Prisioneiras – Drauzio Varella

Violência de gênero é flagelo que de uma forma ou de outra atinge todas as mulheres brasileiras, mas o ônus se concentra de maneira desproporcional entre as mais pobres e as negras, como constam as estatísticas. É nas áreas periféricas das cidades que o despotismo masculino exibe sua face mais brutas (p.268).

Benfazejos camaradas! Eu voltei para comentar o mais novo livro do médico, escritor e popstar Drauzio Varella: Prisioneiras fecha o ciclo e encerra a trilogia do cárcere que tanto fascinou os leitores.

8625784e-f014-4048-8c77-b73a1cf09f57O que podemos dizer sobre este livro: assim como nos antecessores Carandiru e Carcereiros, o livro conta pequenas histórias de vida dessas mulheres que estão presas, por motivos diversos, e nos mostra como a vida foi dura com a maioria delas.

O que me chamou a atenção, e que quase todas têm em comum, é o histórico de violência e descaso que muitas delas sofreram antes de entrarem para o mundo do crime. São histórias de violência doméstica, abusos e falta de perspectiva que se assemelham em quase todos os relatos. Em alguns casos a ganância e a sensação de poder também dão o toque para que a vida delas fosse para um caminho sem volta. Em alguns casos é possível se apiedar e sentir compaixão por aquelas pessoas que, as vezes ingenuamente, foram parar na ilegalidade.

Através da escrita fluida e que prende o leitor, Drauzio Varella consegue nos colocar dentro dos acontecimentos e, muitas vezes, nos faz refletir: o que eu faria nesta situação? É sempre um exercício de auto-reflexão e empatia. Lógico, nada justifica os crimes cometidos, mas é sempre bom sabermos olhar por outra perspectiva.

Um detalhe que me causou um certo incomodo foi que, apesar de o livro se chamar “Prisioneiras” e todo o enredo ser dedicado para contar as histórias delas, durante muitos capítulos elas foram esquecidas e a história do Carandiru e dos homens que lá estavam tomou o lugar de protagonista, deixando a verdadeira intenção do livro em segundo plano. Ele repete esta quebra em vários pontos, o que me deixou meio agoniada, pensando “ok, ok, disso eu já sei, vamos voltar para o foco”.

No mais, os pontos que ele mais ressalta, e que podem ser transpostos para a nossa realidade, são sobre a solidão e o abandono. Uma vez que na imensa maioria das vezes são as mulheres que assumem o papel de cuidadoras, quando elas mais necessitam são esquecidas por todos. Talvez não tão diferente do que acontece “no mundo de cá”.

Um ponto interessante é que o autor se utiliza das narrativas para discutir muitos outros temas: drogas, aborto, solidão, violência, sexualidade, leis, etc. Um fato interessante, e que deve fazer muitas pessoas refletirem a respeito é a surpreendente conclusão que ele chega ao vivenciar aquele ambiente: Toda mulher é prisioneira. Em maior ou menor grau, todas somos tolidas de alguma liberdade.

É pouco provável que a restrição do espaço físico, o confinamento com pessoas do mesmo sexo, a falta de carinho e da presença masculina e o abandono afetivo imponham de forma autocrática a homossexualidade no repertório sexual das mulheres presas.
É mais razoável pensar que esse conjunto de fatores apenas cria as condições socioambientais para que a mulher ouse realizar suas fantasias e desejos mais íntimos, reprimidos na vida em sociedade.
No universo prisional [elas] podem viver sua sexualidade da forma que lhes aprouver, sem enfrentar repressão social. Paradoxalmente, talvez a cadeia seja o único ambiente em que a mulher conta com essa liberdade (p.166).

Ademais, o livro é muito bem escrito e tem aquela forma envolvente que já conhecemos. Drauzio Varella não tenta ser imparcial, ele dá suas opiniões, aponta falhas e se posiciona diante das situações descritas. São 276 páginas que fluem de maneira leve, mas com conteúdo, para que possamos matar a curiosidade acerca do assunto e refletirmos sobre a realidade de nosso país.

De todas os tormentos do cárcere, o abandono é o que mais aflige as detentas. Cumprem suas penas esquecidas pelos familiares, amigos, maridos, namorados e até pelos filhos. A sociedade é capaz de encarar com alguma complacência a prisão de um parente homem, mas a da mulher envergonha a família inteira (p.38).

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VARELLA, Drauzio. Prisioneiras. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

Rota 66 – Caco Barcellos

Os homens começam a acreditar na violência como instrumento válido de ação, colocando-se em cheque toda a nossa concepção de vida cristã. A violência passaria a ser um instrumento válido na luta contra o crime (…) Neste ponto chega-se a um verdadeiro divisor de águas, sempre com aquela legião dos neutros. Ou se apóia, ou se condena ou se omite. Não há outra posição. (p.90)

Olha quem voltou!!! Eu sumo, mas eu volto! Ando meio devagar mesmo… mas dessa vez trago um pouco da verdade nua e crua: Rota 66 do jornalista Caco Barcellos é uma narrativa pesada, triste e revoltante sobre o que acontece em nosso país.

Para começar, trata-se de um livro reportagem, cujo objetivo é fazer um relato sobre acontecimentos recorrentes na cidade de São Paulo desde a década de 70. Neste caso, trata-se da história (infelizmente real) de policiais que têm uma característica em comum: são considerados matadores.

O livro narra várias histórias de pessoas que foram mortas pela crueldade. O que todas têm em comum é que eram, em sua maioria, homens jovens, pobres e negros. Muitos inocentes. Foram acusados, julgados e condenados à morte por aqueles que se julgavam superiores.

Os policiais: em sua maioria saíram impunes.

(…)
– Mas só criminoso pobre. Rico jamais!
Nossa dúvida é justificável. (…) eles não têm o perfil do inimigo que a Rota costuma perseguir. Muito simples: eles são ricos. Os PMs do patrulhamento das cidades brasileiras são orientados pelo comando de militares do Exército Nacional, que tem uma visão deformada do conceito de segurança pública. Obrigam seus comandados a praticar, com prioridade, a defesa da propriedade dos mais ricos. O resultado é o que se vê diariamente nas ruas. Uma perseguição violenta e sistemática exclusivamente contra o que eles chamam de marginal: o cidadão proveniente da maioria pobre que causa prejuízo à minoria rica da sociedade (p.25-26).

O livro discorre em suas 274 páginas histórias das mais variadas, mas sempre com o mesmo triste desfecho. A narrativa chega a causar angústia no leitor com a quantidade de injustiças que são relatadas.  Apesar de a narrativa ser ágil, há alguns pontos de barriga: muitos dados estatísticos que, de certa forma, complementam e justificam o enredo, mas dão um pouco de cansaço. 

No mais, recomendo a leitura para todos que se interessam por histórias policiais, mas sem glamourização, sem panos quentes. Pois a realidade é sempre mais dura do que nos contam os jornais. 

BARCELLOS, Caco. Rota 66. São Paulo: Globo, 1994.

 

De Profundis – Oscar Wilde

“Rejeitar nossas experiências é impedir nosso desenvolvimento. Negar nossas experiências é pôr uma mentira nos lábios de nossa vida. Não é menos do que uma negação da alma. Pois, tal como o corpo absorve todo gênero de coisas, tanto as coisas vulgares e sujas como aquelas que o sacerdote ou uma visão purificam, e as converte em velocidade ou força, no jogo dos músculos poderosos e na modelação da carne fresca, nas curvas e nas cores do cabelo, dos lábios, dos olhos, assim também a alma tem, por sua vez, suas funções nutritivas, e pode transformar em nobres movimentos de pensamento e em paixões de grande fulgor aquilo que é, em si mesmo, inferior, cruel e degradante; mais ainda, pode encontrar nestas coisas seus mais augustos modos de afirmação, e pode, muitas vezes, revelar-se de um modo mais perfeito por meio daquilo que fora feito para profanar e para destruir.” (p.72)

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Eu voltei!!! Demorei dessa vez, hein! Mas a leitura desta vez, embora seja curtinha, é de uma densidade que exigiu mais da minha pessoa do que eu imaginava. De profundis é uma confissão de Oscar Wilde, uma carta cheia de recriminações, angústias e desabafos em que o autor expõe sua alma e seus lamentos sobre a situação em que se encontrava.

Para quem não sabe, durante um período de sua vida, o aclamado autor Oscar Wilde esteve preso, acusado de homossexualismo (um absurdo, eu sei). Durante o tempo que esteve no cárcere, ele escreveu uma longa carta para seu amante, Alfred Douglas, no qual faz várias recriminações e despeja sua amargura. Douglas, mais que um caso, foi o grande culpado pela sua ruína pessoal e financeira, sua humilhação pública e pela sua tragédia.

Na carta Wilde explicita todos os momentos e fatos que o levaram a prisão, como sua família reagiu ao fato e agradece aos poucos amigos que ficaram ao seu lado nesse momento difícil – diferente do amante que fez pouco caso e nem, ao menos, se dignou a perguntar como ele estava e se precisava de algo.

Um fato curioso é que, embora publicada no início do século XX (1905), a carta mostra que muito do pensamento público não mudou. Na carta, o autor mostra como foi motivo de chacota e acusado de ele ser o grande culpado por sua situação, ignorando que muito da história ficou de conhecimento de todos graças a exposição que Alfred Douglas fez questão de fazer do caso – publicando cartas pessoas, por exemplo -, o que me lembra que até hoje as pessoas tendem a culpar as vítimas em diversos casos (quanto mais as coisas mudam mais elas ficam iguais?).

Durante toda a carta, Wilde expõe de forma brilhante suas idéias sobre a vida, a arte e relacionamentos. É uma confissão de seus erros e acertos; nela ele se defende e admite suas falhas. Mas, também, não perdoa as faltas que o companheiro teve e suas ambições, além do descaso que ele, Oscar, sofreu quando se viu numa situação difícil e não recebeu nenhum tipo de apoio, ou, ao menos, uma palavra reconfortante do amante.

A leitura do texto exige atenção, pois toda ela é feita em uma linguagem um pouco mais rebuscada (que muita gente pode não estar acostumada). A minha edição da Martin Claret, além da carta, conta com o poema Balada do Cárcere de Reading (1898), que é considerado o melhor poema do autor.

(…)
Contudo os homens matam o que amam,
Seja por todos isto ouvido,
Alguns o fazem com acerbo olhar,
Outros com frases de lisonja,
O covarde assassina com um beijo,
O bravo mata com punhal!

Uns matam seu amor, quando são jovens,
Outros quando velhos estão;
Com as mãos do desejo uns estrangulam
Outros do ouro com as mãos;
Os de mais compaixão usam faca,
O morto assim logo se esfria.

Uns amam pouco tempo, outros demais;
Este o amor compra, aquele o vende;
Uns matam a chorar, com muitas lágrimas,
Outros sem mesmo suspirar:
Porque cada um de nós mata o que ama,
Mas nem todos hão de morrer.
(…)

Por fim, o livro é algo sensível, triste e revelador. Nele Oscar Wilde mostra sua alma, seus desejos e suas lágrimas. Importante para pensarmos sobre nossa vida, nossos relacionamentos, sobre como todos seremos julgados sem dó ao menor deslize, e que são poucos que ficarão ao nosso lado nos momentos difíceis – e é a eles que devemos ser gratos eternamente. Sobretudo, mostra que, apesar de tudo, devemos tentar encontrar nosso lugar no mundo, e que, mesmo que possa parecer impossível, sempre haverá esperança.

“A sociedade, tal como a constituímos, não terá lugar para mim, não tem lugares para oferecer; mas a natureza, cujas doces chuvas caem igualmente sobre os justos e sobre os injustos, terá fendas nas rochas onde poderei esconder-me, e vales secretos em cujo silêncio poderei chorar sem ser perturbado. Há de pendurar estrelas na noite, para que eu possa caminhar em terras estranhas, na escuridão, sem tropeçar, e há de enviar o vento para apagar meus passos, de maneira que ninguém possa seguir-me para me ferir; há de limpar-me em grandes águas e com ervas frescas recuperar-me.” (p.124)

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WILDE, Oscar. De profundis. São Paulo: Martin Claret, 2007.

Holocausto Brasileiro – Daniela Arbex

[…] a estimativa é que 70% dos atendidos não sofressem de doença mental. Apenas eram diferentes ou ameaçavam a ordem pública. Por isso, o Colônia tornou-se destino de desafetos, homossexuais, militantes políticos, mães solteiras, alcoolistas, mendigos, negros, pobres, pessoas sem documentos e todos os tipos de indesejados, inclusive os chamados insanos. A teoria eugenista, que sustentava a idéia de limpeza social, fortalecia o hospital e justificava seus abusos. Livrar a sociedade da escória, desfazendo-se dela, de preferência em local que a vista não pudesse alcançar (p.26).

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É minha gente, cá estou eu de volta trazendo um livro denso e 
incômodo: Holocausto brasileiro, da jornalista Daniela Arbex, ganhou o prêmio de melhor livro-reportagem de 2013 ao mostrar de forma assustadora como o ser humano pode ser cruel com o seu semelhante, deixando milhares de pessoas a mercê de maus tratos, fome, tortura e todo tipo de flagelo que nem a alma mais dura seria capaz de suportar…

Como já dito, o livro trata-se de uma reportagem feita sobre o hospital psiquiátrico Colônia, na cidade mineira de Barbacena,  local onde mais de 60.000 vidas se perderam nos anos em que esteve em funcionamento (maior parte do século XX). Inicialmente com o intuito de ser um local de acolhimento para pessoas com alguma doença mental, o local tornou-se um “deposito” de todo o tipo de gente que não era bem vista, ou que não era aceita como “normal”. Mais que isso, pessoas que simplesmente estavam “atrapalhando” ou que se tornavam um incômodo para alguém com mais poder também eram mandadas para o local: epiléticos, prostitutas, meninas grávidas que foram violentadas, esposas abandonadas para que o marido pudesse fugir com a amante, filhas de fazendeiros que perderam a virgindade antes do casamento… até timidez e tristeza eram motivos para  alguém ser deixado lá. Homens, mulheres e crianças, todos estavam vulneráveis as mais bárbaras formas de desprezo e abandono que se possa imaginar.

“[…]Foi a última vez que Luiz Pereira de Melo, hoje com setenta e oito anos, viu a mãe. Tratado como propriedade do Estado, o menino hospitalizado apenas por ser tímido se separou da família sem diagnóstico de loucura, embora não tenha sido difícil arranjar uma doença para ele. Qualquer moléstia mental serviria, afinal, o rapaz era filho da pobreza como a maioria dos depositados nos manicômios” (p.132)

Ao longo das páginas do livro conhecemos várias histórias e depoimentos de pessoas que viveram naquele lugar, bem como de funcionários que tentaram lutar contra o sistema. Ao passar das páginas ficamos chocados com as histórias de tortura e descaso. A autora nos contas de forma crua e sem cerimônias como, por muitas vezes, as pessoas deste local eram obrigadas a comer ratos e beber água do esgoto ou urina, pois não havia nada para elas. Dormiam no chão, sobre capim, pois poderes maiores decidiram que assim economizariam leitos; eram espancados, violados e recebiam choques. No frio, eram deixados nus ao relento. Muitos não chegavam a manhã seguinte. Uma forma de se maltratar digna de campos de concentração nazista. 

“- Lá existe um psiquiatra para 400 doentes. Os alimentos são jogados em cochos e os doidos avançam para comer. O que acontece no Colônia é a desumanidade, a crueldade planejada. No hospício tira-se o caráter humano de uma pessoa e ela deixa de ser gente. É permitido andar nu e comer bosta, mas é proibido o protesto qualquer que seja a sua forma. Seria de desejar que o Hospital Colônia morresse de velho. Nascido por lei, em 16 de agosto de 1900, morreria sem glórias. E, parafraseando Dante, poderia se escrito sobre o seu túmulo: quem aqui entrou perdeu toda a esperança” (p.200-201) 

Em seus quatorze capítulos conhecemos histórias de alguns internos que conseguiram sobreviver. São histórias que nos fazem sentir um mix de sensações: angústia, tristeza, indignação e revolta, pois o Colônia não era um hospital que existia para fins terapêuticos, mas, apenas, para atender a necessidades políticas. E, como sempre, os mais pobres e inocentes pagaram o preço.

Durante as décadas de 60 e 70 várias equipes fizeram reportagens sobre o local e, assim como causavam comoção pública de forma instantânea também eram esquecidas com rapidez. Durante todo o livro fica claro como o Brasil e suas leis desconheciam (e ainda desconhecem?) a doença mental, tendo como tradição o cárcere e não recursos ambulatoriais e tratamentos paliativos. Sobre esse aspecto, a jornalista nos conta sobre pessoas que lutaram, seja de forma singela ou no âmbito governamental, para que houvessem mudanças no tratamento de doentes psiquiátricos: foram propostos projetos de lei para uma reforma psiquiátrica, mas, como sempre, houveram protestos e retaliações contra aqueles que tentaram promover mudanças naquele sistema…

O livro narra um pedaço triste da história de nosso país. Repleto de fotografias, ele tem um ar pesado, de sofrimento. As imagens são chocantes e fazem o leitor permanecer pensativo por vários momentos. Quanto a estrutura, achei que houve uma falta de revisão no texto, pois há vários erros de pontuação. São 255 páginas ricamente ilustradas. A narrativa é feita de forma fácil e linguagem acessível. O que me incomodou foi um pouco da desorganização na hora de montar os capítulos: são citados vários nomes que são retomados em passagens distintas sem que haja uma recapitulação dos acontecimentos (o que me confundiu um pouco).

No entanto, creio que esse seja um livro fundamental para todas as pessoas. Não se pode esconder as atrocidades que aconteceram há pouco tempo, nem negar esse passado. Temos que lutar para que histórias como essa não se repitam, mas, infelizmente, vejo que estamos caminhando para o mesmo destino… Talvez no século XXI os protagonistas sejam outros (homossexuais, mulheres, negros), mas ainda são minorias que, por vezes, têm direitos negados e são subjugados como inferiores. Não podemos deixar que a tragédia se repita, assim recomendo para todos a leitura do livro – e fica a cargo de cada um dizer em qual parte teve mais vontade de chorar – e se perguntar: o que fazemos de bom para minimizar as injustiças e conviver com as diferenças?.

Tragédias como a do Colônia nos colocam frente a frente com a intolerância social que continua a produzir massacres: Carandiru, Candelária, Vigário Geral, Favela da Chatuba são apenas novos nomes para velhas formas de extermínio. Ontem foram os judeus e os loucos, hoje os indesejáveis são os pobres, os negros, os dependentes químicos, e, com eles, temos o retorno das internações compulsórias temporárias. Será  a reedição dos abusos sob forma de política de saúde pública? O país está novamente dividido. Os parentes dos pacientes também. Pouco instrumentalizadas para lidar com as mazelas impostas pelas drogas e pelo avanço do crack, as famílias continuam se sentindo abandonadas pelo Poder Público, reproduzindo, muitas vezes involuntariamente, a exclusão que as atinge. 
O fato é que a história do Colônia é a nossa história. Ela representa a vergonha da omissão coletiva que faz mais e mais vítimas no Brasil. Os campos de concentração vão além de Barbacena. Estão de volta nos hospitais públicos lotados que continuam a funcionar precariamente em muitas outras cidades brasileiras. Multiplicam-se nas prisões, nos centros de socioeducação para adolescentes em conflito com a lei, nas comunidades à mercê do tráfico. O descaso diante da realidade nos transforma em prisioneiros dela. Ao ignorá-la, nos tornamos cúmplices dos crimes que se repetem diariamente diante de nossos olhos. Enquanto o silêncio acobertar a indiferença, a sociedade continuará avançando em direção ao passado de barbárie (p.255).

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ARBEX, Daniela. Holocausto brasileiro. São Paulo: Geração editorial, 2013.

Carta ao pai – Franz Kafka

Tu tens também um jeito de sorrir particularmente bonito, bem raro de se ver, um sorriso tranquilo, satisfeito, afável, que pode fazer feliz aquele a quem se dirige. Não consigo me lembrar de que ele tivesse sido concedido expressamente a mim na época, uma vez que eu ainda te parecia inocente e era tua grande esperança. Aliás, também essas impressões amáveis não lograram outra coisa a não ser aumentar a minha consciência de culpa com o tempo e tornar o mundo ainda mais incompreensível para mim(p.42)

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Bonjour mes amis! Ça va?
Depois de muito tempo ausente, trago a primeira resenha do ano de 2015! E para começar o ano bem, nada melhor que uma leitura realista e catártica que te fará pensar, rever conceitos e se identificar com várias nuances: Carta ao pai, é um livro sensível, verdadeiro e mostra que todas as famílias, no fundo, são iguais.

A premissa do livro é simples: Kafka, insatisfeito com a reação fria do pai em relação a notícia de seu noivado, resolve escrever a ele uma longa carta (que nunca foi enviada) abrindo seu coração, seus sentimentos e angústias, expondo como a relação conturbada com o seu pai foi a chave para sua baixa auto-estima, sua personalidade assustada e suas dúvidas em relação as várias facetas da vida.

Este romance epistolar mostra com delicadeza um lado íntimo e delicado do famoso autor; entre seus desabafos podemos ver várias referências as obras A Metamorfose, O Processo, entre outras. Também revela que em muitos de seus textos, Kafka expõe de forma ficcional aquilo que se passava em sua vida real.

“(…)Não é fácil achar um meio termo diante de tudo isso. Por ora basta recordar coisas ditas anteriormente: eu perdi a autoconfiança diante de ti, que foi substituída por uma consciência de culpa ilimitada (lembrando-me dessa falta de limites, escrevi certa vez corretamente sobre alguém: “Teme que a vergonha sobreviva a ele”). Eu não podia me metamorfosear de repente, quando eu me juntava a outras pessoas; muito antes ficava com uma consciência de culpa ainda mais profunda em relação a elas, pois conforme disse, precisava reparar os danos que, com a minha cumplicidade, tu lhes havias causado (…)”. (p.60)

O livro é sensível e expõe o drama humano universal que não só Kafka, mas a maioria das famílias está imersa. Mesmo sendo um livro de fácil leitura, é impossível não se emocionar e se reconhecer nas linhas ali escritas; em alguns momentos há uma mistura de sensações e sentimentos que farão até os mais ‘duros’ amolecerem diante das palavras tristes de Kafka, eu mesma lendo – e agora escrevendo este post – me emocionei várias vezes pensando em parentes e situações que já vivi.

A edição da L&PM é simples: páginas brancas e margem simples. A linguagem é um pouco mais rebuscada, mas nada que complique a leitura (afinal, um pouco de erudição não faz mal a ninguém). As 97 páginas de conteúdo compensam a capa horrorosa.

Apesar de ser um livro com uma temática pesada e até um pouco aflitiva, é uma leitura obrigatória para todos aqueles que buscam refletir sobre a vida, as relações familiares, e tudo aquilo que nos cerca e nos influencia de certa forma. E, para aqueles que ainda duvidam que a arte imita a vida, deixo-vos com as palavras do autor, dedicadas ao seu pai:

“minha atividade de escritor tratava de ti, nela eu apenas me queixava daquilo que não podia me queixar junto ao teu peito”.

KAFKA, Franz. Carta ao pai. Porto Alegre: L&PM, 2010.

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Vozes do Carandiru – Hélvio Borelli e Karina Florido Rodrigues

A vida é frágil e precária em qualquer cadeia. Na Casa de Detenção de São Paulo, ela podia acabar a qualquer momento, sem aviso prévio. Suas regras privilegiavam a violência em prejuízo da razão. Aos transgressores não havia perdão. O irrelevante no cotidiano aqui fora poderia se tornar o principal motivo de uma briga. As versões sobre seus próprios crimes e os fatos da vida interna sempre levavam em conta a relação entre os detentos e seus códigos de convivência. Uma questão  de sobrevivência. Aquele 2 de outubro era o dia de mais um acerto de contas entre rivais, mas terminou na maior tragédia dos presídios brasileiros. (p.37)

Hoje estou aqui para abrir meu coração… Para desgosto da minha mãe e desespero do meu pai eu ADOROlivro-digital_814281-g histórias de cadeia! Sério, podem ser livros, filmes, documentários, reportagens, ficção ou realidade eu sempre acompanho as narrativas que se passam ou que tenham como pano de fundo presídios. E é óbvio que, com esse meu gosto, eu sempre leio e vejo tudo que sai sobre o Carandiru… Lembro que li o livro do Drauzio Varella, Estação Carandiru, quando tinha uns 14 ou 15 anos e adorei; o filme eu vi no cinema e assisto toda vez que passa na TV, acho que já vi, chutando baixo, umas cinco vezes… Quando desativaram o presídio, eu estava louca para ir lá visitar. Lembro de passar em frente com o metrô, pedir pra irmos lá, mas meu pai cortou meu barato… e qual não foi minha surpresa quando achei esse livro, Vozes do Carandiru, na barraca da Feira do Livro que vendia 3 livros por 10 reais! Só não dei pulinhos de alegria porque tinha muita gente olhando…

Feita esta confissão vamos ao que interessa: o livro é composto por depoimentos dos envolvidos no episódio do Carandiru, por declarações de alguns detentos e por trechos dos relatórios da CPI. Os depoimentos são de José Ismael Pedrosa (diretor da casa de detenção na época), Luiz Antonio Fleury Filho (governador do Estado de SP de 1991 a 1995), Ubiratan Guimarães (coronel da PM do Estado de SP), entre outros. Através desses relatos podemos conhecer o outro lado da história, cada um dá seu ponto de vista sobre o ocorrido, rebate acusações e desmente (ou confirma) notícias que saíram na época. 

Além dessas declarações, ainda podemos conferir o laudo da perícia e a cronologia dos fatos. É interessante ver como cada um tem seu modo de interpretar o que aconteceu, as vezes fazendo uma mea culpa, as vezes declarando-se injustiçado. Um trecho que me chamou a atenção, e que concordei até certo ponto, foi o momento em que o Coronel Ubiratan fala sobre as mortes ocorridas entre os presos e o porquê de os policiais terem saídos ilesos:

“Ninguém entra com ânimo de matar. Já respondi muitas vezes à pergunta: por que não morreu nenhum policial? Ora, não era um jogo de basquete. Quer dizer, se tivesse morrido dez policiais, estava bom?” (p.56)

Realmente, questionar o motivo de não ter havido nenhuma morte de policiais soa até um pouco sem sentido, como se fosse melhor que algumas baixas tivessem acontecido para “dar uma igualada na balança”. Acho que não. 

O livro ainda expõe mais declarações dos envolvidos. É interessante para quem, como eu, gosta desse tipo de relato. É preciso encarar esse livro sem pré-julgamentos, precisamos ponderar os dois lados e criar nossa própria opinião. 

A parte gráfica deixa um pouco a desejar: páginas brancas e uma letra muito esquisita para se colocar num livro, ela chega a dar uma embaralhada na vista de vez em quando . No mais, são 133 páginas fáceis de se ler, sem enrolação e direto ao ponto, mas senti que faltou algo… não sei, talvez os autores poderiam ter se aprofundado mais no tema.

Como já dito, o livro é interessante para conhecer novos pontos de vista. Com o livro do Drauzio Varella podemos conhecer a versão dos detentos, com esse a versão das autoridades. Eu, particularmente, tenho uma opinião neutra sobre o assunto, não julgo nem condeno ninguém, apenas quero saber o que aconteceu – porque eu tenho esse gosto esquisito mesmo. Como o próprio Drauzio disse em seu livro, os únicos que sabem o que realmente aconteceu naquele dia são os presos, a polícia e deus. Nós já conhecíamos a versão dos presos, agora temos a dos policiais.

“Cada lado tem uma versão sobre o que aconteceu dentro do presídio. A verdade talvez esteja nos arquivos ou pode ter sido enterrada para sempre com os 111 mortos.” (Valmir Salaro, p.104)

“O maior julgamento é o da consciência. Esse é o que bate. É o que vale. Nesse eu estou absolvido” (Coronel Ubiratan, p.57)

BORELLI, Hélvio; RODRIGUES, Karina Florido. Vozes do Carandiru. São Paulo: Jaboticaba, 2007.

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A louca da casa – Rosa Montero

Sempre pensei que a narrativa é a arte primordial dos seres humanos. Para ser, temos que nos narrar, e nessa conversa sobre nós mesmos há muitíssima conversa fiada: nós nos mentimos, nos imaginamos, nos enganamos. (…) De maneira que nós inventamos nossas lembranças, o que é o mesmo que dizer que inventamos a nós mesmos, porque nossa identidade reside na memória, no relato da nossa biografia.  (p.12)

ArquivoExibirUm dia frio, um bom lugar pra ler um livro… e o livro de hoje trata-se de um ensaio sobre literatura: A louca da casa, da madrilenha Rosa Monteiro. Nas páginas deste livro a autora discorre sobre a arte de escrever, de ler, da criação artística e os caminhos da lembrança.

Em cada capítulo, um assunto diferente está em voga: lembrança, imaginação, processo criativo, o tempo. Em todos ela cita autores famosos para comprovar suas teorias – neste quesito o livro é um grande achado, pois através dele conhecemos mais de determinados autores e de suas obras. Alguns dos autores citados são: Truman Capote, Carson McCullers, Mario Vargas Llosa, Gabriel Garcia Márquez, Ítalo Calvino, entre outros.

Durante a narrativa, Rosa fala sobre todas essas curiosidades do mundo da criação, também fala dos leitores e que todo bom escritor é, acima de tudo, um bom leitor. Também comenta os vários pretextos que levam alguém a escrever, pode ser a busca pela fama ou pela imortalidade (já que os autores serão para sempre lembrados em suas obras). Mas comenta que para escrever é preciso que sejamos sempre crianças; crianças de alma ou de coração, pois a fantasia é ligada a infância e os adultos vão perdendo o interesse por esse gênero conforme vão envelhecendo – “Você fica velho por fora, mas também por dentro; e deve ser por isso que os leitores, à medida que crescem, vão deixando de lado romances e se encaminham para outros gêneros mais instalados no realismo notarial: a biografia, a história, o ensaio” (p.85). Esse parágrafo me provou como tenho espírito senil: quem me conhece sabe que não gosto muito de histórias fantásticas; atualmente tenho duas biografias no topo dos meus livros desejados; e minha última leitura é, vejam só, um ensaio! A idade chega pra todo mundo…

Em particular destaco o capítulo em que ela fala de mulheres escritoras. Ele questiona o fato de acharem que quando uma mulher escreve um romance protagonizado por mulheres, todo mundo considera que ela está falando somente para mulheres; mas o mesmo não acontece com autores homens, cujos personagens masculinos dialogam com o gênero humano. Também não entendo essa divisão, só porque um personagem se chama Maria e não João seus problemas deixam de ser universais e passam a ser exclusivos apenas de uma parcela da população? “Já é hora de os leitores homens se identificarem com as protagonistas mulheres, da mesma maneira que durante séculos nós nos identificamos com os protagonistas masculinos, (…) porque essa permeabilidade, essa flexibilidade do olhar nos tornará a todos mais sábios e mais livres” (p.146)

No geral, o livro é uma poesia em prosa, a escrita é fluída, simples, uma conversa com quem está lendo. Suas passagens nos fazem pensar, pois nos identificamos com a maioria delas. As curiosidades sobre outros autores (alguns fatos são decepcionantes, outros divertidos) nos fazem querer ler mais e descobrir mais sobre as obras citadas. Um livro obrigatório para quem gosta de livros e de literatura, quer entender melhor sobre o processo de criação – de forma leve, sem ser didático. Quase um livro de cabeceira que, mas do que ser uma narrativa sobre o narrar, é uma obra sobre a vida, sobre os impulsos que nos movem e que nos inspiram.

O fascinante universo revelado neste livro indefinível é resumido com perfeição na frase de Santa Teresa de Jesus: “A imaginação é a louca da casa”. Um livro sobre a fantasia e os sonhos, sobre a loucura e a paixão, sobre os medos e as dúvidas dos escritores e leitores.

MONTERO, Rosa. A louca da casa. Rio de Janeiro: Ediouro, 2009.

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