Carta ao pai – Franz Kafka

Tu tens também um jeito de sorrir particularmente bonito, bem raro de se ver, um sorriso tranquilo, satisfeito, afável, que pode fazer feliz aquele a quem se dirige. Não consigo me lembrar de que ele tivesse sido concedido expressamente a mim na época, uma vez que eu ainda te parecia inocente e era tua grande esperança. Aliás, também essas impressões amáveis não lograram outra coisa a não ser aumentar a minha consciência de culpa com o tempo e tornar o mundo ainda mais incompreensível para mim(p.42)

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Bonjour mes amis! Ça va?
Depois de muito tempo ausente, trago a primeira resenha do ano de 2015! E para começar o ano bem, nada melhor que uma leitura realista e catártica que te fará pensar, rever conceitos e se identificar com várias nuances: Carta ao pai, é um livro sensível, verdadeiro e mostra que todas as famílias, no fundo, são iguais.

A premissa do livro é simples: Kafka, insatisfeito com a reação fria do pai em relação a notícia de seu noivado, resolve escrever a ele uma longa carta (que nunca foi enviada) abrindo seu coração, seus sentimentos e angústias, expondo como a relação conturbada com o seu pai foi a chave para sua baixa auto-estima, sua personalidade assustada e suas dúvidas em relação as várias facetas da vida.

Este romance epistolar mostra com delicadeza um lado íntimo e delicado do famoso autor; entre seus desabafos podemos ver várias referências as obras A Metamorfose, O Processo, entre outras. Também revela que em muitos de seus textos, Kafka expõe de forma ficcional aquilo que se passava em sua vida real.

“(…)Não é fácil achar um meio termo diante de tudo isso. Por ora basta recordar coisas ditas anteriormente: eu perdi a autoconfiança diante de ti, que foi substituída por uma consciência de culpa ilimitada (lembrando-me dessa falta de limites, escrevi certa vez corretamente sobre alguém: “Teme que a vergonha sobreviva a ele”). Eu não podia me metamorfosear de repente, quando eu me juntava a outras pessoas; muito antes ficava com uma consciência de culpa ainda mais profunda em relação a elas, pois conforme disse, precisava reparar os danos que, com a minha cumplicidade, tu lhes havias causado (…)”. (p.60)

O livro é sensível e expõe o drama humano universal que não só Kafka, mas a maioria das famílias está imersa. Mesmo sendo um livro de fácil leitura, é impossível não se emocionar e se reconhecer nas linhas ali escritas; em alguns momentos há uma mistura de sensações e sentimentos que farão até os mais ‘duros’ amolecerem diante das palavras tristes de Kafka, eu mesma lendo – e agora escrevendo este post – me emocionei várias vezes pensando em parentes e situações que já vivi.

A edição da L&PM é simples: páginas brancas e margem simples. A linguagem é um pouco mais rebuscada, mas nada que complique a leitura (afinal, um pouco de erudição não faz mal a ninguém). As 97 páginas de conteúdo compensam a capa horrorosa.

Apesar de ser um livro com uma temática pesada e até um pouco aflitiva, é uma leitura obrigatória para todos aqueles que buscam refletir sobre a vida, as relações familiares, e tudo aquilo que nos cerca e nos influencia de certa forma. E, para aqueles que ainda duvidam que a arte imita a vida, deixo-vos com as palavras do autor, dedicadas ao seu pai:

“minha atividade de escritor tratava de ti, nela eu apenas me queixava daquilo que não podia me queixar junto ao teu peito”.

KAFKA, Franz. Carta ao pai. Porto Alegre: L&PM, 2010.

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Tudo o que tenho levo comigo – Herta Müller

Romênia. Fim da segunda Guerra Mundial. Leo Auberg, de origem alemã, tem dezessete anos, mora com os pais e os avós, estuda, e nas horas vagas vivencia seus primeiros e fortuitos encontros com outros homens, num país em que o homossexualismo é crime. Inesperadamente, porém, Leo é obrigado a pagar por outro crime. Stálin decreta a deportação das minorias étnicas alemãs para campos de trabalhos forçados, sob a acusação de terem colaborado com Hitler.

Do dia para a noite, Leo é retirado de sua vida e encerrado num mundo de horror, desumanidade, torturas, fome e morte. Resta a ele apegar-se às palavras. Às palavras que dão sentido ao que não tem sentido algum. E que servem como âncora, profecia, salvação. Leo se apega, entre outras coisas, às palavras da avó, que, ao vê-lo fazer a mala e se despedir, diz “Eu sei que você vai voltar”.

ArquivoExibirNossa, como eu demorei para fazer essa resenha! Fiquei enrolando, mas estamos aqui agora para falar de Tudo o que tenho levo comigo da escritora romena Herta Müller. O enredo gira em torno de Leo, que foi levado para um campo de trabalho forçado e lá passa vários anos. Leo é o narrador da história, ele conta com detalhes tudo o que passou no campo, como se sentia, as tarefas que era obrigado a realizar, o que comia e como se sentia em relação as pessoas e as situações que estava vivendo.

Para não enlouquecer, Leo se apega as palavras e transforma tudo ao seu redor em uma narrativa, até mesmo um sentimento (ou estado) como a fome é transformada em personagem, o Anjo da Fome, que rodeia todos e jamais descansa. E é nessa pegada que a Herta desenvolve sua narrativa: sabemos de tudo o que se passa na cabeçade Leo, ele não poupa detalhes em nos contar sobre sua vida – sempre de uma forma mais ou menos romanceada.

Vale lembrar, como diz o epilogo, que o livro é quase baseado em fatos reais: em 2001 Herta começou a registrar conversas com pessoas que haviam sido deportadas, o que ajudou a autora a conseguir detalhes sobre o cotidiano de um campo de trabalho.

Para quem ainda não sabe, Herta Müller foi a feliz ganhadora de um Nobel de Literatura em 2009, e quando alguém ganha essa prêmio a gente é quase obrigado a pegar um livro da pessoa para saber o porquê desse merecimento. Não vou mentir, o livro não é de uma leitura fácil. O fluxo narrativo é intenso, cíclico e  as vezes repetitivo (como todos pensamentos que temos). Os diálogos não são marcados, não há travessões nem nada que identifique se o que se diz é uma pergunta, uma exclamação ou uma afirmação, toda a sutileza está contida no contexto – fato que pode confundir os leitores mais desatentos. Vou confessar que os nomes me causaram muita estranheza, cheguei até o final do livro sem saber direito quem era quem.

Mas… acho que comecei a leitura com uma expectativa muito grande, já tinha meio que imaginado toda uma história dentro da minha cabeça, e quando li fui pega de calça curta. Demorei bastante para concluir a leitura, talvez se eu já não tivesse imaginado mil coisas sobre o livro teria aproveitado melhor essa experiência.

Por fim, o projeto gráfico da Companhia das Letras está ótimo. Eu acho essa capa linda, lombada com o escrito virado para o lado certo (voltada para a direita, começando de baixo para cima) e fonte Electra que é a melhor fonte que existe! Para quem estiver curioso, vale a pena conhecer a escrita intimista de Herta Müller.

MÜLLER, Herta. Tudo o que tenho levo comigo. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.


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