A louca da casa – Rosa Montero

Sempre pensei que a narrativa é a arte primordial dos seres humanos. Para ser, temos que nos narrar, e nessa conversa sobre nós mesmos há muitíssima conversa fiada: nós nos mentimos, nos imaginamos, nos enganamos. (…) De maneira que nós inventamos nossas lembranças, o que é o mesmo que dizer que inventamos a nós mesmos, porque nossa identidade reside na memória, no relato da nossa biografia.  (p.12)

ArquivoExibirUm dia frio, um bom lugar pra ler um livro… e o livro de hoje trata-se de um ensaio sobre literatura: A louca da casa, da madrilenha Rosa Monteiro. Nas páginas deste livro a autora discorre sobre a arte de escrever, de ler, da criação artística e os caminhos da lembrança.

Em cada capítulo, um assunto diferente está em voga: lembrança, imaginação, processo criativo, o tempo. Em todos ela cita autores famosos para comprovar suas teorias – neste quesito o livro é um grande achado, pois através dele conhecemos mais de determinados autores e de suas obras. Alguns dos autores citados são: Truman Capote, Carson McCullers, Mario Vargas Llosa, Gabriel Garcia Márquez, Ítalo Calvino, entre outros.

Durante a narrativa, Rosa fala sobre todas essas curiosidades do mundo da criação, também fala dos leitores e que todo bom escritor é, acima de tudo, um bom leitor. Também comenta os vários pretextos que levam alguém a escrever, pode ser a busca pela fama ou pela imortalidade (já que os autores serão para sempre lembrados em suas obras). Mas comenta que para escrever é preciso que sejamos sempre crianças; crianças de alma ou de coração, pois a fantasia é ligada a infância e os adultos vão perdendo o interesse por esse gênero conforme vão envelhecendo – “Você fica velho por fora, mas também por dentro; e deve ser por isso que os leitores, à medida que crescem, vão deixando de lado romances e se encaminham para outros gêneros mais instalados no realismo notarial: a biografia, a história, o ensaio” (p.85). Esse parágrafo me provou como tenho espírito senil: quem me conhece sabe que não gosto muito de histórias fantásticas; atualmente tenho duas biografias no topo dos meus livros desejados; e minha última leitura é, vejam só, um ensaio! A idade chega pra todo mundo…

Em particular destaco o capítulo em que ela fala de mulheres escritoras. Ele questiona o fato de acharem que quando uma mulher escreve um romance protagonizado por mulheres, todo mundo considera que ela está falando somente para mulheres; mas o mesmo não acontece com autores homens, cujos personagens masculinos dialogam com o gênero humano. Também não entendo essa divisão, só porque um personagem se chama Maria e não João seus problemas deixam de ser universais e passam a ser exclusivos apenas de uma parcela da população? “Já é hora de os leitores homens se identificarem com as protagonistas mulheres, da mesma maneira que durante séculos nós nos identificamos com os protagonistas masculinos, (…) porque essa permeabilidade, essa flexibilidade do olhar nos tornará a todos mais sábios e mais livres” (p.146)

No geral, o livro é uma poesia em prosa, a escrita é fluída, simples, uma conversa com quem está lendo. Suas passagens nos fazem pensar, pois nos identificamos com a maioria delas. As curiosidades sobre outros autores (alguns fatos são decepcionantes, outros divertidos) nos fazem querer ler mais e descobrir mais sobre as obras citadas. Um livro obrigatório para quem gosta de livros e de literatura, quer entender melhor sobre o processo de criação – de forma leve, sem ser didático. Quase um livro de cabeceira que, mas do que ser uma narrativa sobre o narrar, é uma obra sobre a vida, sobre os impulsos que nos movem e que nos inspiram.

O fascinante universo revelado neste livro indefinível é resumido com perfeição na frase de Santa Teresa de Jesus: “A imaginação é a louca da casa”. Um livro sobre a fantasia e os sonhos, sobre a loucura e a paixão, sobre os medos e as dúvidas dos escritores e leitores.

MONTERO, Rosa. A louca da casa. Rio de Janeiro: Ediouro, 2009.

5 latas

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BONSAI – ALEJANDRO ZAMBRA

Não é porque se sabe de uma coisa que se pode impedi-la; mas temos pelo menos as coisas que averiguamos, se não entre as mãos, ao menos no pensamento, e ali estão à nossa disposição, o que nos inspira a ilusão de exercer sobre elas uma espécie de domínio (Proust, No caminho de Swann, citado no livro, p.36)

Olá galeire! Nesse feriadão de carnaval venho com um livro curto em extensão, mas grande em conteúdo: Bonsai, do chileno Alejandro Zambra.

Esta é a obra de estréia de Zambra e conta a história de amor entre Júlio e Emília. Eles se aproximaram em um grupo de estudos sobre síntexe espanhola e, a partir de então, tiveram um romance permeado de outros romances. Explico: ao mesmo tempo em que os amantes de encontravam eles liam várias obras e discutiam essas estórias. Passaram por Tchekhov, Zolla, Borges, Bioy Casares, Proust – e essas narrativas influenciaram a relação dos dois, como na parte em que discutem sobre Emma Bovary e concluem que ela “treparia” (sim, o autor usa essa palavra) muito melhor nos dias de hoje.

Porém, como nem tudo são flores, um belo dia se deparam com o conto Tantália de Macedonio Fernández que os deixou pensativos, além de ser a inspiração para o título do livro.

Tantalia é a história de um casal que decide comprar uma plantinha para conservá-la como símbolo do amor que os une. Percebem, tardiamente, que se a plantinha morrer, morrerá com ela o amor que os une. E como o amor que os une é imenso e por nenhum motivo estão dispostos a sacrificá-lo, decidem fazer a plantinha se perder entre uma multidão de plantas idênticas. Depois ficam inconsoláveis, infelizes por saber que nunca mais poderão encontrá-la. (p.29)

Esse conto deixou os dois tristes; como alguém pode ter e depois perder uma plantinha do amor? O fato é que, depois de um tempo, Júlio é procurado pra transcrever o romance de um escritor famoso e começa a (re)escrever essa narrativa da plantinha por conta própria chamando-a de Bonsai. Ou seja, o autor faz uma história dentro da história de alguém que está contando essa história. Sacou?

A escrita de Alejandro Zambra é direta, sem enrolação. Seu narrador é seco, não faz firulas e não se perde com detalhes insignificantes. É uma narrativa enxuta, assim como na jardinagem, o autor poda as partes desnecessárias e nos mostra somente o que interessa.

Bom, o livro é curtinho, apenas 91 páginas, e seria menor não fosse esse projeto gráfico da Cosac Naify: margem gigante e texto junto no meio. A forma está como em um editor de texto: nome ao pé da página escrito “título_nome do capítulo_página”; nas folhas há uma marca de onde o texto deve (ou deveria) ser cortado e capa com picote mostrando o verdadeiro formato do livro. Esse quesito me deixou meio confusa… não sei dizer se a história é um conto, uma novela ou um romance… pela extensão seria um conto ou novela; pelos personagens seria um romance, talvez… vou pensar e já já respondo.

Um ponto interessante desse livro, além de seu formato reduzido, está na forma como ele leva a história, desde o primeiro paragrafo já nos é dito o que acontece com as personagens no fim do livro, mas isso não tira a graça do texto; é aí que se enquadra a citação de Proust, não é só porque já sabemos o final de algo que podemos mudá-lo, aliás essa quebra de expectativa só transfere a curiosidade do leitor para outro ponto da narrativa: invés de nos perguntar o que acontecerá com as personagens, passamos a questionar em como? e por quê?

Ambos sabiam que, como se diz, o final estava escrito, o final deles, dos jovens tristes que leem romances juntos, que acordam com livros perdidos entre cobertas, que fumam muita maconha e ouvem canções que não são as mesmas que preferem individualmente (…). a fantasia dos dois era ao menos terminar Proust, esticar a corda por sete volumes, e que a última palavra (a palavra “tempo”) fosse também a última prevista entre eles. Ficaram lendo juntos, lamentavelmente, pouco mais de um mês, cerca de dez páginas por dia. Pararam na página 373, e o livro, desde então, ficou aberto. (p.38)

ZAMBRA, Alejandro. Bonsai. São Paulo: Cosac Naify, 2012.

4 latas

ELOGIO DA MADRASTA – MÁRIO VARGAS LLOSA

Sempre é assim: embora a fantasia e a verdade tenham um mesmo coração, seus rostos são como o dia e a noite, como o fogo e a água. (p.25)

Olá minha gente, como estamos? E as férias, têm sido proveitosas? Bom, aqui vai uma diquinha supimpada para quem está à toa nesses dias de julho: Elogio da madrasta do nosso amigo de fé, irmão e camarada Mario Vargas Llosa.

O livro trata-se de uma novela com apenas 160 páginas, bem curtinho tanto que terminei de lê-lo em dois tempos enquanto estava na sala de espera do hospital (aliás, esses planos de saúde são uma vergonha! Duas horas e meia de espera para apenas cinco minutos de consulta!), mas estou bem, vou sobreviver!

O enredo gira em torno de três personagens: dom Rigoberto, viúvo que casa-se com dona Lucrécia (a madrasta do título) e o pequeno Alfonso – Fonchito para os íntimos, um garoto que tem por volta de dez anos.

No começo, a dúvida se o menino iria aceitar a madrasta pareceu um grande empecilho para o relacionamento de dom Rigoberto e dona Lucrécia, mas o menino simplesmente mostrou-se apaixonado pela sua  “nova mãe”. Apaixonado até demais… E esse amor, ora inocente, ora indiscreto, vai trilhando caminhos que marcarão o destino de cada personagem.

O texto é intercalado com imagens clássicas, no qual dom Rigoberto cria suas estórias que apimentam e dão um toque especial ao seu relacionamento com sua nova esposa. Assim, o autor vai narrando a trama propriamente dita e os devaneios de suas personagens.

Neste livro, Vargas Llosa faz uma viagem bem-humorada pela literatura erótica (escrito ainda na década de 80, o romance pode ser classificado como novela erótica – ainda que light) onde conta com maestria o envolvimento dessas três personagens.

A forma de escrever do autor é acessível a todo tipo de público, apenas nos capítulos em que narra os causos imaginários das personagens há uma linguagem um pouco mais rebuscada, mas nada muito difícil de se ler e entender. O projeto gráfico da Alfaguara é aquele típico: capa padronizada e interior ok.

Qualquer dia separem um tempinho e apreciem essa narrativa surpreendente!

 

VARGAS LLOSA, Mario. Elogio da madrasta. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2009.

5 latas

O PRISIONEIRO DO CÉU – CARLOS RUIZ ZAFÓN

Sempre soube que um dia voltaria a estas ruas para contar a história do homem que perdeu a alma e o nome entre as sombras de uma Barcelona submersa no sono medroso de um tempo de cinzas e silêncio. São páginas escritas com fogo sob a proteção da cidade dos malditos, palavras gravadas na memória daquele que retornou de entre os mortos com uma promessa cravada no coração e pagando o preço de uma maldição. A cortina se abre, o público silencia e, antes de a sombra que espreita seu destino descer sobre o palco, um elenco de espíritos brancos entra em cena com o texto de uma comédia nos lábios e aquela bendita inocência de quem, pensando que o terceiro ato é o último, começa a narrar um conto de natal sem saber que, ao virar a última página, a tinta de sua alma o arrastará, lenta e inexoravelmente, ao coração das trevas.

 

Julián Carax, O prisioneiro do céu.

(Editions de la Lumière, 1992)

Demorei, mas voltei! E trouxe comigo o mais novo livro do meu queridinho Carlos Ruiz Zafón: O prisioneiro do céuComo disse, o romance está saindo do forno e nele temos nossas personagens queridas de volta, revivendo histórias e criando muitas outras.

O encontro de personagens dos livros anteriores traz uma reviravolta na história: tudo aquilo que imaginava-mos como certo torna-se questionável e nos faz duvidar de alguns fatos ocorridos. O enredo prossegue contando o passado de Fírmin e mistura-se com o presente vivido por Daniel e Bea, o dia a dia na livraria além de adicionar novas informações que deixam no ar um Q de quero mais!

O livro continua a trama dos dois romances anteriores (A sombra do vento e O jogo do anjo), embora na orelha estaja escrito que as histórias podem ser lidas em qualquer ordem, acho difícil conseguir compreender algumas passagens sem ter tido o conhecimento prévio das narrativas passadas.

Durante toda a história são lançadas novas “iscas” que não têm um arremate final: elas deixam pontos em aberto para uma continuação, que com certeza existirá.  

O livro possui 246 páginas e é dividido em seis partes (incluindo o epilogo), no qual cada parte tem vários capítulos. Estes são curtos, o que torna a leitura rápida. A linguagem é simples, porém desta vez não temos aquela cascata de frases filosóficas – que eram comuns nos outros livros. 

O que mais posso dizer? Adorei o livro, ele te prende da primeira a última página. Estou aguardando ansiosa a continuação!

 

RUIZ ZAFÓN, Carlos. O prisioneiro do céu. Rio de Janeiro: Suma de letras, 2012.

5 latas

Travessuras da menina má – Mario Vargas Llosa

Demorei, mas cheguei! Sei que estou super atrasada, mas estou vivendo intensamente cada minuto do meu inferno astral: tive prova três finais de semana seguidos e  tive uma tendinite ”do mal”. Mas entre mortos e feridos salvaram-se todos! Voltemos aos trabalhos…

O livro do dia é Travessuras da menina má do peruano Mario Vargas Llosa. A história trata dos encontros e desencontros amorosos entre Ricardo – Ricardito ou “coisinha à toa” ou “bom menino” para os íntimos – e Lily, a famosa niña mala, que sempre trocava de nome conforme a cidade e o país em que estava. Os dois se conheceram ainda jovens em uma cidade no interior do Peru – desde essa época Ricardo começou a nutrir uma paixão arrasadora pela menina –  e voltaram a se encontrar pelo mundo afora: Paris, Londres, Tóquio, Madri… O sonho de Ricardo era construir sua vida na França, ele assim o fez trabalhando como tradutor durante um longo período, porém seu reencontro com a ambiciosa, aventureira e ”sem raízes” Lily o tirou de sua vida pacata – e o fez viver intensamente entre essa paixão arrebatadora e a cruel realidade.

Durante toda a narrativa, Vargas Llosa faz um jogo de dualidades: amor x ódio; dor x prazer; sossego x aventura; cômico x trágico…  A escrita do autor é fluente, ágil e de fácil entendimento (mas sem perder o encanto). Contado em primeira pessoa pelo próprio Ricardo, dividimos com ele todos esses sentimentos dúbios. De forma magistral, Mários Vargas Llosa nos faz sorrir,  sofrer, amar  e odiar a Menina Má e todos os percalços que os dois amantes vivem. 

O segredo da felicidade, ou, pelo menos, da tranquilidade, é saber separar sexo e amor. E, se possível, eliminar da vida o amor romântico, que é o que faz sofrer. Assim se vive mais sossegado e se aproveita melhor a vida.

(p. 118)

Para quem ainda não sabe Mario Vargas Llosa foi laureado com o Nobel de Literatura em 2010. Com todas as honras e méritos, pois, na minha humilde opinião, o peruano é o melhor escritor de língua espanhola da atualidade! 

 

VARGAS LLOSA, Mario. Travessuras da menina má. Rio de Janeiro: Objetiva, 2006.

5 latas

Memória de minhas putas tristes – Gabriel García Márquez

[…] Desde então comecei a medir a vida não pelos anos, mas pelas décadas. A dos cinquenta havia sido decisiva porque tomei consciência de que quase todo mundo era mais moço do que eu. A dos sessenta foi a mais intensa pela suspeita de que já não me sobrava tempo para me enganar. A dos setenta foi temível por uma certa possibilidade de que fosse a última. Ainda assim, quando despertei vivo na primeira manhã de meus noventa anos na cama feliz de Delgadina, me atravessou a idéia complacente de que a vida não fosse algo que transcorre como o rio revolto de Heráclito, mas uma ocasião única de dar a volta na grelha e continuar assando-se do outro lado por noventa anos a mais. (p. 119-120)

Olá minha gente, vamos começar esta semana com o nosso amigo Nobel de Literatura Gabriel García Márquez. Certo dia peguei meio por acaso o livro Memória de minhas  putas tristes (assim mesmo, sem S), um livro fininho (apenas 127 páginas) e que carrega uma grande responsabilidade: honrar o título de Clássico da Literatura que García Márquez carrega.

O enredo é o seguinte: Ao completar noventa anos de idade, um senhor (não nomeado), cronista de um jornal,  decide se dar de presente uma noite de amor com uma virgem, para isso recorre aos serviços de Rosa Cabarcas, uma cafetina confiável e famosa da região. Ao chegar ao quarto, o homem se depara com uma menina que tem por volta de quatorze anos, ela está em um sono tão profundo que ele fica com receio (e um pouco de dó) de acordá-la. Essa situação volta a se repetir nos encontros posteriores, porém o homem se encanta com a menina ao ponto de querê-la para sempre (mesmo dormindo). No meio do caminho, o ancião vai recordando passagens de sua vida e as mulheres que passaram pelo seu caminho. Porém, por nenhuma o velho se apaixonou tão profundamente como por Delgadina (o autor não diz o nome verdadeiro da menina, Delgadina foi usurpado de um poema e apenas o senhor a chama desse jeito).

No decorrer da narração, o homem faz questionamentos sobre a vida, sobre a velhice e sobre a menina: o que ela faz quando está em casa e como seria acordada, pois ele só a conhecia dormindo. O senhor ainda se indaga se a reconheceria acordada.Essa resposta é obtida em uma noite quando a menina sussurra algo o que faz o homem concluir: ele apenas a queria adormecida.

[…] e uma noite aconteceu como uma luz no céu: ela sorriu pela primeira vez. Mais tarde, sem nenhum motivo, se revolveu na cama, me deu as costas, e disse com desgosto: Foi Isabel quem fez os caracóis chorar. Exaltado pela ilusão de um diálogo, perguntei no mesmo tom: E de quem eram? Não respondeu. Sua voz tinha um rastro plebeu, como se não fosse dela e sim de alguém alheio que levasse dentro. Toda sombra de dúvida desapareceu então da minha alma: eu a preferia adormecida. (p.87)

Bom, qualquer semelhança com A Bela Adormecida de Charles Perrault e A casa das Belas Adormecidas de Yasunari Kawabata não é mera coincidência. Na orelha do livro está explicitado que García Márquez bebeu de ambas as fontes para construir seu enredo. Sei que muita gente pode achar essas histórias de princesas adormecidas que esperam o príncipe encantado super românticas, mas eu acho meio mórbido. Sério mesmo, como alguém pode se apaixonar por uma pessoa que só dorme? Sei lá, mas pra mim isso tem um quê de necrofilia…

Toda história é contada por este senhor de noventa anos. É uma narração direta, sem pausas ou desvios, como se realmente ele estivesse conversando com alguém. Uma característica que me incomodou muito foram os diálogos (quase inexistentes), cheios de eu disse/ela disse/ eu respondi/ela retrucou, parecia uma conversa ao telefone. Cansativo e confuso (e às vezes parece não chegar a lugar algum).  Gabriel García Márquez ganhou o prêmio Nobel, mas, com certeza, não foi por causa deste livro.

Devo destacar a capa desse livro: um velhinho que caminha em direção a um fundo branco. Quase uma mensagem subliminar que diz “essa é a minha história, agora que vocês já a conhecem posso caminhar em direção a luz”. Além disso, essa edição da Record é composta por folhas grossas, o texto está quase centralizado e com margens largas – o que faz parecer que tem mais livro onde não tem. Me decepcionei um pouco, por ser um autor premiado, acho que esperava um algo mais. 

 

GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. Memória de minhas putas tristes. Rio de Janeiro: Record, 2005.

2 latas

MARINA – CARLOS RUIZ ZAFÓN

Cedo ou tarde, o oceano do tempo nos devolve as lembranças que enterramos nele. 

Eu disse que voltava ainda em 2011! Este é um post em caráter extraordinário, afinal é melhor virar o ano com dicas boas  – e que 2012 não seja o fim do mundo!

Bom, o livro em questão é Marina do nosso já conhecido Carlos Ruiz Zafón. A obra foi publicado originalmente em 1999 (o ano em que o Palmeiras foi campeão da Libertadores, manja?), o quarto romance do autor, e era inicialmente classificada como infanto-juvenil. Esse fato está esclarecido logo nas primeiras páginas numa nota do próprio Zafón em que ele diz que este é seu romance favorito entre todos os que ele já escreveu. 

O enredo é ambientado na cidade de Barcelona e traz a história de Óscar Drai, um jovem de 15 anos que vivia em um internato, por uma eventualidade conhece Marina, personagem-título do livro. Marina vivia somente com o pai, um artista aposentado – foi criada e educada por este – e com seu gato Kafka. Eles eram pobres, moravam em um casarão antigo já deteriorado, sem energia e outros ”luxos” da vida moderna.

De nada adianta toda a geografia, trigonometria e aritmética do mundo se você não souber pensar por si mesmo. […] E nenhum colégio ensina isso. Não está no programa. (p.49)

Que tipo de ciência é essa, capaz de colocar um homem na lua, mas incapaz de colocar um pedaço de pão na mesa de cada ser humano? (p. 34)

Durante o transcorrer de toda a trama, os dois se tornam muito próximos e acabam se envolvendo num caso misterioso que há anos estava mal esclarecido:  tudo começa com a aparição da misteriosa Dama de Negro no cemitério de Sarriá (um canto escondido de Barcelona) e depois  na estação de trem, e essa estranha mulher os leva (na verdade a curiosidade os leva) a desenterrar o estranho caso do cientista Mijail Kolvenik. É essa parte que nos leva a crer que a classificação infanto-juvenil não cabe a este livro; algumas passagens são dignas de filmes de terror – e daqueles bem nojentos.

Além das aventuras, Óscar e Marina vivem uma história de amor nas entrelinhas. Óscar não esconde sua ”admiração” pela menina, porém Marina trata esse sentimento de forma velada.

Só quem ler o livro vai entender

Na verdade o livro conta duas histórias distintas: a primeira é a relação de amizade/afeto/admiração existente entre Óscar e Marina; a segunda é toda a aventura surreal que os protagonistas vivem tentando descobrir a verdade sobre o caso de Kolvenik. A impressão que dá é que o autor começou desenhando uma ingênua história de amor entre dois adolescentes e do nada encaixou uma trama a parte no meio. Ficou estranho. Além disso, na minha humilde opinião, Carlos Ruiz Zafón peca na forma natural como suas personagens agem ao se depararem com eventos totalmente absurdos, isso dá um caráter totalmente inverossímil à sua narração. Para mim é um ponto negativo, mas nada que tire o brilho que a história traz. 

Assim como em A Sombra do Vento (já falei sobre ele aqui),  Marina também é repleto de frases de efeito e falas filosóficas, o que se tornou uma das maiores características da escrita de Carlos Ruiz Zafón.

O tempo faz com o corpo o que a estupidez faz com a alma […]: Apodrece. (p.83)

A natureza é como uma criança que brinca com as nossas vidas. Quando cansa dos brinquedos quebrados, ela os abandona e substitui por novos. (p.85)

Na orelha do livro, temos uma declaração  muito bonita do Zafón. Transcrevo aqui integralmente:

“De todos os livros que publiquei desde que comecei neste meu trabalho de escritor, ali por volta de 1992, Marina é um dos meus favoritos. […] É possivelmente o mais indefinível e difícil de categorizar de todos os romances que escrevi, e talvez o mais pessoal de todos eles.

Legal, né?!

Para terminar, aqui um pequeno vídeo do livro (muito chique isso, hoje em dia até livros possuem trailers):

RUIZ ZAFÓN, Carlos. Marina. Rio de Janeiro: Suma de letras, 2011.

3 latas