Elevador 16 – Rodrigo de Oliveira

Ninguém sabe ao certo como um zumbi se comporta. Às vezes, eles são repetitivos, previsíveis, como mecanismos programados para fazer sempre a mesma coisa, no mesmo horário e do mesmo jeito.
Mas eles também podem surpreender com um comportamento completamente inesperado; e, quando isso acontece, o resultado costuma ser catastrófico (p.47).

Cheguei! Cheguei, chegando, bagunçando a zorra toda! Eclética define! Comentei a pouco sobre livros-reportagem, poesia, ficção científica e agora vamos falar sobre zumbis! Quem gosta de zumbis levanta a mão! E o melhor: literatura nacional.
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Descobri meio sem querer no skoob o livro Elevador 16, li a sinopse e fiquei interessada. Solicitei na troca e chegou bonitinho, eis que: Gente, o livro é bem fininho (60 páginas, mas culpa minha que não prestei atenção na hora de pedir), a capa é ótima, porém quando fui ler a contra-capa estava escrito “Leia antes o livro tal”. Aí fique igual o urso do pica-pau (arrastando a bunda no chão, sabe qual é?), mas fui ler mesmo assim e, olha, eu gostei!

O livro conta a história de Mariana e seus colegas que, num sábado de hora extra, no mesmo dia em que um fenômeno cósmico ocorre, acabam ficando presos no elevador no qual nenhuma comunicação funciona e ninguém aparece para ajudar, porém algo estranho acontece e algumas pessoas se transformam em seres vazios… furiosos!

Olha, eu gostei da história! Fui surpreendida positivamente! A escrita é ágil e fácil. As cenas são rápidas e acompanham o desespero das personagens. Trata-se de uma crônica/conto sobre o exato momento em que o mundo se transforma; a dúvida e a confusão que atormenta as personagens é transmitida para o leitor. Daquelas leituras que a gente faz “numa sentada”. Livro fino, mas bastante interessante – e tem todos aqueles clichês de zumbi que a gente adora! E vamos largar mão de preconceito bobo e dar uma chance para o terror nacional – a gente pode se surpreender!!!

4 latas

OLIVEIRA, Rodrigo de. Elevador 16. Barueri: Faro Editorial, 2015.

 

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A cor que caiu do céu – H. P. Lovecraft

Não era fruto do mundo dos sóis e dos sóis que fulguram nos telescópios e nas chapas fotográficas dos nossos observatórios. Não era um sopro dos céus cujos movimentos e dimensões os nossos astrônomos medem ou julgam demasiado vastos para medir. Era apenas uma cor que caiu do espaço – o pavoroso mensageiro de reinos informes que transcendem a Natureza tal como a conhecemos…  (p. 63-64)

HPLOVECRAFTÉ isso aí… dessa vez consegui ser um tiquinho mais ágil, e hoje trago um clássico da Literatura de Horror: A cor que caiu do céu é um texto de 1927 do americano Howard Phillips Lovecraft, ou apenas H. P. Lovecraft.

O texto acompanha o narrador (sem nome), funcionário que é enviado à cidade de Arkham com o objetivo de estudar o local mais propício para a construção de uma represa. Em meio a este estudo, ele descobre o “descampado maldito”, local de enorme mistério e cheio de histórias. O lugar era formado por acres de desolação cinzenta, parecendo uma grande queimada ou uma mancha feita por ácido. Cheio de curiosidade, o narrador começa a investigar e acaba chegando até Ammi Pierce, ancião que vivia na região antes da maldição se abater sobre o local. Ammi conta que, em meados de 1880, o local era uma fazenda produtiva, habitada e cheia de vida, até que um dia um meteorito caiu no local, ao lado de um poço. Algumas pessoas foram examiná-lo, mas o que acharam foi apenas uma rocha com núcleo de uma cor estranha… A partir de então o horror se espalhou pela propriedade: tudo começou a apresentar uma cor cinzenta, plantas cresceram de forma desordenada, animais apresentavam comportamentos estranho e as pessoas enlouqueciam – e acabavam morrendo ou sumindo de forma misteriosa.

Nesse conto temos o mistério em todos os pontos: o que será isso que veio do espaço? O que acontece com as pessoas e animais? Há uma explicação lógica para tudo? Lovecraft não economiza em detalhes para tentar definir o que seria essa “cor” vinda de outro mundo, aliás, desde o começo ele deixa claro que sim, é algo de outro mundo, mas mostra que o “extraterrestre” não são, necessariamente, homenzinhos verdes, mas pode se manifestar de várias formas, inclusive de cores e texturas não definidas no nosso mundo.

A narrativa é envolvente, a forma como é mostrada a morte de animais e pessoas não deve nada aos filmes de Hollywood. O horror não é explícito, mas está nas entrelinhas e em cada palavra que ele utiliza para contar esse estranho fenômeno que atingiu a fazenda e a forma como seus moradores ignoraram todas as evidências e permaneceram no local.

H. P. Lovecraft é um mestre do conto de horror e ficção científica. Em vida, seus escritos foram publicados somente em revistas e apenas após sua morte, ocasionada por um câncer em 1937, que seus textos viraram livros. A edição que possuo é a editora Hedra, no caso o título foi traduzido como A cor que caiu do espaço, mas tanto a versão …caiu do céu quanto …caiu do espaço são aceitas (embora eu prefira a primeira opção). O exemplar da Hedra é em formato pocket, folhas brancas e diagramação simples. Na edição, além do conto, há uma introdução e um apêndice que consta três textos do Lovecraft: Notas sobre uma não entidade (adoro esse título), de 1933, um relato autobiográfico do autor; A confissão de um cético, de 1922, breve ensaio do autor sobre os próprios interesses religiosos, científicos e filosóficos e Notas sobre ficção interplanetária, de 1934, artigo que defende as possibilidades artísticas da ficção científica. 

Tudo isso em 96 páginas!

No mais, o conto é bem interessante e merece ser relido – para pegar aqueles detalhes que passaram  despercebidos. Recomendado para todos que apreciam histórias de horror e ficção científica que fogem dos clichês!

LOVECRAFT, H.P. A cor que caiu do espaço. São Paulo: Hedra, 2011.

5 latas

Os Doze Mandamentos – Sidney Sheldon

“Moisés desceu da montanha com duas tábuas de pedra nas quais estavam inscritos os Dez Mandamentos da lei de deus – as regras a que os fiéis devem obedecer, conta a história sagrada. Mas Sidney Sheldon vai até a época de Moisés para revelar um segredo: na verdades, são 12 mandamentos. E, ao contrário da punição de quem não cumpre os mandamentos de deus, os personagens de Sidney Sheldon receberão grandes recompensas, tornando-se pessoas ricas, famosas e felizes.”

OS_DOZE_MANDAMENTOS_1228409918PNão, eu não escrevi errado, o nome do livro é esse mesmo Os doze mandamentos. Neste apanhado de contos, Sidney Sheldon traduz com humor várias situações em que as personagens descumpriram regras e foram agraciadas por isso. Os dois mandamentos que o autor adiciona são: Nunca dirás uma inverdade e Não farás mal ao teu semelhante (na verdade eu acho que são esses dois porque nem sei direito quais são os outros dez).

Eu não sou muito ligada nesse negócio de mandamento, lei sei-lá-do-que e semana-sei-lá-das-quantas, por isto essas pequenas histórias não me deixaram indignada ou algo parecido – como sei que muita gente ficaria se lesse – apenas levei o livro como uma ficção para entreter.

Logo no início do livro o autor faz uma breve explicação sobre o porquê desses dois mandamentos não terem chegado até a população e conta outras passagens bíblicas – tudo sempre com humor.

Os contos são curtos, escritos de forma fácil e sem firulas. Li este livro há muito, muito, muito tempo, devia ter uns 11 ou 12 anos e lembro que gostei. Sei que hoje não me agradaria tanto, pois os finais já estão bem claros: os protagonistas sempre vão se dar bem ao desrespeitar os mandamentos.

O livro é indicado para o público infanto-juvenil por se tratar de uma narrativa ágil, sem enrolação e escrita de forma simples. A edição que eu tenho é da Record: capa simples, sem orelha e apenas 142 páginas.

Nunca é demais lembrar que o livro é uma ficção, portanto deve ser tratado como tal.

SHELDON, Sidney. Os doze mandamentos. Rio de Janeiro: Record, 1997.

3 latas

Uma árvore, uma rocha, uma nuvem – Carson McCullers

**** Contém Spoiler ****

O post de hoje é bem curtinho, sobre um conto da autora Carson McCullers, Uma árvore, uma rocha, uma nuvem é o último conto que integra o livro A balada do café triste.

balada

A tradução para o Português do Brasil foi feita pelo Caio Fernando Abreu.

Bom, pra começar, o conto é curto e parece meio confuso, mas depois de lido faz a gente pensar sobre várias coisas… Trata-se da história de um homem que está sentado em um café quando um menino entra. O homem o chama para uma conversa (ou um desabafo) sobre sua vida; conta que amou uma mulher, mas que ela foi embora sem deixar rastros. A partir daí vemos esse homem mais velho falar sobre sua desilusão amorosa para um garotinho. Por que ele estaria fazendo isso?

Confesso que várias alternativas passaram pela minha cabeça, inclusive que o tal garoto poderia ser filho daquele homem, mas não. O senhor conta ao garoto as marcas que o amor (e a falta dele) deixaram em sua vida e em sua alma. Porém, o mais interessante é que, durante esse processo em busca de sua amada, o homem aprendeu algo mais importante: é preciso saber amar todas as coisas, sejam elas simples ou não.

A teoria que a autora desenvolve para explicar como devemos estar abertos para novas descobertas e emoções me fez pensar bastante: enquanto nos preocupamos com nossas perdas deixamos de reparar nas coisas simples, precisamos permitir que mesmo pessoas desconhecidas façam parte de nossa vida, ser abertos a novos horizontes e experiências… é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã… (pelo menos foi o que entendi, acho que cada um pode dar sua interpretação). Achei essa uma breve, mas linda, história sobre as desventuras do amor.

– […] Meditei sobre o amor, e esclareci tudo. Vi claramente o que está errado. Os homens apaixonam-se pela primeira vez. E por quem se apaixonam?
[…] Por uma mulher – disse o velho. – Sem ciência, sem nada que os sustente, entregam-se à experiência mais perigosa e sagrada desta terra de deus. […] – Começam pelo lado errado do amor. Começam pelo mais alto. É para admirar a tão grande miséria resultante? Sabes como os homens deveriam amar?
[…]
-Uma árvore. Uma rocha. Uma nuvem.
[…]
– […]De há seis anos para cá que tenho andado sozinho a construir a minha ciência. E agora, meu filho, sou um mestre. Sou capaz de amar seja o que for. Nem sequer já preciso pensar. Vejo uma rua cheia de gente, e uma claridade bela me penetra. Observo um pássaro no céu. Ou cruzo-me na estrada com alguém. Tudo, meu filho. Seja quem for. Desconhecidos e amados! Vês claramente o que pode significar uma ciência como a minha? 

O conto que li estava em português de Portugal, achei que isso deu um toque a mais para a densidade da narrativa. Quem se interessar e quiser ler, eu tenho o arquivo no computador e a versão em papel. Devo comentar que o título do livro, A balada do café triste, me causou estranheza no começo, agora eu acho lindo e super adequado…

McCULLERS, Carson. Uma árvore, uma rocha, uma nuvem. In:____. A balada do café triste. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010.

4 latas

CORAÇÕES SOLITÁRIOS – RUBEM FONSECA

Estou aqui nessa tarde ociosa de domingo, um pouco doente – cof, cof – e sem ter muito o que fazer. Para espantar o tédio, resgatei do fundo do baú um conto do Rubem Fonseca que li quando estava no último ano do curso de Letras e que traduz minha atual situação afetiva (apenas pelo título, não pelo enredo em si): Corações Solitários faz parte do livro Feliz Ano Novo de 1975.

O conto é escrito em primeira pessoa, o narrador é um jornalista policial que é demitido e começa a trabalhar em um jornal popular voltado às mulheres da classe C. Nesse novo emprego, o jornalista atende pelo pseudônimo de Dr. Nathanael Lessa – aliás, todos que trabalham nesse jornal são homens, mas assinam com nome feminino – e tem a obrigação de responder as cartas enviadas por leitores, que não são enviadas de verdade, a própria redação do jornal escreve as cartas e publica como se fossem de leitoras que tenham algum problema ou dúvida afetiva/financeira/pessoal.

Perguntei a ele se alguém trazia as cartas dos leitores na minha mesa. Ele me disse para falar com Jacqueline, na expedição. Jacqueline era um crioulo grande de dentes muito brancos. – […] As cartas? Não tem carta nenhuma. Você acha que mulher da Classe C escreve cartas? A Elisa inventava todas.

O dono do jornal atende pelo nome de Peçanha, mas também assina como Maria de Lourdes. Ele encarrega o novo jornalista de, além de responder as cartas dos leitores, de escrever fotonovelas. Eis que no meio desse processo o jornal passa a receber cartas verdadeiras, elas são de um homessexual chamado Pedro Alvarenga…

O que o narrador nos apresenta durante todo o enredo é um mundo de manipulação jornalística, no qual o leitor sempre é subestimado e estigmatizado. Um belo dia, um “pesquisador motivacional” aparece na redação do jornal e informa  que os verdadeiros leitores do jornal eram homens da classe B e não mulheres da classe C como todos pensavam. Peçanha reage de forma bruta, fazendo um discurso sobre a hipocrisia e a mentira que rege vários setores da sociedade (que, ironicamente, também domina as publicações do jornal que ele coordena). Esse fato pode ser percebido claramente nos programas de TV de hoje em dia que só apresentam aquilo que lhes convêm, ou nas revistas que manipulam informações e só publicam o que é interessante para elas próprias. 

O livro Feliz Ano Novo foi proibido pela censura durante o regime militar, talvez por denunciar a falsa propaganda de bem-estar social que o governo tentava manter e expor toda a hipocrisia, manipulação, desigualdade e injustiça social que vivia (e vive até hoje) o povo brasileiro. O livro só voltou a ser editado em 1989.

– É a esse tipo de gente que o Brasil está entregue, manipuladores de estatísticas, falsificadores de informações, empulhadores com seus computadores, todos criando a Grande Mentira […].

 

FONSECA, Rubem. Corações solitários. In:_____ Feliz ano novo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

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