Max e os felinos – Moacyr Scliar

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Tcharam! Olha quem voltou antes do fim do ano!! E para fechar 2015 com chave de ouro trouxe um livro que é só babado, confusão e gritaria: Max e os felinos, do saudoso Moacyr Scliar!

Max e os felinos foi escrito em 1981 e conta a história do menino Max, alemão (não judeu) que se vê em uma situação de perigo quando a ameaça nazista se instaura em sua cidade. Ele, então, foge para o Brasil em um navio que, além da tripulação, também levava vários animais. No meio do caminho o navio naufraga (de propósito) e Max se vê isolado em um escaler com um jaguar. Ao chegar o Brasil, o menino consegue reconstruir sua vida, passando por momentos de emoção, tensão e todos os tipos de sentimento que alguém deve lidar em sua existência.

Bom, como todos devem saber, o livro está envolvido em uma grande polêmica com o Life of Pi, do canadense Yann Martel. A polêmica gira em torno de um possível plágio feito do livro brasileiro – fato que rodou por vários jornais brasileiros e estrangeiros e rendeu até uma declaração do próprio Moacyr sobre o ocorrido. Como de costume, muita gente estava disposta a ver o circo pegar fogo, mas após Scliar dar o assunto por encerrado, os jornalistas e babadeiros de plantão tiveram que baixar a bola…

Feitas essas considerações sobre o caso, vamos ao que interessa: o livro trata-se de uma noveleta de 80 páginas e narra a jornada no nosso herói através dos percalços que a vida lhe impôs. A narrativa é fluida e descomplicada; o autor não enrola e nos conta tudo de forma rápida, mas recheada de simbolismos. O final nos deixa uma dúvida e nos faz pensar: teria Max criado figuras em sua cabeça para tentar digerir e processar todos os sentimentos e acontecimentos que se passaram em sua vida? Quem sabe…

Como curiosidade: a parte que fala sobre Max e o jaguar no escaler (ponto considerado “inspiração” para As aventuras de Pi) é breve e não passa de poucas páginas. 

O livro é curto, mas muito pode se tirar dele, basta ter visão e entendimento para tal. Minha edição da L&PM possui dois textos introdutórios: um do próprio Moacyr Scliar falando sobre as controvérsias de Max e os felinos e Life of Pi, e outro de Zilá Bernd colocando em paralelo as duas narrativas.

Por fim, deixo-vos com algumas palavras de Moacyr Scliar, que nos faz refletir sobre quais os reais objetivos da Literatura – e que picuinhas e assuntos menores devem ser deixados de lado para que possamos ler as entrelinhas e tirar de cada texto o máximo que ele pode nos oferecer.

A literatura não é fonte de contentamento. Nem é coisa que possa ser feita pelo membro de um bloco. Ela é, essencialmente, um vício solitário. Isto não quer dizer que tenha de ser praticada numa isolada torre de marfim. A grande literatura inevitavelmente reflete o contexto social da época. Mas o faz como um sismógrafo, cuja agulha desloca-se como resposta a movimentos profundos. Espero que isso tenha acontecido, ao menos em parte, ao menos em pequena parte, com uma história chamada “Max e os felinos”. Todo o resto, francamente, não tem muita importância. (p.22)

 

4 latas

SCLIAR, Moacyr. Max e os felinos. Porto Alegre: L&PM, 2014.

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Noite em claro – Martha Medeiros

Estava tudo silencioso e de repente o céu desabou. Na televisão disseram que esta chuva vai durar uma eternidade. Eu pensei em ler um livro, mas tive uma ideia melhor: vou escrever um livro. E só vou terminá-lo quando a chuva parar (p.3).

noite em claroEu nunca tinha lido nada da Martha Medeiros na vida. Um belo dia encontrei essa edição da L&PM, gostei da sinopse e resolvi arriscar. Noite em claro é uma ótima novela (ou crônica?) em que a narradora resolve escrever durante uma noite chuvosa.

A narradora/protagonista não tem nome, apenas se identifica como uma apresentadora de TV que transou pela primeira vez 21 anos atrás. A partir dessa premissa, a autora narra as lembranças da personagem com antigos namorados/casos, as amarguras de sua vida e seu futuro incerto.

A narradora conta sua vida sem nenhuma censura ou pudor: fala sobre suas impressões em relação ao marido paraplégico e seus desejos de possuir outros homens; sobre um jovem que insiste em mandar e-mails inconvenientes e sobre o jogador de futebol semi-desconhecido que despertou sua paixão.

O livro faz parte da coleção 64 páginas da L&PM. Nessas poucas páginas, Martha Medeiros mostra sua facilidade em escrever em um tom coloquial, fácil e sem enrolação. A narração em primeira pessoa nos deixa mais próximos da personagem; dividimos com ela suas frustrações, seus prazeres e sua solidão. O texto é limpo, não há frases ou parágrafos soltos. Eu li toda a história enquanto esperava o ônibus – o que me fez querer todos os livros da coleção.

Para quem não tem costume de ler, uma boa é começar por esses livretos da L&PM (que custam só 5 reais). Uma ótima distração na hora de esperar o ônibus, aguardar na fila, ler no banheiro…

E no final das contas é tudo escuro, é sempre noite, e quase tudo é bobagem. A gente fica sozinho, bebe demais, lembra demais, pensa demais, bate em portas estranhas, há uma festa, a festa termina, não há final feliz ou infeliz., não há final, o dia amanhece, a chuva pára, se aconteceu alguma coisa ou nada aconteceu, não faz diferença. aos poucos a gente acostuma e se enxerga (p.41).

MEDEIROS, Martha. Noite em claro. Porto Alegre: L&PM, 2012.

5 latas

ELOGIO DA MADRASTA – MÁRIO VARGAS LLOSA

Sempre é assim: embora a fantasia e a verdade tenham um mesmo coração, seus rostos são como o dia e a noite, como o fogo e a água. (p.25)

Olá minha gente, como estamos? E as férias, têm sido proveitosas? Bom, aqui vai uma diquinha supimpada para quem está à toa nesses dias de julho: Elogio da madrasta do nosso amigo de fé, irmão e camarada Mario Vargas Llosa.

O livro trata-se de uma novela com apenas 160 páginas, bem curtinho tanto que terminei de lê-lo em dois tempos enquanto estava na sala de espera do hospital (aliás, esses planos de saúde são uma vergonha! Duas horas e meia de espera para apenas cinco minutos de consulta!), mas estou bem, vou sobreviver!

O enredo gira em torno de três personagens: dom Rigoberto, viúvo que casa-se com dona Lucrécia (a madrasta do título) e o pequeno Alfonso – Fonchito para os íntimos, um garoto que tem por volta de dez anos.

No começo, a dúvida se o menino iria aceitar a madrasta pareceu um grande empecilho para o relacionamento de dom Rigoberto e dona Lucrécia, mas o menino simplesmente mostrou-se apaixonado pela sua  “nova mãe”. Apaixonado até demais… E esse amor, ora inocente, ora indiscreto, vai trilhando caminhos que marcarão o destino de cada personagem.

O texto é intercalado com imagens clássicas, no qual dom Rigoberto cria suas estórias que apimentam e dão um toque especial ao seu relacionamento com sua nova esposa. Assim, o autor vai narrando a trama propriamente dita e os devaneios de suas personagens.

Neste livro, Vargas Llosa faz uma viagem bem-humorada pela literatura erótica (escrito ainda na década de 80, o romance pode ser classificado como novela erótica – ainda que light) onde conta com maestria o envolvimento dessas três personagens.

A forma de escrever do autor é acessível a todo tipo de público, apenas nos capítulos em que narra os causos imaginários das personagens há uma linguagem um pouco mais rebuscada, mas nada muito difícil de se ler e entender. O projeto gráfico da Alfaguara é aquele típico: capa padronizada e interior ok.

Qualquer dia separem um tempinho e apreciem essa narrativa surpreendente!

 

VARGAS LLOSA, Mario. Elogio da madrasta. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2009.

5 latas

OS CANIBAIS – ÁLVARO DO CARVALHAL

Opa! Demorei, mas cheguei! Estava meio sem idéia do que postar, então fui xeretar nos meus cadernos antigos e achei um conto (ou novela) bem supimpa para comentar. O conto, ou novela, aliás quando uma história é classificada como Novela? Eu não sei diferenciar… acho que é quando o texto é muito extenso para ser um conto e curto demais para ser um romance… é isso? Enfim, a obra de hoje chama-se Os Canibais, um texto de 1866 do autor português Álvaro do Carvalhal. 

Álvaro quem? Pois é, por picuinhas históricas esse autor foi excluído do rol dos grandes autores oitocentistas, por isso muita gente nunca ouviu falar dele. O conto/novela Os Canibais possui características do romantismo, embora o autor, muitas vezes, tome partido dos realistas satirizando os românticos. Bom, o enredo é o seguinte:

(ATENÇÃO: se você não quer saber o começo, o meio e o fim da história vá fazer um xixi, senão, pode ficar à vontade)

Os canibais - edição Portuguesa

Toda a história baseia-se em um triângulo amoroso da alta burguesia: uma moça chamada Margarida e seu pretendente, Dom João, estão em um baile quando surge uma figura imponente e que chama a atenção de todos; trata-se do Visconde de Aveleda, ele se destaca dos outros homens e aguça a curiosidade de todos pelo mistério que seu semblante guarda e por seus “passos de pedra”. Margarida logo cai de amores pelo visconde, este corresponde aos amores da moça e eles marcam casamento. Dom João, mordido de ciúmes, começa a arquitetar um plano para matar o visconde.

O casamento acontece, tudo ocorre nos conformes até que na noite de núpcias, enquanto D. João se preparava para invadir o quarto dos noivos, o mistério se revela: Todo o corpo do visconde de Aveleda é falso. Pernas, braços, todas as partes são próteses. Margarida aterrorizada se lança da sacada. Nesse meio tempo, por um motivo que eu não lembro,  o corpo do visconde vai parar na lareira e começa a queimar. Dom João entra no quarto e vê o visconde queimar, depois vê Margarida morta e se mata.  A família da moça vai ao quarto, não encontra nem a noiva, nem o noivo, nem o D. João, apenas algo ao fogo, como churrasco, que parecia ser uma carne de porco, e como eles estavam com fome…

Pois é! No fim eles acabam se tornando os únicos herdeiros do visconde (embora tenham ciência de que o jantar foi o próprio visconde, eles pouco se importam com isso, apenas se preocupam em disputar o dinheiro que lhes foi dado).

Trágico, não?! Trágico e melodramático. A narrativa possui todas as nuances e características dos clássicos românticos, mas esses pontos se contrapõe ao final surreal. O narrador em primeira pessoa a todo momento é irônico; ele mente, desmente e se contradiz: em alguns momentos diz que o que narra é uma história verídica em outros diz que é uma fábula. 

Os Canibais foi totalmente inspirado no conto O homem que fora consumido (184_) de Edgar Allan Poe. Álvaro do Carvalhal utiliza nesse conto/novela conceitos (ainda que arcaicos) de tecnologia e Ciência em benefício do ser humano – como os homens biônicos que têm partes de seu corpo substituídas por máquinas – por isso é mais reconhecido não pela quantidade e qualidade de suas obras, mas por ser um representante da ficção portuguesa do século XIX. 

CARVALHAL, Álvaro do. Os Canibais. Porto: Colares editora, 2007. 72 p.

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PS: fiquei intrigada com a diferença entre conto e novela e, após escrever esse post, fui procurar na internet. Eis que nossa amiga Wikipédia me deu a resposta: “Uma novela em português é uma narração em prosa de menor extensão do que o romance. Em comparação ao romance, pode-se dizer que a novela apresenta uma maior economia de recursos narrativos; em comparação ao conto, um maior desenvolvimento de enredo e personagens. A novela seria, então uma forma intermediária entre o conto e o romance, caracterizada, em geral, por uma narrativa de extensão média na qual toda a ação acompanha a trajetória de um único personagem (o romance, em geral, apresenta diversas tramas e linhas narrativas)”. (fonte)

E não é que sem querer querendo eu estava certa?