Para cima e não para Norte – Patrícia Portela

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Os Homens Espaciais não deslizam pelo Mundo Plano. Os Homens Espaciais colecionam, arquivam, organizam informação plana para poderem comunicar, repensar, preservar o seu conhecimento. Os Homens Espaciais precisam do Mundo Plano para pensar. Os Homens Espaciais precisam do Mundo Plano para ter idéias!
(p. 83)

Gente! Depois de 5.000 anos estou de volta! Esse último mês foi bem complicado; estágio novo-velho, trabalho interminável na faculdade, mil documentos para entregar no projeto da USP, mas estou viva! E para comemorar que sobrevivi a tudo isso, hoje trago um livro da autora portuguesa Patrícia Portela: segurem-se nas cadeiras que Para cima e não para norte vai fazer você perder o rumo!

O livro trata da história verídica de um Homem Plano. Esse homem vive nos livros uma vidinha pacata, até que um belo dia ele se depara com uma letra diferente… ele fica intrigado com aquela letra e começa a pesquisar. Em suas pesquisas descobre que a tal letra é uma impressão digital, a partir daí o Homem Plano começa uma jornada em busca de respostas e do Mundo Espacial.

Bom, primeiramente devo dizer que esse livro é muuuuuito viajado. É quase um desafio passar pelas páginas sem tentar achar simbolismos ou metáforas. Não, a coisa é literal: “o Homem Plano é um super-herói, que se descobre com apenas duas dimensões e se desafia a conquistar uma terceira, passando por várias noções de perspectivas”. No começo eu achava que o Homem Plano era uma ilustração, depois ele disse que era um ponto, depois eu fiquei sem saber o que pensar. Esse é o tipo de livro que para você conseguir captar tudo sem perdas é preciso uma imaginação fértil gigante (ou usar algumas dorgas)!

Em várias passagens o Homem Plano conversa com o leitor, na verdade o narrador-personagem conta sua história diretamente para que está lendo. Ele dialoga, se explica e faz questionamentos para os Homens Espaciais, ou seja, para aquele que está lendo o livro. Mas a conversa existente entre a personagem e aquele que lê o livro fica mais clara quando o Homem Plano diz que só existe enquanto tem alguém lendo um livro. Neste ponto não pude deixar de fazer uma analogia com o livro em si, pois a história de um livro só existe enquanto há alguém para lê-lo…

Bom, deixando as divagações de lado, devo dizer que o projeto gráfico desse livro é IN-CRÍ-VEL! As páginas são de papel pólen de gramatura alta, a capa tem uma textura meio emborrachada e muito gostosa. Toda a história não é contada apenas em linhas e palavras, a autora utiliza de todos os recursos possíveis para desenvolver sua trama. Nada no livro é dispensável, as notas de roda pé, ilustrações, gráficos, fotografias e palavras de vários tamanhos e fontes guardam partes importantes do enredo. Na figura abaixo temos um belo exemplo desse processo:

Apresentação1

Em um dado momento do livro o Homem Plano vai para cadeia. Durante o período em que ele conta a história preso as páginas contêm barras na margem inferior (imagem 1). A figura 2 mostra um dos vários recursos tipológicos que estão presentes no livro.

Para cima… faz parte da série Novíssimos da editora Leya. A coleção conta com cinco livros de importantes autores da literatura portuguesa contemporânea (por isso mesmo a escrita está em português de Portugal, o que pode causar estranheza para os leitores desavisados). Fica a dica para aqueles que querem sair do lugar comum e enfrentar uma leitura diferente e cheia de surpresas!

PORTELA, Patrícia. Para cima e não para norte. Rio de Janeiro: Leya, 2012.

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OS CANIBAIS – ÁLVARO DO CARVALHAL

Opa! Demorei, mas cheguei! Estava meio sem idéia do que postar, então fui xeretar nos meus cadernos antigos e achei um conto (ou novela) bem supimpa para comentar. O conto, ou novela, aliás quando uma história é classificada como Novela? Eu não sei diferenciar… acho que é quando o texto é muito extenso para ser um conto e curto demais para ser um romance… é isso? Enfim, a obra de hoje chama-se Os Canibais, um texto de 1866 do autor português Álvaro do Carvalhal. 

Álvaro quem? Pois é, por picuinhas históricas esse autor foi excluído do rol dos grandes autores oitocentistas, por isso muita gente nunca ouviu falar dele. O conto/novela Os Canibais possui características do romantismo, embora o autor, muitas vezes, tome partido dos realistas satirizando os românticos. Bom, o enredo é o seguinte:

(ATENÇÃO: se você não quer saber o começo, o meio e o fim da história vá fazer um xixi, senão, pode ficar à vontade)

Os canibais - edição Portuguesa

Toda a história baseia-se em um triângulo amoroso da alta burguesia: uma moça chamada Margarida e seu pretendente, Dom João, estão em um baile quando surge uma figura imponente e que chama a atenção de todos; trata-se do Visconde de Aveleda, ele se destaca dos outros homens e aguça a curiosidade de todos pelo mistério que seu semblante guarda e por seus “passos de pedra”. Margarida logo cai de amores pelo visconde, este corresponde aos amores da moça e eles marcam casamento. Dom João, mordido de ciúmes, começa a arquitetar um plano para matar o visconde.

O casamento acontece, tudo ocorre nos conformes até que na noite de núpcias, enquanto D. João se preparava para invadir o quarto dos noivos, o mistério se revela: Todo o corpo do visconde de Aveleda é falso. Pernas, braços, todas as partes são próteses. Margarida aterrorizada se lança da sacada. Nesse meio tempo, por um motivo que eu não lembro,  o corpo do visconde vai parar na lareira e começa a queimar. Dom João entra no quarto e vê o visconde queimar, depois vê Margarida morta e se mata.  A família da moça vai ao quarto, não encontra nem a noiva, nem o noivo, nem o D. João, apenas algo ao fogo, como churrasco, que parecia ser uma carne de porco, e como eles estavam com fome…

Pois é! No fim eles acabam se tornando os únicos herdeiros do visconde (embora tenham ciência de que o jantar foi o próprio visconde, eles pouco se importam com isso, apenas se preocupam em disputar o dinheiro que lhes foi dado).

Trágico, não?! Trágico e melodramático. A narrativa possui todas as nuances e características dos clássicos românticos, mas esses pontos se contrapõe ao final surreal. O narrador em primeira pessoa a todo momento é irônico; ele mente, desmente e se contradiz: em alguns momentos diz que o que narra é uma história verídica em outros diz que é uma fábula. 

Os Canibais foi totalmente inspirado no conto O homem que fora consumido (184_) de Edgar Allan Poe. Álvaro do Carvalhal utiliza nesse conto/novela conceitos (ainda que arcaicos) de tecnologia e Ciência em benefício do ser humano – como os homens biônicos que têm partes de seu corpo substituídas por máquinas – por isso é mais reconhecido não pela quantidade e qualidade de suas obras, mas por ser um representante da ficção portuguesa do século XIX. 

CARVALHAL, Álvaro do. Os Canibais. Porto: Colares editora, 2007. 72 p.

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PS: fiquei intrigada com a diferença entre conto e novela e, após escrever esse post, fui procurar na internet. Eis que nossa amiga Wikipédia me deu a resposta: “Uma novela em português é uma narração em prosa de menor extensão do que o romance. Em comparação ao romance, pode-se dizer que a novela apresenta uma maior economia de recursos narrativos; em comparação ao conto, um maior desenvolvimento de enredo e personagens. A novela seria, então uma forma intermediária entre o conto e o romance, caracterizada, em geral, por uma narrativa de extensão média na qual toda a ação acompanha a trajetória de um único personagem (o romance, em geral, apresenta diversas tramas e linhas narrativas)”. (fonte)

E não é que sem querer querendo eu estava certa?