Outros jeitos de usar a boca – Rupi Kaur

como é tão fácil pra você
ser gentil com as pessoas ele perguntou

leite e mel pingaram
dos meus lábios quando respondi

porque as pessoas não foram
gentis comigo

Gente, pensa num livro que traduz vários sentimentos que há muito não sabia downloadexpressar… Outros jeitos de usar a boca, da indiana Rupi Kaur, se resume em duas palavras: catarse e epifania.

Desde que vi sobre este livro na internet não consegui me segurar até compra-lo. Fui lendo aos poucos, procrastinando, pois não queria terminar. Cada poema que lia, eu parava para refletir; sabe aquela sensação, aquele sentimento que você não sabe explicar nem exteriorizar? De repente, lendo o livro, tive aquela revelação: “é isso que eu sempre senti/pensei e nunca soube manifestar!”

O livro é dividido em quatro partes: A dor, O amor, A ruptura e A cura. Como tenho essa pegada meio melancólica é óbvio que o que mais gostei foi “A Ruptura”. 

Esteticamente, o livro é curto. Os poemas, muitas vezes, são breves, mas que causam reflexão e aquele reconhecimento. Aliás, devo confessar que nunca gostei muito de poemas/poesia, pois, até o momento, não havia tido esse sentimento tão necessário: reconhecimento.

Não sei por que me rasgo pelos outros
mesmo sabendo que me costurar
dói do mesmo jeito depois.
(p. 125)

Uma característica interessante da escrita da Rupi é que em seus poemas a pontuação é quase inexistente. A impressão que tive foi que esta peculiaridade repassa ao leitor a responsabilidade de lê-los e fazer a pontuação de acordo com o cada momento.

De forma bem explícita os poemas dialogam com a alma e a existência feminina. É praticamente impossível não passar os olhos pelos escritos e lembrar ou revivenciar alguma situação ou momentos da vida – e fica também claro que os anseios e as mazelas,  em grande parte, são os mesmos para todas em qualquer parte do mundo.

Este é um livro sensível, dolorido, contemplativo e auto-reflexivo. Devo admitir que ele traduz muito de nossa alma. Por vezes me senti acolhida e abraçada; há partes bem humoradas e outras cheias de esperança – todos os ingredientes essenciais para termos em nossa vida e dependendo do momento ele poderá causar reações diferentes em quem lê. Vale a leitura e a reflexão.

acima de tudo ame
como se fosse a única coisa que você sabe fazer
no fim do dia isso tudo
não significa nada
esta página
onde você está
seu diploma
seu emprego
o dinheiro
nada importa
exceto o amor e a conexão entre as pessoas
quem você amou
e com que profundidade você amou
como você toucou as pessoas à sua volta
e quanto você se doou a elas
(p.194)

KAUR, Rupi. Outros jeitos de usar a boca. São Paulo: Planeta, 2017.

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Poema em linha reta – Fernando Pessoa

Estava andando por aí e me deparei com este poema do Fernando Pessoa. Apesar de ter mais de meio século nunca foi tão atual – em se tratando do contexto em que vivemos, com redes sociais e todas as formas de exposição que existem hoje em dia… As vezes também me pergunto: “Onde é que há gente no mundo?”

 

POEMA EM LINHA RETA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

PESSOA, F. Poesias de Álvaro de Campos. Lisboa: Ática. 1944 (imp. 1993). p. 312.

Ismália – Alphonsus de Guimaraens

Um pequeno poema para esse fim de semana (você sabe que uma pessoa é nerd quando ela, entre outras coisas, decora poemas… declaro-me culpada)!

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Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…

E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…

Lágrimas Ocultas – Florbela Espanca

Pequeno poema que traduz alguns sentimentos…

Lágrimas Ocultas

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que rí e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi outras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida…

E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago…
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim…

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Florbela Espanca

110 anos de Drummond

Como todos já sabem, se estivesse vivo Drummond estaria completando hoje 110 anos… Porém sua poesia está viva, então o poeta ainda respira através dela!

Para homenageá-lo, achei um vídeo em que o poema José é narrado pelo próprio Drummond. As imagens e a trilha sonora combinaram perfeitamente com o teor do poema.. lindo! 

JOSÉ

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José?

 

Manoel de Barros

Poeminha supimpa para vocês hoje!

Por viver muitos anos dentro do mato
moda ave
O menino pegou um olhar de pássaro –
Contraiu visão fontana.
Por forma que ele enxergava as coisas
por igual
como os pássaros enxergam.
As coisas todas inominadas.
Água não era ainda a palavra água.
Pedra não era ainda a palavra pedra.
E tal.
As palavras eram livres de gramáticas e
podiam ficar em qualquer posição.
Por forma que o menino podia inaugurar.
Podia dar às pedras costumes de flor.
Podia dar ao canto formato de sol.
E, se quisesse caber em uma abelha, era
só abrir a palavra abelha e entrar dentro
dela.
Como se fosse infância da língua.

Manoel de Barros, em “Poemas Rupestres

Quando nem Freud explica, tente a poesia! – Ulisses Tavares (org)

“Seja qual for o caminho que eu escolher, um poeta já passou por ele antes de mim.” (Sigmund Freud)

É isso aí minha gente, como eu ando meio melancólica nos últimos dias o livrinho de hoje é quase uma sessão de psicanálise: Quando nem Freud explica, tente a poesia é um apanhado de poemas de vários autores (uns conhecidos, outros nem tanto) que falam, ao seu modo, sobre os questionamentos que nos fazemos ao longo da vida – e que tentamos resolver com terapia.

O livro é dividido em oito partes, todas são introduzidas com uma citação do Freud sobre o tema proposto e, logo após, com uma outra citação de um poeta sobre a mesma questão. É interessante ver como os poetas escrevem – e descrevem – de forma simples e direta o que os estudiosos da psicologia vêm estudando a anos. 

Como já disse no parágrafo anterior, o livro está dividido em oito partes, ou oito áreas de estudo: O eu; O outro; O corpo; A alma; A vida; A morte; O sonho; A realidade. Para vocês verem a relação que há entre poesia e psicologia, vou colocar aqui as frases introdutórias de alguns capítulos.

O EU:

“Não se deve tentar erradicar os complexos da pessoa, mas sim entrar em acordo com eles.” (Freud) 

“Eu moro dentro de mim mesmo.” (Mário Quintana)

O CORPO: 

“O eu é acima de tudo corporal.” (Freud)

“A felicidade pode ser de carne e de pele apenas.” (Armando Freitas Filho)

A REALIDADE:

“Toda civilização tem sido construída sobre a coação e a repressão dos impulsos.” (Freud)

“Fôssemos infinitos/ Tudo mudaria/ Como somos finitos/ Muito permanece.” (Bertolt Brecht)

Dentre os poetas selecionados no livro, podemos destacar: Casimiro de Abreu, Gregório de Matos, Augusto dos Anjos, Paulo Leminski, Ferreira Gullar e Florbela Espanca. Muitos dos outros relacionados são semi-desconhecidos (pelo menos pra mim), mas nem por isso têm seu valor reduzido.

Vou confessar para vocês que o que mais me atraiu nesse livro foi o título! Eu não escolho um livro pela capa, mas o título… esse sim me pega de jeito e me faz até ler um livro de poesia – e eu nem gosto tanto de poesia assim! Mas sejamos sinceros, quem nunca se identificou com o que um poeta disse? Quem nunca pegou um trecho ou mesmo um poema inteiro e pensou “nossa, isso foi feito para mim”?

É isso aí rapaziada, vamos dar mais créditos para os estudiosos dessa arte que é a Literatura, afinal se a Ciência tem a cura para os males do corpo, a poesia tem a cura para os males da alma…

“Os poetas e os romancistas são os nossos mestres do conhecimento da alma, pois bebem de fontes que ainda não se tornaram acessíveis à ciência” (Sigmund Freud) 

 

TAVARES, Ulisses (org). Quando nem Freud explica, tente a poesia. São Paulo: Francis, 2007.

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