Elevador 16 – Rodrigo de Oliveira

Ninguém sabe ao certo como um zumbi se comporta. Às vezes, eles são repetitivos, previsíveis, como mecanismos programados para fazer sempre a mesma coisa, no mesmo horário e do mesmo jeito.
Mas eles também podem surpreender com um comportamento completamente inesperado; e, quando isso acontece, o resultado costuma ser catastrófico (p.47).

Cheguei! Cheguei, chegando, bagunçando a zorra toda! Eclética define! Comentei a pouco sobre livros-reportagem, poesia, ficção científica e agora vamos falar sobre zumbis! Quem gosta de zumbis levanta a mão! E o melhor: literatura nacional.
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Descobri meio sem querer no skoob o livro Elevador 16, li a sinopse e fiquei interessada. Solicitei na troca e chegou bonitinho, eis que: Gente, o livro é bem fininho (60 páginas, mas culpa minha que não prestei atenção na hora de pedir), a capa é ótima, porém quando fui ler a contra-capa estava escrito “Leia antes o livro tal”. Aí fique igual o urso do pica-pau (arrastando a bunda no chão, sabe qual é?), mas fui ler mesmo assim e, olha, eu gostei!

O livro conta a história de Mariana e seus colegas que, num sábado de hora extra, no mesmo dia em que um fenômeno cósmico ocorre, acabam ficando presos no elevador no qual nenhuma comunicação funciona e ninguém aparece para ajudar, porém algo estranho acontece e algumas pessoas se transformam em seres vazios… furiosos!

Olha, eu gostei da história! Fui surpreendida positivamente! A escrita é ágil e fácil. As cenas são rápidas e acompanham o desespero das personagens. Trata-se de uma crônica/conto sobre o exato momento em que o mundo se transforma; a dúvida e a confusão que atormenta as personagens é transmitida para o leitor. Daquelas leituras que a gente faz “numa sentada”. Livro fino, mas bastante interessante – e tem todos aqueles clichês de zumbi que a gente adora! E vamos largar mão de preconceito bobo e dar uma chance para o terror nacional – a gente pode se surpreender!!!

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OLIVEIRA, Rodrigo de. Elevador 16. Barueri: Faro Editorial, 2015.

 

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Prisioneiras – Drauzio Varella

Violência de gênero é flagelo que de uma forma ou de outra atinge todas as mulheres brasileiras, mas o ônus se concentra de maneira desproporcional entre as mais pobres e as negras, como constam as estatísticas. É nas áreas periféricas das cidades que o despotismo masculino exibe sua face mais brutas (p.268).

Benfazejos camaradas! Eu voltei para comentar o mais novo livro do médico, escritor e popstar Drauzio Varella: Prisioneiras fecha o ciclo e encerra a trilogia do cárcere que tanto fascinou os leitores.

8625784e-f014-4048-8c77-b73a1cf09f57O que podemos dizer sobre este livro: assim como nos antecessores Carandiru e Carcereiros, o livro conta pequenas histórias de vida dessas mulheres que estão presas, por motivos diversos, e nos mostra como a vida foi dura com a maioria delas.

O que me chamou a atenção, e que quase todas têm em comum, é o histórico de violência e descaso que muitas delas sofreram antes de entrarem para o mundo do crime. São histórias de violência doméstica, abusos e falta de perspectiva que se assemelham em quase todos os relatos. Em alguns casos a ganância e a sensação de poder também dão o toque para que a vida delas fosse para um caminho sem volta. Em alguns casos é possível se apiedar e sentir compaixão por aquelas pessoas que, as vezes ingenuamente, foram parar na ilegalidade.

Através da escrita fluida e que prende o leitor, Drauzio Varella consegue nos colocar dentro dos acontecimentos e, muitas vezes, nos faz refletir: o que eu faria nesta situação? É sempre um exercício de auto-reflexão e empatia. Lógico, nada justifica os crimes cometidos, mas é sempre bom sabermos olhar por outra perspectiva.

Um detalhe que me causou um certo incomodo foi que, apesar de o livro se chamar “Prisioneiras” e todo o enredo ser dedicado para contar as histórias delas, durante muitos capítulos elas foram esquecidas e a história do Carandiru e dos homens que lá estavam tomou o lugar de protagonista, deixando a verdadeira intenção do livro em segundo plano. Ele repete esta quebra em vários pontos, o que me deixou meio agoniada, pensando “ok, ok, disso eu já sei, vamos voltar para o foco”.

No mais, os pontos que ele mais ressalta, e que podem ser transpostos para a nossa realidade, são sobre a solidão e o abandono. Uma vez que na imensa maioria das vezes são as mulheres que assumem o papel de cuidadoras, quando elas mais necessitam são esquecidas por todos. Talvez não tão diferente do que acontece “no mundo de cá”.

Um ponto interessante é que o autor se utiliza das narrativas para discutir muitos outros temas: drogas, aborto, solidão, violência, sexualidade, leis, etc. Um fato interessante, e que deve fazer muitas pessoas refletirem a respeito é a surpreendente conclusão que ele chega ao vivenciar aquele ambiente: Toda mulher é prisioneira. Em maior ou menor grau, todas somos tolidas de alguma liberdade.

É pouco provável que a restrição do espaço físico, o confinamento com pessoas do mesmo sexo, a falta de carinho e da presença masculina e o abandono afetivo imponham de forma autocrática a homossexualidade no repertório sexual das mulheres presas.
É mais razoável pensar que esse conjunto de fatores apenas cria as condições socioambientais para que a mulher ouse realizar suas fantasias e desejos mais íntimos, reprimidos na vida em sociedade.
No universo prisional [elas] podem viver sua sexualidade da forma que lhes aprouver, sem enfrentar repressão social. Paradoxalmente, talvez a cadeia seja o único ambiente em que a mulher conta com essa liberdade (p.166).

Ademais, o livro é muito bem escrito e tem aquela forma envolvente que já conhecemos. Drauzio Varella não tenta ser imparcial, ele dá suas opiniões, aponta falhas e se posiciona diante das situações descritas. São 276 páginas que fluem de maneira leve, mas com conteúdo, para que possamos matar a curiosidade acerca do assunto e refletirmos sobre a realidade de nosso país.

De todas os tormentos do cárcere, o abandono é o que mais aflige as detentas. Cumprem suas penas esquecidas pelos familiares, amigos, maridos, namorados e até pelos filhos. A sociedade é capaz de encarar com alguma complacência a prisão de um parente homem, mas a da mulher envergonha a família inteira (p.38).

4 latas

 

VARELLA, Drauzio. Prisioneiras. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

Rota 66 – Caco Barcellos

Os homens começam a acreditar na violência como instrumento válido de ação, colocando-se em cheque toda a nossa concepção de vida cristã. A violência passaria a ser um instrumento válido na luta contra o crime (…) Neste ponto chega-se a um verdadeiro divisor de águas, sempre com aquela legião dos neutros. Ou se apóia, ou se condena ou se omite. Não há outra posição. (p.90)

Olha quem voltou!!! Eu sumo, mas eu volto! Ando meio devagar mesmo… mas dessa vez trago um pouco da verdade nua e crua: Rota 66 do jornalista Caco Barcellos é uma narrativa pesada, triste e revoltante sobre o que acontece em nosso país.

Para começar, trata-se de um livro reportagem, cujo objetivo é fazer um relato sobre acontecimentos recorrentes na cidade de São Paulo desde a década de 70. Neste caso, trata-se da história (infelizmente real) de policiais que têm uma característica em comum: são considerados matadores.

O livro narra várias histórias de pessoas que foram mortas pela crueldade. O que todas têm em comum é que eram, em sua maioria, homens jovens, pobres e negros. Muitos inocentes. Foram acusados, julgados e condenados à morte por aqueles que se julgavam superiores.

Os policiais: em sua maioria saíram impunes.

(…)
– Mas só criminoso pobre. Rico jamais!
Nossa dúvida é justificável. (…) eles não têm o perfil do inimigo que a Rota costuma perseguir. Muito simples: eles são ricos. Os PMs do patrulhamento das cidades brasileiras são orientados pelo comando de militares do Exército Nacional, que tem uma visão deformada do conceito de segurança pública. Obrigam seus comandados a praticar, com prioridade, a defesa da propriedade dos mais ricos. O resultado é o que se vê diariamente nas ruas. Uma perseguição violenta e sistemática exclusivamente contra o que eles chamam de marginal: o cidadão proveniente da maioria pobre que causa prejuízo à minoria rica da sociedade (p.25-26).

O livro discorre em suas 274 páginas histórias das mais variadas, mas sempre com o mesmo triste desfecho. A narrativa chega a causar angústia no leitor com a quantidade de injustiças que são relatadas.  Apesar de a narrativa ser ágil, há alguns pontos de barriga: muitos dados estatísticos que, de certa forma, complementam e justificam o enredo, mas dão um pouco de cansaço. 

No mais, recomendo a leitura para todos que se interessam por histórias policiais, mas sem glamourização, sem panos quentes. Pois a realidade é sempre mais dura do que nos contam os jornais. 

BARCELLOS, Caco. Rota 66. São Paulo: Globo, 1994.

 

Max e os felinos – Moacyr Scliar

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Tcharam! Olha quem voltou antes do fim do ano!! E para fechar 2015 com chave de ouro trouxe um livro que é só babado, confusão e gritaria: Max e os felinos, do saudoso Moacyr Scliar!

Max e os felinos foi escrito em 1981 e conta a história do menino Max, alemão (não judeu) que se vê em uma situação de perigo quando a ameaça nazista se instaura em sua cidade. Ele, então, foge para o Brasil em um navio que, além da tripulação, também levava vários animais. No meio do caminho o navio naufraga (de propósito) e Max se vê isolado em um escaler com um jaguar. Ao chegar o Brasil, o menino consegue reconstruir sua vida, passando por momentos de emoção, tensão e todos os tipos de sentimento que alguém deve lidar em sua existência.

Bom, como todos devem saber, o livro está envolvido em uma grande polêmica com o Life of Pi, do canadense Yann Martel. A polêmica gira em torno de um possível plágio feito do livro brasileiro – fato que rodou por vários jornais brasileiros e estrangeiros e rendeu até uma declaração do próprio Moacyr sobre o ocorrido. Como de costume, muita gente estava disposta a ver o circo pegar fogo, mas após Scliar dar o assunto por encerrado, os jornalistas e babadeiros de plantão tiveram que baixar a bola…

Feitas essas considerações sobre o caso, vamos ao que interessa: o livro trata-se de uma noveleta de 80 páginas e narra a jornada no nosso herói através dos percalços que a vida lhe impôs. A narrativa é fluida e descomplicada; o autor não enrola e nos conta tudo de forma rápida, mas recheada de simbolismos. O final nos deixa uma dúvida e nos faz pensar: teria Max criado figuras em sua cabeça para tentar digerir e processar todos os sentimentos e acontecimentos que se passaram em sua vida? Quem sabe…

Como curiosidade: a parte que fala sobre Max e o jaguar no escaler (ponto considerado “inspiração” para As aventuras de Pi) é breve e não passa de poucas páginas. 

O livro é curto, mas muito pode se tirar dele, basta ter visão e entendimento para tal. Minha edição da L&PM possui dois textos introdutórios: um do próprio Moacyr Scliar falando sobre as controvérsias de Max e os felinos e Life of Pi, e outro de Zilá Bernd colocando em paralelo as duas narrativas.

Por fim, deixo-vos com algumas palavras de Moacyr Scliar, que nos faz refletir sobre quais os reais objetivos da Literatura – e que picuinhas e assuntos menores devem ser deixados de lado para que possamos ler as entrelinhas e tirar de cada texto o máximo que ele pode nos oferecer.

A literatura não é fonte de contentamento. Nem é coisa que possa ser feita pelo membro de um bloco. Ela é, essencialmente, um vício solitário. Isto não quer dizer que tenha de ser praticada numa isolada torre de marfim. A grande literatura inevitavelmente reflete o contexto social da época. Mas o faz como um sismógrafo, cuja agulha desloca-se como resposta a movimentos profundos. Espero que isso tenha acontecido, ao menos em parte, ao menos em pequena parte, com uma história chamada “Max e os felinos”. Todo o resto, francamente, não tem muita importância. (p.22)

 

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SCLIAR, Moacyr. Max e os felinos. Porto Alegre: L&PM, 2014.

Holocausto Brasileiro – Daniela Arbex

[…] a estimativa é que 70% dos atendidos não sofressem de doença mental. Apenas eram diferentes ou ameaçavam a ordem pública. Por isso, o Colônia tornou-se destino de desafetos, homossexuais, militantes políticos, mães solteiras, alcoolistas, mendigos, negros, pobres, pessoas sem documentos e todos os tipos de indesejados, inclusive os chamados insanos. A teoria eugenista, que sustentava a idéia de limpeza social, fortalecia o hospital e justificava seus abusos. Livrar a sociedade da escória, desfazendo-se dela, de preferência em local que a vista não pudesse alcançar (p.26).

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É minha gente, cá estou eu de volta trazendo um livro denso e 
incômodo: Holocausto brasileiro, da jornalista Daniela Arbex, ganhou o prêmio de melhor livro-reportagem de 2013 ao mostrar de forma assustadora como o ser humano pode ser cruel com o seu semelhante, deixando milhares de pessoas a mercê de maus tratos, fome, tortura e todo tipo de flagelo que nem a alma mais dura seria capaz de suportar…

Como já dito, o livro trata-se de uma reportagem feita sobre o hospital psiquiátrico Colônia, na cidade mineira de Barbacena,  local onde mais de 60.000 vidas se perderam nos anos em que esteve em funcionamento (maior parte do século XX). Inicialmente com o intuito de ser um local de acolhimento para pessoas com alguma doença mental, o local tornou-se um “deposito” de todo o tipo de gente que não era bem vista, ou que não era aceita como “normal”. Mais que isso, pessoas que simplesmente estavam “atrapalhando” ou que se tornavam um incômodo para alguém com mais poder também eram mandadas para o local: epiléticos, prostitutas, meninas grávidas que foram violentadas, esposas abandonadas para que o marido pudesse fugir com a amante, filhas de fazendeiros que perderam a virgindade antes do casamento… até timidez e tristeza eram motivos para  alguém ser deixado lá. Homens, mulheres e crianças, todos estavam vulneráveis as mais bárbaras formas de desprezo e abandono que se possa imaginar.

“[…]Foi a última vez que Luiz Pereira de Melo, hoje com setenta e oito anos, viu a mãe. Tratado como propriedade do Estado, o menino hospitalizado apenas por ser tímido se separou da família sem diagnóstico de loucura, embora não tenha sido difícil arranjar uma doença para ele. Qualquer moléstia mental serviria, afinal, o rapaz era filho da pobreza como a maioria dos depositados nos manicômios” (p.132)

Ao longo das páginas do livro conhecemos várias histórias e depoimentos de pessoas que viveram naquele lugar, bem como de funcionários que tentaram lutar contra o sistema. Ao passar das páginas ficamos chocados com as histórias de tortura e descaso. A autora nos contas de forma crua e sem cerimônias como, por muitas vezes, as pessoas deste local eram obrigadas a comer ratos e beber água do esgoto ou urina, pois não havia nada para elas. Dormiam no chão, sobre capim, pois poderes maiores decidiram que assim economizariam leitos; eram espancados, violados e recebiam choques. No frio, eram deixados nus ao relento. Muitos não chegavam a manhã seguinte. Uma forma de se maltratar digna de campos de concentração nazista. 

“- Lá existe um psiquiatra para 400 doentes. Os alimentos são jogados em cochos e os doidos avançam para comer. O que acontece no Colônia é a desumanidade, a crueldade planejada. No hospício tira-se o caráter humano de uma pessoa e ela deixa de ser gente. É permitido andar nu e comer bosta, mas é proibido o protesto qualquer que seja a sua forma. Seria de desejar que o Hospital Colônia morresse de velho. Nascido por lei, em 16 de agosto de 1900, morreria sem glórias. E, parafraseando Dante, poderia se escrito sobre o seu túmulo: quem aqui entrou perdeu toda a esperança” (p.200-201) 

Em seus quatorze capítulos conhecemos histórias de alguns internos que conseguiram sobreviver. São histórias que nos fazem sentir um mix de sensações: angústia, tristeza, indignação e revolta, pois o Colônia não era um hospital que existia para fins terapêuticos, mas, apenas, para atender a necessidades políticas. E, como sempre, os mais pobres e inocentes pagaram o preço.

Durante as décadas de 60 e 70 várias equipes fizeram reportagens sobre o local e, assim como causavam comoção pública de forma instantânea também eram esquecidas com rapidez. Durante todo o livro fica claro como o Brasil e suas leis desconheciam (e ainda desconhecem?) a doença mental, tendo como tradição o cárcere e não recursos ambulatoriais e tratamentos paliativos. Sobre esse aspecto, a jornalista nos conta sobre pessoas que lutaram, seja de forma singela ou no âmbito governamental, para que houvessem mudanças no tratamento de doentes psiquiátricos: foram propostos projetos de lei para uma reforma psiquiátrica, mas, como sempre, houveram protestos e retaliações contra aqueles que tentaram promover mudanças naquele sistema…

O livro narra um pedaço triste da história de nosso país. Repleto de fotografias, ele tem um ar pesado, de sofrimento. As imagens são chocantes e fazem o leitor permanecer pensativo por vários momentos. Quanto a estrutura, achei que houve uma falta de revisão no texto, pois há vários erros de pontuação. São 255 páginas ricamente ilustradas. A narrativa é feita de forma fácil e linguagem acessível. O que me incomodou foi um pouco da desorganização na hora de montar os capítulos: são citados vários nomes que são retomados em passagens distintas sem que haja uma recapitulação dos acontecimentos (o que me confundiu um pouco).

No entanto, creio que esse seja um livro fundamental para todas as pessoas. Não se pode esconder as atrocidades que aconteceram há pouco tempo, nem negar esse passado. Temos que lutar para que histórias como essa não se repitam, mas, infelizmente, vejo que estamos caminhando para o mesmo destino… Talvez no século XXI os protagonistas sejam outros (homossexuais, mulheres, negros), mas ainda são minorias que, por vezes, têm direitos negados e são subjugados como inferiores. Não podemos deixar que a tragédia se repita, assim recomendo para todos a leitura do livro – e fica a cargo de cada um dizer em qual parte teve mais vontade de chorar – e se perguntar: o que fazemos de bom para minimizar as injustiças e conviver com as diferenças?.

Tragédias como a do Colônia nos colocam frente a frente com a intolerância social que continua a produzir massacres: Carandiru, Candelária, Vigário Geral, Favela da Chatuba são apenas novos nomes para velhas formas de extermínio. Ontem foram os judeus e os loucos, hoje os indesejáveis são os pobres, os negros, os dependentes químicos, e, com eles, temos o retorno das internações compulsórias temporárias. Será  a reedição dos abusos sob forma de política de saúde pública? O país está novamente dividido. Os parentes dos pacientes também. Pouco instrumentalizadas para lidar com as mazelas impostas pelas drogas e pelo avanço do crack, as famílias continuam se sentindo abandonadas pelo Poder Público, reproduzindo, muitas vezes involuntariamente, a exclusão que as atinge. 
O fato é que a história do Colônia é a nossa história. Ela representa a vergonha da omissão coletiva que faz mais e mais vítimas no Brasil. Os campos de concentração vão além de Barbacena. Estão de volta nos hospitais públicos lotados que continuam a funcionar precariamente em muitas outras cidades brasileiras. Multiplicam-se nas prisões, nos centros de socioeducação para adolescentes em conflito com a lei, nas comunidades à mercê do tráfico. O descaso diante da realidade nos transforma em prisioneiros dela. Ao ignorá-la, nos tornamos cúmplices dos crimes que se repetem diariamente diante de nossos olhos. Enquanto o silêncio acobertar a indiferença, a sociedade continuará avançando em direção ao passado de barbárie (p.255).

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ARBEX, Daniela. Holocausto brasileiro. São Paulo: Geração editorial, 2013.

A mulher que escreveu a bíblia – Moacyr Scliar

Um livro. Um livro que conte a história da humanidade, de nosso povo. Um livro que seja a base da civilização. Claro, o livro, como objeto, também é perecível. Mas o conteúdo do livro, não. É uma mensagem que passa de geração em geração, que fica na cabeça das pessoas. E que se espalha pelo mundo. O livro é dinâmico. O livro se dissemina como as sementes que o vento leva (p.116).

Mocacyr-a-mulher-q-escreveu-a-biblia1São tempos difíceis para a literatura brasileira. Em uma semana perdemos João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e Ariano Suassuna. Todos vão se juntar ao nosso autor de hoje, Moacyr Scliar, outro saudoso ícone de nossa produção literária. O livro desse post é A mulher que escreveu a bíblia, e parte de uma premissa interessante: o escritor Harold Bloom, em seu livro The book of J., levanta a tese de que a primeira versão da bíblia hebraica teria sido escrita por uma mulher, na segunda metade do século X a.C. Partindo desse ponto, Moacyr Scliar (que não sei porque cargas d’água eu sempre leio Siliar) cria uma narrativa envolvente e divertida sobre como teria sido a vida dessa mulher. 

Tudo começa em uma sessão de terapia de vidas passadas onde uma mulher descobre que fora uma das setecentas esposas do Rei Salomão, porém a única que sabia ler e escrever. Essa característica lhe faria ganhar muitos pontos sobre as outras esposas não fosse um pequeno detalhe: ela era feia. Não feia comum, mas muito feia, pior que acidente de trem! Embora a feiura, a personagem utiliza-se de várias façanhas e truques para conseguir que seu marido a perceba e a reconheça como uma mulher especial.

E é nesse contexto que, após uma confusão, o Rei descobre que ela sabia escrever muito bem e a pede que faça um livro especial, junto com seis anciãos, para que suas obras fossem eternizadas. Entre um versículo e outro, nossa amiga se envolve em encrencas, realiza desejos, planeja vinganças e se torna alguém importante. 

Bom, o livro é bem divertido e fácil de ler. A linguagem é simples e bem coloquial; o autor utiliza-se de palavras populares e, até mesmo, chulas para transmitir sua mensagem. O livro é fininho (216 páginas) e não possui divisão por capítulos. Com um dom excepcional Scliar nos guia por esse tempo remoto e nos conta como o rumo da História poderia ter sido diferente caso a autoria da bíblia fosse mesmo creditada à uma mulher (muito safadeeenha pro meu gosto, rsrs).

Recomendo a todos a leitura de A mulher que escreveu a bíblia, uma narrativa simples e com diversão garantida!

SCLIAR, Moacyr. A mulher que escreveu a bíblia. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

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Vozes do Carandiru – Hélvio Borelli e Karina Florido Rodrigues

A vida é frágil e precária em qualquer cadeia. Na Casa de Detenção de São Paulo, ela podia acabar a qualquer momento, sem aviso prévio. Suas regras privilegiavam a violência em prejuízo da razão. Aos transgressores não havia perdão. O irrelevante no cotidiano aqui fora poderia se tornar o principal motivo de uma briga. As versões sobre seus próprios crimes e os fatos da vida interna sempre levavam em conta a relação entre os detentos e seus códigos de convivência. Uma questão  de sobrevivência. Aquele 2 de outubro era o dia de mais um acerto de contas entre rivais, mas terminou na maior tragédia dos presídios brasileiros. (p.37)

Hoje estou aqui para abrir meu coração… Para desgosto da minha mãe e desespero do meu pai eu ADOROlivro-digital_814281-g histórias de cadeia! Sério, podem ser livros, filmes, documentários, reportagens, ficção ou realidade eu sempre acompanho as narrativas que se passam ou que tenham como pano de fundo presídios. E é óbvio que, com esse meu gosto, eu sempre leio e vejo tudo que sai sobre o Carandiru… Lembro que li o livro do Drauzio Varella, Estação Carandiru, quando tinha uns 14 ou 15 anos e adorei; o filme eu vi no cinema e assisto toda vez que passa na TV, acho que já vi, chutando baixo, umas cinco vezes… Quando desativaram o presídio, eu estava louca para ir lá visitar. Lembro de passar em frente com o metrô, pedir pra irmos lá, mas meu pai cortou meu barato… e qual não foi minha surpresa quando achei esse livro, Vozes do Carandiru, na barraca da Feira do Livro que vendia 3 livros por 10 reais! Só não dei pulinhos de alegria porque tinha muita gente olhando…

Feita esta confissão vamos ao que interessa: o livro é composto por depoimentos dos envolvidos no episódio do Carandiru, por declarações de alguns detentos e por trechos dos relatórios da CPI. Os depoimentos são de José Ismael Pedrosa (diretor da casa de detenção na época), Luiz Antonio Fleury Filho (governador do Estado de SP de 1991 a 1995), Ubiratan Guimarães (coronel da PM do Estado de SP), entre outros. Através desses relatos podemos conhecer o outro lado da história, cada um dá seu ponto de vista sobre o ocorrido, rebate acusações e desmente (ou confirma) notícias que saíram na época. 

Além dessas declarações, ainda podemos conferir o laudo da perícia e a cronologia dos fatos. É interessante ver como cada um tem seu modo de interpretar o que aconteceu, as vezes fazendo uma mea culpa, as vezes declarando-se injustiçado. Um trecho que me chamou a atenção, e que concordei até certo ponto, foi o momento em que o Coronel Ubiratan fala sobre as mortes ocorridas entre os presos e o porquê de os policiais terem saídos ilesos:

“Ninguém entra com ânimo de matar. Já respondi muitas vezes à pergunta: por que não morreu nenhum policial? Ora, não era um jogo de basquete. Quer dizer, se tivesse morrido dez policiais, estava bom?” (p.56)

Realmente, questionar o motivo de não ter havido nenhuma morte de policiais soa até um pouco sem sentido, como se fosse melhor que algumas baixas tivessem acontecido para “dar uma igualada na balança”. Acho que não. 

O livro ainda expõe mais declarações dos envolvidos. É interessante para quem, como eu, gosta desse tipo de relato. É preciso encarar esse livro sem pré-julgamentos, precisamos ponderar os dois lados e criar nossa própria opinião. 

A parte gráfica deixa um pouco a desejar: páginas brancas e uma letra muito esquisita para se colocar num livro, ela chega a dar uma embaralhada na vista de vez em quando . No mais, são 133 páginas fáceis de se ler, sem enrolação e direto ao ponto, mas senti que faltou algo… não sei, talvez os autores poderiam ter se aprofundado mais no tema.

Como já dito, o livro é interessante para conhecer novos pontos de vista. Com o livro do Drauzio Varella podemos conhecer a versão dos detentos, com esse a versão das autoridades. Eu, particularmente, tenho uma opinião neutra sobre o assunto, não julgo nem condeno ninguém, apenas quero saber o que aconteceu – porque eu tenho esse gosto esquisito mesmo. Como o próprio Drauzio disse em seu livro, os únicos que sabem o que realmente aconteceu naquele dia são os presos, a polícia e deus. Nós já conhecíamos a versão dos presos, agora temos a dos policiais.

“Cada lado tem uma versão sobre o que aconteceu dentro do presídio. A verdade talvez esteja nos arquivos ou pode ter sido enterrada para sempre com os 111 mortos.” (Valmir Salaro, p.104)

“O maior julgamento é o da consciência. Esse é o que bate. É o que vale. Nesse eu estou absolvido” (Coronel Ubiratan, p.57)

BORELLI, Hélvio; RODRIGUES, Karina Florido. Vozes do Carandiru. São Paulo: Jaboticaba, 2007.

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