de outro mundo, aliás, desde o começo ele deixa claro que sim, é algo de outro mundo, mas mostra que o “extraterrestre” não são, necessariamente, homenzinhos verdes, mas pode se manifestar de várias formas, inclusive de cores e texturas não definidas no nosso mundo.

A narrativa é envolvente, a forma como é mostrada a morte de animais e pessoas não deve nada aos filmes de Hollywood. O horror não é explícito, mas está nas entrelinhas e em cada palavra que ele utiliza para contar esse estranho fenômeno que atingiu a fazenda e a forma como seus moradores ignoraram todas as evidências e permaneceram no local.

H. P. Lovecraft é um mestre do conto de horror e ficção científica. Em vida, seus escritos foram publicados somente em revistas e apenas após sua morte, ocasionada por um câncer em 1937, que seus textos viraram livros. A edição que possuo é a editora Hedra, no caso o título foi traduzido como A cor que caiu do espaço, mas tanto a versão …caiu do céu quanto …caiu do espaço são aceitas (embora eu prefira a primeira opção). O exemplar da Hedra é em formato pocket, folhas brancas e diagramação simples. Na edição, além do conto, há uma introdução e um apêndice que consta três textos do Lovecraft: Notas sobre uma não entidade (adoro esse título), de 1933, um relato autobiográfico do autor; A confissão de um cético, de 1922, breve ensaio do autor sobre os próprios interesses religiosos, científicos e filosóficos e Notas sobre ficção interplanetária, de 1934, artigo que defende as possibilidades artísticas da ficção científica. 

Tudo isso em 96 páginas!

No mais, o conto é bem interessante e merece ser relido – para pegar aqueles detalhes que passaram  despercebidos. Recomendado para todos que apreciam histórias de horror e ficção científica que fogem dos clichês!

LOVECRAFT, H.P. A cor que caiu do espaço. São Paulo: Hedra, 2011.

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Malícia – Chris Wooding

Todo mundo já ouviu esse boato. Chame Jake Gigante e ele levará você para Malícia, um mundo que existe dentro de uma aterrorizante história em quadrinhos, de onde os garotos nunca saem.

malícia (1)Tem dias que a gente está meio cansado e apenas querendo uma leitura sem muitas pretensões, apenas para nos distrair. É nesse contexto que eu encarei o “pequeno” livro Malícia, do inglês Chris Wooding. O livro é um infanto-juvenil de míseras 430 páginas, divertido, envolvente e com gostinho de quero mais.

A história se passa na Inglaterra, onde existe um boato de uma revista em quadrinhos secreta e que guarda um grande mistério: após fazer um ritual e pronunciar as palavras “Jake Gigante, me leve embora” você é transportado para o incrível mundo de Malícia, onde coisas estranhas acontecem, monstros e perigos estão por toda parte e a volta para casa não é uma garantia. A curiosidade é grande entre os garotos, até que Luke, um adolescente que vive em uma cidadezinha do interior, faz o ritual e desaparece. Seus amigos, Seth e Kady, preocupados com o amigo, resolvem investigar e acabam descobrindo que os boatos sobre Malícia podem ser bem mais do que uma lenda…

A narrativa do livro é envolvente, leve, com cenas rápidas e ágeis. A escrita do autor é fácil, sem enrolação e  bem contemporânea: trechos do livro são escritos de forma diferenciada, com a linguagem de uma conversa no MSN, ou como a reprodução de uma página de jornal. O que mais se destaca (e é o motivo que faz tanta gente ir atrás desse livro) é a mistura de romance e HQ – várias passagens do texto estão em formato de quadrinhos, um diferencial que tem tudo a ver com a proposta do autor, afinal Malícia é  um mundo que existe dentro dos quadrinhos, nada mais justo que a história fosse retratada dessa forma.
livro
Eu gostei bastante do livro, são mais de 400 páginas que passam como se fossem 100. A fonte é grande, nº 14,  o papel é de boa qualidade e de gramatura alta (o que deixa o livro bem mais grosso). A parte gráfica está caprichada, o ritmo da narração é acelerado, cheio de ação e sem tempo para pausas ou recuos; as personagens são cativantes, a gente torce por elas, compartilha das emoções e das angústias. Ao final, o autor deixa um gancho enorme para a continuação, Caos. QUERO PRA ONTEM!

Mas…

Como nem tudo nessa vida é só alegria, preciso comentar que, apesar de a história ser divertida e bem desenvolvida, a revisão é péssima. A medida que você vai lendo o livro repara que em algumas frases faltam (ou sobram) palavras, certos trechos estão mal elaborados ou escritos de um jeito estranho – o leitor precisa reler tudo para entender o que foi dito. Não sei, mas tive a impressão que muitas coisas foram jogadas conforme a tradução, sem muita preocupação em montar uma frase coesa e coerente. Outro ponto que me chamou atenção foi que, na parte em HQ, um balão de fala foi “esquecido” em inglês. As letras eram miúdas, mas dá pra perceber (pode ser que a frase esteja em inglês de propósito, mas eu duvido). Na parte escrita com MSN, algumas frases eu lia e pensava “o que significa isso?”. Pode ser que eu esteja velha e não entenda mais dessas coisas, mas, a verdade é que nunca me importei com alguns erros de tradução/revisão, mas dessa vez me incomodou bastante. Vamos ficar mais atentos galera!

Por fim, tirando essa falha “técnica”, o livro é um ótimo entretenimento para jovens e adultos. Espero que lancem a continuação em breve!

 

WOODING, Chirs. Malícia. São Paulo: Geração Editorial, 2012.

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