Prisioneiras – Drauzio Varella

Violência de gênero é flagelo que de uma forma ou de outra atinge todas as mulheres brasileiras, mas o ônus se concentra de maneira desproporcional entre as mais pobres e as negras, como constam as estatísticas. É nas áreas periféricas das cidades que o despotismo masculino exibe sua face mais brutas (p.268).

Benfazejos camaradas! Eu voltei para comentar o mais novo livro do médico, escritor e popstar Drauzio Varella: Prisioneiras fecha o ciclo e encerra a trilogia do cárcere que tanto fascinou os leitores.

8625784e-f014-4048-8c77-b73a1cf09f57O que podemos dizer sobre este livro: assim como nos antecessores Carandiru e Carcereiros, o livro conta pequenas histórias de vida dessas mulheres que estão presas, por motivos diversos, e nos mostra como a vida foi dura com a maioria delas.

O que me chamou a atenção, e que quase todas têm em comum, é o histórico de violência e descaso que muitas delas sofreram antes de entrarem para o mundo do crime. São histórias de violência doméstica, abusos e falta de perspectiva que se assemelham em quase todos os relatos. Em alguns casos a ganância e a sensação de poder também dão o toque para que a vida delas fosse para um caminho sem volta. Em alguns casos é possível se apiedar e sentir compaixão por aquelas pessoas que, as vezes ingenuamente, foram parar na ilegalidade.

Através da escrita fluida e que prende o leitor, Drauzio Varella consegue nos colocar dentro dos acontecimentos e, muitas vezes, nos faz refletir: o que eu faria nesta situação? É sempre um exercício de auto-reflexão e empatia. Lógico, nada justifica os crimes cometidos, mas é sempre bom sabermos olhar por outra perspectiva.

Um detalhe que me causou um certo incomodo foi que, apesar de o livro se chamar “Prisioneiras” e todo o enredo ser dedicado para contar as histórias delas, durante muitos capítulos elas foram esquecidas e a história do Carandiru e dos homens que lá estavam tomou o lugar de protagonista, deixando a verdadeira intenção do livro em segundo plano. Ele repete esta quebra em vários pontos, o que me deixou meio agoniada, pensando “ok, ok, disso eu já sei, vamos voltar para o foco”.

No mais, os pontos que ele mais ressalta, e que podem ser transpostos para a nossa realidade, são sobre a solidão e o abandono. Uma vez que na imensa maioria das vezes são as mulheres que assumem o papel de cuidadoras, quando elas mais necessitam são esquecidas por todos. Talvez não tão diferente do que acontece “no mundo de cá”.

Um ponto interessante é que o autor se utiliza das narrativas para discutir muitos outros temas: drogas, aborto, solidão, violência, sexualidade, leis, etc. Um fato interessante, e que deve fazer muitas pessoas refletirem a respeito é a surpreendente conclusão que ele chega ao vivenciar aquele ambiente: Toda mulher é prisioneira. Em maior ou menor grau, todas somos tolidas de alguma liberdade.

É pouco provável que a restrição do espaço físico, o confinamento com pessoas do mesmo sexo, a falta de carinho e da presença masculina e o abandono afetivo imponham de forma autocrática a homossexualidade no repertório sexual das mulheres presas.
É mais razoável pensar que esse conjunto de fatores apenas cria as condições socioambientais para que a mulher ouse realizar suas fantasias e desejos mais íntimos, reprimidos na vida em sociedade.
No universo prisional [elas] podem viver sua sexualidade da forma que lhes aprouver, sem enfrentar repressão social. Paradoxalmente, talvez a cadeia seja o único ambiente em que a mulher conta com essa liberdade (p.166).

Ademais, o livro é muito bem escrito e tem aquela forma envolvente que já conhecemos. Drauzio Varella não tenta ser imparcial, ele dá suas opiniões, aponta falhas e se posiciona diante das situações descritas. São 276 páginas que fluem de maneira leve, mas com conteúdo, para que possamos matar a curiosidade acerca do assunto e refletirmos sobre a realidade de nosso país.

De todas os tormentos do cárcere, o abandono é o que mais aflige as detentas. Cumprem suas penas esquecidas pelos familiares, amigos, maridos, namorados e até pelos filhos. A sociedade é capaz de encarar com alguma complacência a prisão de um parente homem, mas a da mulher envergonha a família inteira (p.38).

4 latas

 

VARELLA, Drauzio. Prisioneiras. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

Vozes do Carandiru – Hélvio Borelli e Karina Florido Rodrigues

A vida é frágil e precária em qualquer cadeia. Na Casa de Detenção de São Paulo, ela podia acabar a qualquer momento, sem aviso prévio. Suas regras privilegiavam a violência em prejuízo da razão. Aos transgressores não havia perdão. O irrelevante no cotidiano aqui fora poderia se tornar o principal motivo de uma briga. As versões sobre seus próprios crimes e os fatos da vida interna sempre levavam em conta a relação entre os detentos e seus códigos de convivência. Uma questão  de sobrevivência. Aquele 2 de outubro era o dia de mais um acerto de contas entre rivais, mas terminou na maior tragédia dos presídios brasileiros. (p.37)

Hoje estou aqui para abrir meu coração… Para desgosto da minha mãe e desespero do meu pai eu ADOROlivro-digital_814281-g histórias de cadeia! Sério, podem ser livros, filmes, documentários, reportagens, ficção ou realidade eu sempre acompanho as narrativas que se passam ou que tenham como pano de fundo presídios. E é óbvio que, com esse meu gosto, eu sempre leio e vejo tudo que sai sobre o Carandiru… Lembro que li o livro do Drauzio Varella, Estação Carandiru, quando tinha uns 14 ou 15 anos e adorei; o filme eu vi no cinema e assisto toda vez que passa na TV, acho que já vi, chutando baixo, umas cinco vezes… Quando desativaram o presídio, eu estava louca para ir lá visitar. Lembro de passar em frente com o metrô, pedir pra irmos lá, mas meu pai cortou meu barato… e qual não foi minha surpresa quando achei esse livro, Vozes do Carandiru, na barraca da Feira do Livro que vendia 3 livros por 10 reais! Só não dei pulinhos de alegria porque tinha muita gente olhando…

Feita esta confissão vamos ao que interessa: o livro é composto por depoimentos dos envolvidos no episódio do Carandiru, por declarações de alguns detentos e por trechos dos relatórios da CPI. Os depoimentos são de José Ismael Pedrosa (diretor da casa de detenção na época), Luiz Antonio Fleury Filho (governador do Estado de SP de 1991 a 1995), Ubiratan Guimarães (coronel da PM do Estado de SP), entre outros. Através desses relatos podemos conhecer o outro lado da história, cada um dá seu ponto de vista sobre o ocorrido, rebate acusações e desmente (ou confirma) notícias que saíram na época. 

Além dessas declarações, ainda podemos conferir o laudo da perícia e a cronologia dos fatos. É interessante ver como cada um tem seu modo de interpretar o que aconteceu, as vezes fazendo uma mea culpa, as vezes declarando-se injustiçado. Um trecho que me chamou a atenção, e que concordei até certo ponto, foi o momento em que o Coronel Ubiratan fala sobre as mortes ocorridas entre os presos e o porquê de os policiais terem saídos ilesos:

“Ninguém entra com ânimo de matar. Já respondi muitas vezes à pergunta: por que não morreu nenhum policial? Ora, não era um jogo de basquete. Quer dizer, se tivesse morrido dez policiais, estava bom?” (p.56)

Realmente, questionar o motivo de não ter havido nenhuma morte de policiais soa até um pouco sem sentido, como se fosse melhor que algumas baixas tivessem acontecido para “dar uma igualada na balança”. Acho que não. 

O livro ainda expõe mais declarações dos envolvidos. É interessante para quem, como eu, gosta desse tipo de relato. É preciso encarar esse livro sem pré-julgamentos, precisamos ponderar os dois lados e criar nossa própria opinião. 

A parte gráfica deixa um pouco a desejar: páginas brancas e uma letra muito esquisita para se colocar num livro, ela chega a dar uma embaralhada na vista de vez em quando . No mais, são 133 páginas fáceis de se ler, sem enrolação e direto ao ponto, mas senti que faltou algo… não sei, talvez os autores poderiam ter se aprofundado mais no tema.

Como já dito, o livro é interessante para conhecer novos pontos de vista. Com o livro do Drauzio Varella podemos conhecer a versão dos detentos, com esse a versão das autoridades. Eu, particularmente, tenho uma opinião neutra sobre o assunto, não julgo nem condeno ninguém, apenas quero saber o que aconteceu – porque eu tenho esse gosto esquisito mesmo. Como o próprio Drauzio disse em seu livro, os únicos que sabem o que realmente aconteceu naquele dia são os presos, a polícia e deus. Nós já conhecíamos a versão dos presos, agora temos a dos policiais.

“Cada lado tem uma versão sobre o que aconteceu dentro do presídio. A verdade talvez esteja nos arquivos ou pode ter sido enterrada para sempre com os 111 mortos.” (Valmir Salaro, p.104)

“O maior julgamento é o da consciência. Esse é o que bate. É o que vale. Nesse eu estou absolvido” (Coronel Ubiratan, p.57)

BORELLI, Hélvio; RODRIGUES, Karina Florido. Vozes do Carandiru. São Paulo: Jaboticaba, 2007.

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CARCEREIROS – DRAUZIO VARELLA

As cadeias são ambientes cinzentos, mesmo que não estejam pintadas dessa cor. A presença ostensiva das grades, das trancas e o som de ferro das portas quando se fecham oprimem o espírito de forma tão contundente, que em mais de vinte anos jamais encontrei alguém que dissesse sentir prazer quando entra num presídio. Ao contrário, a sensação de alívio ao cruzar o portão que dá acesso à rua é universal.  (p.115)

Essa semana terminei de ler Carcereiros, o novo livro do Dr. Drauzio Varella. Lembro de ter visto uma entrevista dele no Jô Soares e logo me vi em comichões para comprar o lançamento. Li Estação Carandiru muito antes de fazerem o filme e adorei a forma como ele conta as situações, com um olhar de quem está de fora e, ao mesmo tempo, participando de um pedacinho daquilo tudo. 

urlCarcereiros conta várias histórias sobre os homens que tem a responsabilidade de controlar uma multidão, muitas vezes, sem freios. A falta de treinamento, os baixos salários e o alto índice de periculosidade tornam essa profissão um fardo, mas que muitos carregam com maestria. A idéia de escrever um livro sobre a história desses homens veio em uma mesa de bar onde Drauzio e eles se reuniram por muitos anos. O livro é dividido em vários capítulos curtos, cada um aborda uma história diferente sobre uma personagem diferente; também retrata as impressões e sentimentos do médico em relação a tudo o que se passou.

Ao expor os dias de trabalho dos carcereiros, o autor mostra como o sistema penitenciário do Brasil é um sistema falido, sem estrutura e que só piora a situação daqueles que passam grande parte de sua vida nele (presos e carcereiros também). A rotina como médico nas carceragens fez com que o autor tivesse uma visão diferente sobre as pessoas que lá trabalham. A maioria possui esposa e filhos, por isso, além do emprego público, precisam fazer bicos fora do expediente para completar a renda – já que o salário que recebem do Estado mal dá para as contas. É perceptível também que Drauzio tenta lidar com os presos de uma forma mais humana, posição essa que, sinceramente, não me convence. Em uma passagem ele conta como as oportunidades são desiguais para as pessoas, comenta sobre a invisibilidade social e o preconceito que muitos enfrentam por serem pobres, alguns de pele escura e, ainda por cima, fora da lei. Concordo que muitos julgam sem saber, só porque alguém é da periferia não significa que seja delinquente. Muitas vezes as pessoas só enxergam aquilo que querem…

Em um lugar como uma penitenciária é impossível ser imparcial, ao tratar os doentes o médico muitas vezes se questionava se deveria mesmo gastar tanto tempo cuidando de gente que cometeu crimes bárbaros. Mesmo não cabendo ao médico julgar seus pacientes, a dúvida as vezes pairava no ar.

Só um idiota para ficar nesse inferno, fazendo a mulher esperar e deixando de encontrar os amigos, para atender esse bando de gente. Quantos deles me assaltariam na rua?  (p.222)

A obra é bem escrita, tem uma linguagem fácil e a leitura de suas 226 páginas é rápida. Os muitos nomes me deixaram um pouco confusa, mas eu sou confusa naturalmente, então… Em relação ao livro Estação Carandiru acho que Carcereiros ficou um pouco aquém, mas as histórias de vida dessas pessoas que passam seus dias dentro de uma cadeia, tentando a duras penas manter a ordem e a dignidade, com nenhum ou pouco apoio da sociedade e do Estado, mostram que mesmo nos piores lugares pode-se encontrar pessoas de boa intenção. Alguns se perdem pelo caminho, mas a maioria é honesta e está apenas tentando fazer um bom trabalho.

Depois de 23 anos frequentando cadeias, não faz sentido especular como eu seria sem ter vivido essa experiência; o homem é o conjunto dos acontecimentos armazenados em sua memória e daqueles que relegou ao esquecimento. Apesar da ressalva, tenho certeza de que seria mais ingênuo e mais simplório  A maturidade talvez não me tivesse trazido com tanta clareza a percepção de que entre o bem e o mal existe uma zona cinzenta semelhante àquela que separa os bons dos maus, os generosos dos egocêntricos. Conheceria muito menos meu país e as grandezas e mesquinharias da sociedade em que vivo, teria aprendido menos medicina, perdido as demonstrações de solidariedade a que assisti, deixando de ver a que níveis pode chegar o sofrimento, a restrição de espaço, a dor física, a perversidade, a falta de caráter, a violência contra o mais fraco e o desprezo pela vida dos outros. Faria uma idéia muito mais rasa da complexidade humana.  (p.224)

 

VARELLA, Drauzio. Carcereiros. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

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